Meu cabelo curto estava ainda mais espetado. As malas no chão. Vestia meu macacão multicolorido. Meu estômago reclamou. Imaginei aquele típico café dos filmes americanos: uma xícara de café fresco e quente, uma pilha de panquecas, frutas e muita calda.
Ao me levantar vi um garoto que nunca tinha visto antes encostado no batente da porta. Ele acenou com a cabeça. Ele era lindo: cabelos negros, pele muito clara e olhos mais claros ainda. “Porque meus pais deixaram um estranho entrar em casa?”. Mal nascera o dia e ele vestia paletó escuro e gravata vermelha. “Mãe!!!! Pai!!!!”. Gritei, mas não houve resposta. Só podia ser um sonho. Acenei de volta e me belisquei. Nada. “É melhor ser simpática e sair rapidinho. Esse cara é muito estranho.”
Seu sorriso fez um arrepio percorrer minha coluna.
- Como foi à viagem, minha doce Marina? – disse ele.
- Não fui ainda...vou esta noite – respondi, tentando entender como ele sabia da minha viagem, pois eu nem sabia quem era ele – Você é novo por aqui?
- Não!
- Você é filho do Mesquita?
- Não!
- Do Almeida?
- Não!
- Ah! – ele não era ninguém, mas como sabia de minha viagem – Se você não é nem Mesquita, nem Almeida...quem é você?
- Sou Serafim...Vim te acompanhar na viagem.
- Não! Não! Meus pais já vão comigo, obrigada!
Aquele papo estranho tomando um rumo mais estranho ainda. “Tchau”. Saí correndo. A casa estava quieta. Abri a porta do quarto dos meus pais e a cama estava arrumada, vazia. Corri para o quarto de Ícaro, vazio. Entrei correndo no meu quarto e Serafim estava encostado na janela. Gritei, gritei, mas ninguém me ouvia.
A viagem seria longa rumo à Cidade Luz! Dois anos de espera e finalmente o dia tinha chegado. Não podia estar enlouquecendo justamente neste dia. Olhei novamente e vi a passagem sobre a escrivaninha.
Desci as escadas correndo. Falcon, correu ao meu encontro, alegre e brincalhão, como todo labrador. Ouvi a moto de Amilton, o entregador de jornal. Ele seria meu salvador. Parei ao lado da caixa de correio. Gritei e acenei para Seu João, mas ele regava distraidamente suas hortênsias e nem dispensou um olhar em minha direção. Amilton retirou o diário de sua sacola e atirou por sobre sua cabeça. “enfant de la mère” – pensei, já treinando meu francês, péssimo por sinal. Meu sorriso murchou. Eu parada como uma boba, necessitando de ajuda e ele simplesmente atirou o jornal na porta de entrada, como se não me visse.
Entrei correndo em casa e fechei a porta. “Ufa!”. Quando olhei no sofá, ele estava acariciando a cabeça de Falcon. “Falcon , seu Traidor!”.
- Não temos tempo a perder, você precisa acreditar em mim...sua viagem tem que começar.
Subia as escadas num passo só, gritando por socorro.
- Pronto! Eles não estão aqui. Podemos ir agora, Marina.
- Não! Saia daqui seu maluco!
- Adolescentes...sempre a mesma história.
- Ir para onde? E minha família?
- Tudo há seu tempo, agora quero somente você!
- Você é a morte?
- Não! Sou Papai Noel!
- O que?
- Temos que ir Marina, não temos tempo a perder.
Quando ele me tocou, vi minha família se abraçando e chorando. Ouvi as sirenes, a equipe médica da emergência. A dor aguda no peito.
- Mas eu só tenho dezessete anos, sou jovem, bonita e saudável... – era muita falta de sorte morrer no dia da minha tão aguardada viagem –...talvez haja um engano, ou o médico pode me dar um choquinho e meu coração volte a bater...
- Sem chance, sem enganos...vamos!
- Mas e minha viagem à Paris?
- Cancelada!
- Meu pai nem acabou de pagar ainda...
- Que pena! As coisas acontecem...
- Mas...
-Chega!!!!! – Serafim gritou tão alto que senti as paredes vibrarem e Falcon uivou.
- Ei!! Não grite comigo! Mal te conheço... não vou a lugar nenhum – falei fazendo meu biquinho típico. – Serafim, até os maiores criminosos tem direito a um último pedido antes de morrer...
- Vamos, agora!
- Não! Tenho direito a um último desejo...
- Não sou o gênio da lâmpada... Sou a morte e vim te buscar...
- Não vou!
- Escuta aqui, Marina...sou novo nessa função, ainda estou em estágio probatório e não posso falhar... por isso vamos logo!
- Eu sou uma jovem que esperou a vida toda pela viagem dos sonhos...não aceito ir sem antes conhecer Paris.
- Você não pode fazer isso comigo. – ele falou resignado – não há segunda chamada.
- V –O-C-Ê que não pode fazer isso comigo...tenho meus direitos...e só aceito partir depois de conhecer a Cidade Luz.
Ele escorregou e sentou no chão. Mexendo nos cabelos. Levantou a cabeça e sorriu novamente. Outro arrepio percorreu minha coluna.
- Tenho uma proposta para fazer – ele disse ainda sorrindo – você vem comigo e depois te levo para conhecer Paris.
Ele devia achar que eu tinha nascido ontem. Que proposta mais ridícula. A quem ele tentava enganar. Ele precisa de ajuda. Isso!
- Nem pensar, Serafim! Tenho uma contraproposta melhor...vou viajar para Paris e na volta te acompanho e ainda me oferço para ser sua ajudante.
- Ajudante? Com quem você acha que está falando?
- Com a Morte...que precisa de ajuda...U-R-G-E-N-T-E! – respirei fundo e prossegui, não tinha mais nada a perder – você está estressado, talvez sobrecarregado de tanto serviço, se tivesse uma ajudante, tudo seria mais rápido e fácil... já pensou em tirar férias?
Ele ficou olhando enquanto eu explicava os prós e contras. Horas se passaram e o olhar de Serafim foi ganhando mais brilho, conforme me ouvia. Enfim, ele se levatou, ajeitou o paletó, passou as mãos pelos cabelos.
- Ok! Combinado! – ele respondeu – Você tem dez dias.
- Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! – não conseguia parar de repetir, enquanto lhe abraçava. - Obrigada! Obrigada!
- Estarei te esperando no aeroporto. Se divirta!
- Obrigada! Obrigada! – conclui que Serafim era bem sensato, apesar de ter um péssimo gosto para roupas - Vou aproveitar cada segundo e lhe trarei uma lembrancinha.
Beijei seu rosto pálido e frio e ele desapareceu.
Embarquei com a minha família naquela noite. Hoje é minha última noite em Paris. Tudo aqui é maravilhoso. Os cafés sensacionais. Acabei que fechar minhas malas. Valeu a pena cada segundo. Agora me preparo para encontrar Serafim no aeroporto. Será uma longa viagem.
Então só me restar dizer: Até um dia!