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  1. PERFEIÇÃO

    02/04/2008

    Saio pela rua sem ter a noção de qual caminho tomar. Se pudesse, fugiria. Mas não posso, faço parte do sistema. Meus passos ora são firmes, ora vacilantes. Esse lugar me causa estranheza. Observo a multidão que passa por mim em uma manhã gélida e me vejo em cada rosto. Como pode ser? Será que sou um deles?
    A perfeição não existe, embora continue a incessante busca pelo inalcançável, o que gera em mim uma sensação de enfado. Falas, gestos, emoções, desejos. Braços, pernas, mãos, pés, rosto, cabelo. Qual a razão de sermos iguais? Por que não ser diferente? Perfeito equilíbrio, exatidão metódica, estudada e observada por câmeras que insistem em filmar cada passo, cada gesto.
    O desejo de observar o ser humano em seu estado bruto é atribuído ao avanço tecno-científico. Afinal, todo conhecimento nos levou a esse estado de coisas. Somos livres. Toda sabedoria nos pertence.
    Novos humanos serão fabricados em série com adicionais mais avançados. Sei que sou um modelo ultrapassado. Já não sirvo para quase nada. Sugaram a minha energia, a minha esperança, o meu gozo de viver. Hoje sou um ser vazio que vaga em um universo que sinto não ser o meu.
    Essa sensação me leva a questionar qual o sentido da vida. Mas não cogito a morte, não me é permitido.
    Se pudesse choraria, mas não vim com esse adicional “de fábrica”.

    Por Rê Lima. Imperfeita, mas feliz.

  2. por Medéia
    Desde seu nascimento Marco era um garoto tímido e quieto. Sua mãe sempre dizia que ele nunca a havia incomodado chorando noites a fio, ou saindo com garotos para bebedeiras que terminassem em vômitos e horas de inconsciência.

    Sua timidez lhe empurrou para os estudos. A leitura era um prazer que não dispensava, mas quando descobriu os computadores na sua juventude, ele soube imediatamente o que ia fazer.

    Depois da graduação, se especializou em ambientes virtuais e era perito em recriar realidades no mundo virtual. Seu trabalho na SyCorp era gratificante financeiramente e ele tinha todo o apoio tecnológico para suas criações. A SyCorp desenvolvia softwares de realidade virtual para jogos, simuladores de vôo e, secretamente, para uma agência ligada ao governo que treinava homens para o combate.

    O trabalho de Marco nos últimos 14 meses era em um software secretíssimo encomendado por esta agência governamental. Por ser tão sigiloso, Marco não tinha uma equipe de trabalho: trabalhava só. Também tinham vasculhado sua vida em busca de nódoas que não foram encontradas, além de lhe fazerem assinar um termo de responsabilidade, o que garantia à agência o silêncio de Marco.

    A tecnologia utilizada era de última geração e Marco estava tão absorto em seu trabalho que nem mesmo ia mais para casa, ou ligava para sua mãe. O ambiente recriava a Amazônia perfeitamente, e quem estivesse ligado ao video-capacete e a roupa VRML, não faria diferença da Amazônia real e da virtual.

    Marco até mesmo tinha incluído alguns “easter eggs”, porém muito escondidos, pois era um trabalho extremamente profissional e se os chefões da agência descobrissem suas surpresas ele poderia responder um processo por isso.

    Neste dia em especial, Marco estava trabalhando ininterruptamente há quase 18 horas. Fazia testes com os personagens virtuais que havia criado no simulador e estava usando os equipamentos virtuais. A roupa o fazia suar, mesmo com o ar-condicionado ligado no máximo. E o vídeo-capacete já havia tirado sua noção de realidade. Explorava alguns dos ambientes da Amazônia que ele mesmo havia criado baseado em vídeos tirados in loco. Tinha total controle sobre ambiente e personagens, e analisava algumas falhas de software quando seus olhos viram ao longe algo que não devia estar lá: uma mulher.

    Em plena selva amazônica virtual, onde devia haver apenas bichos nativos criados por software e alguns guerrilheiros e soldados, uma mulher, alta, pele translúcida, cabelos negros e corpo esguio se banhava no rio feito de bits.

    Seus olhos não podiam acreditar. Alguém tinha que ter programado aquela mulher, mas Marco não sabia quem, pois este projeto era única e exclusivamente seu. Ficava trancado a sete chaves. Sua sala tinha entrada através de reconhecimento biométrico, só ele com sua digital podia entrar. O servidor que utilizava não estava em rede com nenhuma máquina. Não possuía nem mesmo conexão wireless.

