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  1. LONGE DE CASA

    13/08/2009

    Por Cris Costa


    O sol invadiu a janela e atingiu meus olhos. Abri-os com muita dificuldade e espreguicei. Começava o dia tão aguardado. No calendário na mesinha de cabeceira, cada dia passado estava riscado de vermelho.

    Meu cabelo curto estava ainda mais espetado. As malas no chão. Vestia meu macacão multicolorido. Meu estômago reclamou. Imaginei aquele típico café dos filmes americanos: uma xícara de café fresco e quente, uma pilha de panquecas, frutas e muita calda.

    Ao me levantar vi um garoto que nunca tinha visto antes encostado no batente da porta. Ele acenou com a cabeça. Ele era lindo: cabelos negros, pele muito clara e olhos mais claros ainda. “Porque meus pais deixaram um estranho entrar em casa?”. Mal nascera o dia e ele vestia paletó escuro e gravata vermelha. “Mãe!!!! Pai!!!!”. Gritei, mas não houve resposta. Só podia ser um sonho. Acenei de volta e me belisquei. Nada. “É melhor ser simpática e sair rapidinho. Esse cara é muito estranho.”

    Seu sorriso fez um arrepio percorrer minha coluna.

    - Como foi à viagem, minha doce Marina? – disse ele.
    - Não fui ainda...vou esta noite – respondi, tentando entender como ele sabia da minha viagem, pois eu nem sabia quem era ele – Você é novo por aqui?
    - Não!
    - Você é filho do Mesquita?
    - Não!
    - Do Almeida?
    - Não!
    - Ah! – ele não era ninguém, mas como sabia de minha viagem – Se você não é nem Mesquita, nem Almeida...quem é você?
    - Sou Serafim...Vim te acompanhar na viagem.
    - Não! Não! Meus pais já vão comigo, obrigada!

    Aquele papo estranho tomando um rumo mais estranho ainda. “Tchau”. Saí correndo. A casa estava quieta. Abri a porta do quarto dos meus pais e a cama estava arrumada, vazia. Corri para o quarto de Ícaro, vazio. Entrei correndo no meu quarto e Serafim estava encostado na janela. Gritei, gritei, mas ninguém me ouvia.

    A viagem seria longa rumo à Cidade Luz! Dois anos de espera e finalmente o dia tinha chegado. Não podia estar enlouquecendo justamente neste dia. Olhei novamente e vi a passagem sobre a escrivaninha.

    Desci as escadas correndo. Falcon, correu ao meu encontro, alegre e brincalhão, como todo labrador. Ouvi a moto de Amilton, o entregador de jornal. Ele seria meu salvador. Parei ao lado da caixa de correio. Gritei e acenei para Seu João, mas ele regava distraidamente suas hortênsias e nem dispensou um olhar em minha direção. Amilton retirou o diário de sua sacola e atirou por sobre sua cabeça. “enfant de la mère” – pensei, já treinando meu francês, péssimo por sinal. Meu sorriso murchou. Eu parada como uma boba, necessitando de ajuda e ele simplesmente atirou o jornal na porta de entrada, como se não me visse.

    Entrei correndo em casa e fechei a porta. “Ufa!”. Quando olhei no sofá, ele estava acariciando a cabeça de Falcon. “Falcon , seu Traidor!”.

    - Não temos tempo a perder, você precisa acreditar em mim...sua viagem tem que começar.
    Subia as escadas num passo só, gritando por socorro.
    - Pronto! Eles não estão aqui. Podemos ir agora, Marina.
    - Não! Saia daqui seu maluco!
    - Adolescentes...sempre a mesma história.
    - Ir para onde? E minha família?
    - Tudo há seu tempo, agora quero somente você!
    - Você é a morte?
    - Não! Sou Papai Noel!
    - O que?
    - Temos que ir Marina, não temos tempo a perder.

    Quando ele me tocou, vi minha família se abraçando e chorando. Ouvi as sirenes, a equipe médica da emergência. A dor aguda no peito.

