Não sei por que motivo as pessoas costumam se referir a mim como um ser masculino. Eu sou inteira feminina. É fato que a palavra que usam para me citar é masculina, mas foi o homem que a criou. Se uma mulher tivesse parado para pensar em mim antes de escolherem meu nome, com certeza eu teria um nome feminino.
Eu sou paciente, como somente uma mulher pode ser. Espero, como uma grávida, os bons momentos chegarem. Mas sei esperar como uma mãe ou avó os maus momentos se irem. Talvez eu pudesse me chamar Paciência, mas eu não sou apenas paciência.
Vejo as pessoas nascerem e acompanho seus dias com ansiedade. Seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas descobertas e sua vida inteira. Então os vejo envelhecer, alguns aceitando minha companhia como seu eu fosse uma grande amiga, outros lutando contra mim ferrenhamente. Mal sabem eles que não há forma de se esconder de mim. Eu estou onipresente na vida de qualquer ser. Novamente como uma mulher, acompanhando, participando, presenciando. Sempre ali, permitindo o crescimento e nunca interferindo nas suas decisões.
Alguns pensam que podem me enganar, mas eu sou passiva, apenas vejo as conseqüências dos atos que cometem. Não interfiro nas cirurgias, nas academias ou nos comprimidos.
Inventaram máquinas para tentar me burlar, mas é uma pena que só tenham funcionado na ficção e na teoria. Mesmo assim você acha que me importei? Paciência é uma das minhas maiores virtudes. Quanto mais a vida passa por mim, mais as coisas mudam.
E, apesar das mudanças, que são tão belas de se ver, eu vejo que existem padrões de repetição. Pessoas que se repetem, acontecimentos que se repetem. Às vezes uma guerra. Outras vezes uma nação ou um ditador. E eu aqui, pacientemente observando tudo o que a humanidade faz.
E você está se perguntando quem sou e por que estou fazendo este monólogo óbvio sobre a vida. Eu sou aquela que seduz os homens, sou aquela que consola os sofridos, aquela que faz passar as dores e os males. Sou quem faz a criança crescer e se tornar o adulto que ela quis ser. Sou o passado, o presente e o futuro. Sou inverno e verão, primavera e outono. Eu sou onipresente e onisciente, mas não sou um deus, muito menos uma deusa. Eles passam por mim, assim como você.
Eu sou o que chamam de Tempo, mas você pode me chamar de Ocasião, ao menos o artigo é feminino.