    Enquanto pensava nas mais diversas hipóteses, ele foi se aproximando da mulher que estava mergulhada até a cintura. Estava agora tão próximo que podia ver as gotas de água escorrendo de seus cabelos. Mas a mulher nem mesmo o olhou, continuava seu banho como se ninguém a estivesse observando.

    Ela era perfeita vista assim de tão perto. Marco procurava ver os pixels de sua definição mas não encontrava. Se não soubesse ser impossível, ele diria que ela era real e estava, assim como ele, conectada ao sistema. Ela estava nua, mas seu cabelo liso e grosso tampava os seios, e a água ligeiramente turva protegia o restante. Estava tão próximo agora que podia ouvir a respiração dela. Era só esticar os dedos e ver se ela era real, virtual ou fruto de sua imaginação.

    Sem resistir, Marco ergueu seu braço em direção a ela. Lentamente aproximou seus dedos, com medo de tocá-la. E quando seus dedos roçaram a pele da moça, Marco sentiu a suavidade de sua pele por alguns instantes, apenas uma fração de segundos, antes dela gritar e afundar na água, afastando-se dele.

    Depois de nadar até colocar uma distância segura entre eles, ela o olhou, como se o reconhecesse, e lhe sorriu. Ele não sabia o que fazer. Não tinha coragem de mexer-se e fazer a aparição maravilhosa sumir. Agora podia ver seus olhos de um intenso verde mata, confundindo-se com a vegetação. Ela abanou para ele e mergulhou. Seu cabelo negro voejando ao seu redor foi sumindo e ela desapareceu.

    Marco ainda a procurou na água, na mata ao redor, em todos os lugares que ela pudesse esconder-se e que ele conhecia melhor que sua própria casa. Foram horas até que cansado, ele desistiu de procurá-la convencendo-se que era apenas uma visão causada pelo stress e o trabalho árduo.

    Marco saiu do sistema, tirou a roupa e o capacete e resolveu tomar um banho para relaxar e espantar o calor. Era noite e ninguém mais estava na SyCorp. Relaxado e menos cansado ele resolveu procurar no código-fonte pistas sobre a misteriosa mulher. As linhas de código passavam sobre seus olhos e ele apenas via as imagens que elas representavam: onças, tucanos, araras, homens, árvores, cascatas, rios, pedras, mas nenhuma mulher como aquela. As horas foram passando enquanto o olhar de Marco percorria linhas e linhas.

    O dia já amanhecia, mostrando suas cores alaranjadas no fundo céu azul marinho. E então um bipe desviou sua atenção. Um programa de mensagens instantâneas, desativado por falta de rede, abriu-se sozinho e uma mensagem piscava na barra de tarefas. Intrigado Marco abriu a mensagem automaticamente e leu:

    “Olá, me procurando ainda? Você não vai me achar assim. Saiba que nem tudo é exato dentro de uma máquina. Até breve!”
    E na barra de títulos o nome Iara indicava de quem era a mensagem.

  3. Por: Cristiane Costa


    Um Ano. Doze Meses. 8.760 horas. Um ano é aproximadamente o intervalo de tempo que a Terra demora para dar uma volta completa em torno do Sol, conforme a ciência já descobriu.

    Os sentimentos humanos já são mais complexos, ou melhor, são inexplicáveis. A ciência busca esclarecer o que acontece com o ser humano em cada uma de suas emoções, mas, nada é muito convincente.

    Se Gabriel soubesse o quanto sua vida iria mudar a partir daquela noite, com certeza teria refeito sua agenda e mandado um de seus auxiliares para a reunião que teria.

    - Bom final de semana, Meninas! – disse Gabriel – se cuidem e não façam nada que eu não faria!!! – Ah!!!!E me desejem boa sorte!.

    Olhou para a ilha onde ficavam todas as secretárias e deu um sorriso tentador acompanhado de uma piscadela como de costume. Vários suspiros depois, todas as secretárias conseguiram responder em coro:

    - Bom final de semana, Sr. Archangelo. Boa Sorte!

    Gabriel entrou em seu Porsche e o potente sistema de som entoou “Hells Bells” da banda de rock AC/DC, música para preparar o subconsciente para o jantar daquela noite, onde iria se reunir com os executivos que representavam o Grupo V, da qual os patrões de Gabriel queriam adquirir duas estações de rádio.