    - Mas eu só tenho dezessete anos, sou jovem, bonita e saudável... – era muita falta de sorte morrer no dia da minha tão aguardada viagem –...talvez haja um engano, ou o médico pode me dar um choquinho e meu coração volte a bater...
    - Sem chance, sem enganos...vamos!
    - Mas e minha viagem à Paris?
    - Cancelada!
    - Meu pai nem acabou de pagar ainda...
    - Que pena! As coisas acontecem...
    - Mas...
    -Chega!!!!! – Serafim gritou tão alto que senti as paredes vibrarem e Falcon uivou.
    - Ei!! Não grite comigo! Mal te conheço... não vou a lugar nenhum – falei fazendo meu biquinho típico. – Serafim, até os maiores criminosos tem direito a um último pedido antes de morrer...
    - Vamos, agora!
    - Não! Tenho direito a um último desejo...
    - Não sou o gênio da lâmpada... Sou a morte e vim te buscar...
    - Não vou!
    - Escuta aqui, Marina...sou novo nessa função, ainda estou em estágio probatório e não posso falhar... por isso vamos logo!
    - Eu sou uma jovem que esperou a vida toda pela viagem dos sonhos...não aceito ir sem antes conhecer Paris.
    - Você não pode fazer isso comigo. – ele falou resignado – não há segunda chamada.
    - V –O-C-Ê que não pode fazer isso comigo...tenho meus direitos...e só aceito partir depois de conhecer a Cidade Luz.

    Ele escorregou e sentou no chão. Mexendo nos cabelos. Levantou a cabeça e sorriu novamente. Outro arrepio percorreu minha coluna.

    - Tenho uma proposta para fazer – ele disse ainda sorrindo – você vem comigo e depois te levo para conhecer Paris.

    Ele devia achar que eu tinha nascido ontem. Que proposta mais ridícula. A quem ele tentava enganar. Ele precisa de ajuda. Isso!

    - Nem pensar, Serafim! Tenho uma contraproposta melhor...vou viajar para Paris e na volta te acompanho e ainda me oferço para ser sua ajudante.
    - Ajudante? Com quem você acha que está falando?
    - Com a Morte...que precisa de ajuda...U-R-G-E-N-T-E! – respirei fundo e prossegui, não tinha mais nada a perder – você está estressado, talvez sobrecarregado de tanto serviço, se tivesse uma ajudante, tudo seria mais rápido e fácil... já pensou em tirar férias?

    Ele ficou olhando enquanto eu explicava os prós e contras. Horas se passaram e o olhar de Serafim foi ganhando mais brilho, conforme me ouvia. Enfim, ele se levatou, ajeitou o paletó, passou as mãos pelos cabelos.

    - Ok! Combinado! – ele respondeu – Você tem dez dias.
    - Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! – não conseguia parar de repetir, enquanto lhe abraçava. - Obrigada! Obrigada!
    - Estarei te esperando no aeroporto. Se divirta!
    - Obrigada! Obrigada! – conclui que Serafim era bem sensato, apesar de ter um péssimo gosto para roupas - Vou aproveitar cada segundo e lhe trarei uma lembrancinha.

    Beijei seu rosto pálido e frio e ele desapareceu.

    Embarquei com a minha família naquela noite. Hoje é minha última noite em Paris. Tudo aqui é maravilhoso. Os cafés sensacionais. Acabei que fechar minhas malas. Valeu a pena cada segundo. Agora me preparo para encontrar Serafim no aeroporto. Será uma longa viagem.

    Então só me restar dizer: Até um dia!



  2. Fora de mim

    12/08/2009

    A mala estava pronta
    Peguei o ônibus
    Sem rumo
    Nem prumo
    E fui ao encontro
    Do vazio
    Que se transformou a minha vida
    Queria poder encontrar-te
    Mais uma vez
    Dei o sinal
    A porta se abriu
    Entrei
    A estrada empoeirada
    Levaria-me por novos caminhos
    Sumir de vez
    Talvez
    Um dia
    Um mês
    Um ano
    Dei um tempo
    Fora de mim.

    Por Rê Lima

  3. por Medéia
    Um dia ele apareceu na pequena cidade do interior no sul do país. Era um homem com idade indefinida, podia ter 35, talvez 45, e até mesmo 55. A barba comprida como os seus cabelos não permitiam ver as linhas do rosto. As roupas não eram farrapos, como se esperaria de um andarilho. Eram roupas boas, não caras, mas bastante usadas. Uma mochila grande nas costas era tudo o que ele tinha.

    Pediu abrigo em uma pousada na cidade. O quarto mais barato foi pago adiantado para duas semanas de estadia. Apesar do olhar de estranheza do dono da pousada no balcão, ele apenas sorriu amigavelmente, agradeceu e subiu para seu quarto.

    Quando desceu as escadas, algumas horas depois, parecia outra pessoa. Cabelo cortado, barba feita, banho tomado e roupas limpas. Perguntou sobre algum lugar para jantar, queria comida boa, caseira e barata. O dono da pousada lhe indicou o restaurante da dona Mirtes, duas quadras dali.

    Os dias se passaram assim, o homem, que agora todos sabiam se chamar Marcos, passava em todos os lugares da pequena cidade. Almoçava em algum lugar, comprava algumas coisas em outros, passeava pela praça, tomava sol na beira do rio e caminhava por todas as ruas, do centro aos bairros mais afastados. Conversava com todas as pessoas. Aliás, ouvia. Ouvia muito mais do que falava. As pessoas não sabiam quase nada sobre ele, mas a cada dia ele sabia mais das pessoas que viviam ali.

    O que sabiam dele, além do seu primeiro nome, era que ele já estava há alguns anos viajando pelo interior do estado. De cidadezinha em cidadezinha. Nunca ficando muito tempo em nenhuma. Gostava de coisas simples e tinha sempre dinheiro para pagar suas contas. Ninguém sabia de onde provinha seu sustento, pois ele não pediu emprego em local algum, mas sabiam que ele ia ao banco da cidade sacar dinheiro.
    Alguns diziam que era um milionário excêntrico que resolveu viajar pelo mundo. Outros diziam que ele era uma vítima: tinha perdido toda sua família em um acidente de carro e resolveu virar andarilho. Mas ninguém sabia nada sobre a real história de Marcos.

    Parecia uma pessoa boa e muitas vezes, só ouvindo, auxiliou alguns dos moradores. Deu conselhos bons a dona Mirtes quando ela lhe contou que seu restaurante não estava bem financeiramente. Mostrou algumas técnicas para o farmacêutico organizar melhor suas prateleiras. E até na pousada, introduziu algumas mudanças que tornaram o local mais aconchegante. Contou fábulas para os meninos e meninas que corriam nas ruas e alimentou os cães que dormiam na praça.
    Em poucas semanas a pequena e desconfiada cidade tornou-se mais acolhedora e feliz. Ninguém nem mesmo tinha percebido, mas Marcos tinha se infiltrado lentamente e alterado a rotina de todos de alguma maneira. Todos agora eram pessoas melhores e viviam mais contentes.

    Então, um certo dia, logo ao raiar do sol, quando poucas pessoas ainda movimentavam o centro da cidade (apenas o padeiro, o jornaleiro e alguns garis), ele colocou sua mochila nas costas, pagou o que ainda devia na pousada e partiu. Não deixou dívidas, apenas pessoas que sentiram sua falta. Andou pela estrada que deixava a cidade sem olhar para trás. Alguns cachorros ainda o seguiram um bom pedaço, enquanto os poucos moradores que estavam acordados podiam ver seus passos indo.

    Cada vez mais distante ele se foi, caminhando em direção a outro lugar que dele precisasse.