    Aos trinta anos, Gabriel já ocupava o cargo de diretor de uma multinacional do sistema de comunicação. Carros, viagens e mulheres faziam parte do seu cotidiano. Tinha alcançado o topo, exatamente como sonhara em sua adolescência. Quem em sã consciência não desejou viver assim pelo menos um dia.

    Chegou ao restaurante no horário marcado e se decepcionou com as instalações, tudo era muito simples. Edoardo, parceiro de trabalho e seu melhor amigo desde a faculdade já aguardava-o na entrada.

    - Edoardo, Boa Noite!!! O pessoal da V deve estar ruim das pernas mesmo, dá uma olhada neste lugar...não beba nada que não seja aberto na sua frente pois caso contrário pode pegar uma virose. – disse Gabriel sorrindo, zombador.
    - Ainda é muito cedo para dizer se esta noite vai ser boa!! Quanto ao lugar eu pesquisei na internet e as críticas deste restaurante são ótimas, dizem que aqui se encontra o melhor parmegiana da cidade – respondeu o céptico Edoardo, não reconhecendo o humor nas palavras de Gabriel.

    Assim que o pessoal da V chegou, ocuparam a mesa reservada. Uma garçonete se dirigiu até a mesa e ofereceu a carta de vinhos. Depois de alguns minutos a jovem retornou, anotando os pedidos.

    - Traga-nos o melhor Cabernet Sauvignon que tiver, Anna. Esta noite promete ser longa – declarou Afonso, um dos executivos da V.

    Desde o momento em que desceu de seu carro, Gabriel só pensava em encerrar a negociação e comemorar mais uma vitória pessoal no mundo dos negócios. Tudo transcorreu exatamente como Gabriel havia planejado, o negócio estava praticamente fechado. Na segunda-feira o jurídico de cada grupo finalizaria o negócio. Foi quando chegou a hora de pedir a sobremesa.

    Rindo do comentário de um dos executivos, pela primeira vez Gabriel elevou a cabeça e olhou para a garçonete. Ela era simplesmente fantástica. Seus olhos eram verdes protegidos por longos cílios negros e seu sorriso indescritível. Naquele momento, Gabriel sentiu sua garganta seca, um nó no estômago e um calor inexplicável. Ouviu sinos e sussurros que pareciam pronunciar seu nome. Finalmente voltou para a realidade.

    - Anna, creio que Gabriel não vai querer sobremesa! – respondeu Edoardo – Hei!!! já está sentindo os sintomas da virose. Hei, Cara, tudo bem??? Tá engasgado...Parece que você apagou??.
    - O que??? Estou bem!!! – disse Gabriel meio sem graça - Quem é ela??? – falou assim que Anna se retirou.
    - Ora, Ora!!! Ela é a garçonete e se chama Anna... – mais uma resposta típica de Edoardo.

    E assim partiram. Curiosamente Gabriel ficou o final de semana todo em casa, não conseguia parar de pensar na jovem do restaurante. Como todo homem muito interessado em uma mulher saiu em busca de informações. Descobriu que Anna era a filha do proprietário do restaurante e trabalhava lá com toda a família, mesmo sendo formada em arquitetura. Começou a planejar um modo de conhece-la melhor e consequentemente em como conquistá-la. Sua primeira atitude foi começar a pedir almoço para oito pessoas, diariamente, para alegria das secretárias que comeram bem e economizaram durante aquelas semanas uma boa grana. Depois começou a ir pessoalmente ao restaurante. Mas ela levava o trabalho muito a sério, e só conversava alguns minutos com ele, assim, como com todos os outros clientes. Ela era inatingível. Ele era só mais um cliente do restaurante, apaixonado.

    Anna era o oposto de Gabriel, viciada em café, leitura, cinema e em jogar playstation com seu primo Guilhermo, alcançava a satisfação com as coisas simples da vida. E sempre que se permitia pensava em Gabriel.

    Um mês depois, Gabriel decepcionado com sua primeira derrota no campo pessoal, entrou em um café, estava desesperado. Planejava tomar um porre de café e depois ir para casa tomar um vidro de antiácido. Sentou-se num canto, bem escondido, só queria ler o jornal. Algum tempo depois, a garota dos incríveis olhos verdes do restaurante sentou a sua frente.

    - Não sabia que você frequentava este café??? – disse Anna

    Foi o primeiro passo, para horas de diálogo, para o mútuo conhecimento e para uma nova vida. Depois de muitos cappuccinos, combinaram de sair no fim de semana. Gabriel não precisou do antiácido naquele dia.

    Vários outros finais de semana vieram, e a companhia de Anna era tudo que Gabriel precisava. O simples fato de almoçar com a família dela ou ficar horas jogando vídeo game com ela e o inseparável e intrépido Guilhermo, fazia de Gabriel a pessoa mais feliz do mundo. Não é fácil explicar o que aconteceu com Gabriel no momento em que seu olhar cruzou com o de Anna naquela noite no restaurante, mas, muitos chamam isso de AMOR.

    Este mesmo sentimento com uma pontinha de orgulho preencheu o interior de Gabriel quando Anna entrou na igreja toda de branco e, com o maior prazer ele foi capaz de prometer fazê-la feliz para sempre.

    Somente as secretárias não ficaram tão felizes neste dia, afinal o belo solteirão não estaria mais disponível.

    Agora, acariciando o ventre crescido de Anna, grávida de sete meses, Gabriel já faz planos para a vida do pequeno Isaac. Um sentimento estranho que nunca esteve em seus planos na adolescência, nem naquela fatídica noite um ano atrás.

    O que Gabriel senti e deseja para o filho que vai nascer... a ciência ainda não é capaz de explicar.


    _______________***______________
    (a música “Hells Bells” citada no texto faz parte do álbum AC/DC Live de 1992)

  4. O Desfile
    Por Fernanda Soares

    Um imenso clarão inundava as retinas até pouco a pouco se ver em total escuridão
    Ao longe se ouvia um bumbo agonizante...tum...tum...tum
    O som de choro se misturava a burburinhos e bocejos. Como num funesto e melodioso desfile carnavalesco.
    A comissão de frente formada de glóbulos vermelhos e brancos, se degladiavam até sumirem em caudaloso rio sanguíneo.
    Os rins iniciavam junto ao fígado e o pâncreas uma vingativa parada. Todos magistralmente sincronizados como verdadeiros carros alegóricos.
    Junto a eles, montavam guarda os intestinos em complexa dança para impedir uma maior movimentação
    Todos a espera de notícias das regiões superiores
    A vesícula gritava e gritava assustada sem saber a quem temer
    O estômago como num campo de guerra devastava-se entre ácidos, sucos e dejetos
    Estranhos espasmos calorentos e febris dominavam em todas as regiões
    Nada se sabia e era assustador!
    Os neuro-transmissores não haviam conseguido enviar as informações aos outros pelotões e nem aos chefes de alas
    As células não estavam se importando com a harmonia e nem a rainha conseguia fazer sua parte, tentar conduzir a bateria a um desfile fabuloso
    Reinava o mais perfeito caos entre membranas, tecidos e ossos que gingavam frouxos como passistas em dias de desfile
    O coração havia perdido seu compasso e as artérias se entupiam chorosas, lamentando o herói morto
    O cérebro sofria enormes transtornos de consciência, mais continuava a trabalhar com a mesma leveza de um mestre-sala até que não aja mais necessidade e todos se reúnam pra posarem pras fotos da autópsia
    Já neste momento, livres dos efeitos da pouca quantidade do formol, os milhões de vermes destacados começam sua limpeza pra darem lugar a novos desfiles
    Nas dimensões extrafísicas aparelhos iam sendo desligados a medida que o laço fluídico se desprende e a essência vai se afastando do invólucro terreno no término de sua missão
    Um distinto balé vai fazendo corpo no astral. Milhões de luzes se aglutinam junto aquele casulo terreno já extinto, saudando a pura essência em sua nova morada...são como a calorosa platéia que aplaude o ser que completou sua missão no imenso sambódromo da vida.
    As estrelas cintilantes recebem aquele que retorna para um dia voltar de novo e completar a dança cósmica iniciada desde o início dos tempos

  5. DESAFIO 2

    19/03/2008


    Tema: Ciência


    Prazo para postagem: 19/03 até 02/04

    Votação: 03/04 até 09/04

    "Livros não mudam o mundo,
    quem muda o mundo são as pessoas.
    Os livros mudam as pessoas."
    Mário Quintana

    Assim também é a Ciência.
    Como os Livros, ela muda as Pessoas e, estas sim, mudam o Mundo.


    E nós temos o poder de mudar o Mundo apenas escrevendo...