Levantei-me às pressas e corri para o banheiro. Os enjoos matinais se tornaram frequentes nas últimas semanas, o que não era normal. A barriga saliente não permitia mais alegar “gastrite”, estava óbvio o motivo, ou melhor, os motivos.
Ao olhar o espelho, lembrei-me de Lucius, o estranho arrepiante que conheci no coquetel de confraternização da empresa. Seu jeito de “garoto desprotegido”, olhar perdido e ao mesmo capaz de rasgar a alma, cortou meu coração e a vontade de protegê-lo, resultou em sexo inconsequente. Um arrepio percorreu meu corpo e suas palavras voltaram a minha mente. Era como se ele soprasse as palavras em meu ouvido.
A hora estava próxima...
Trinta e poucas semanas antes...
A empresa havia conseguido uma conta multimilionária e todos os funcionários foram convidados para um coquetel em comemoração. Os dois sócios estavam presentes e eu mera secretária do setor artístico, estava mais que perdida entre todas aquelas pessoas requintadas.
Próximo ao bar, meus olhos cruzaram com o de alguém mais perdido ainda. Ele olhava para todas as direções e movimentou os lábios, na tentativa de um sorriso quando me viu. Um arrepio percorreu meu corpo quando ele caminhou em minha direção. Com olhos azuis acinzentados, cabelos negros e pele muito branca, parecia vindo de outro planeta. Era perfeição demais para uma só pessoa.
- Lucius é meu nome – disse pegando minha mão e pousando um suave beijo.
- Mariah – foi só o que consegui dizer.
Simpático, divertido e humilde, arrebatou meu coração e alma algumas horas depois. Entreguei-me inteiramente. Nunca imaginei que fosse possível todos aqueles sentimentos em um momento só.
- Mariah! Você é minha! – disse ele em meu ouvido – A partir deste momento é a mulher mais poderosa do mundo! Todos rastejarão por você – e o frio voltou a percorrer meu corpo. Uma mistura de êxtase e medo.
Acordei no dia seguinte em seu duplex, envolta em lençol de seda e pétalas de rosas. Parecia um sonho. Sobre o travesseiro dele uma caixa muito antiga de madeira com meu nome. Logo imaginei uma aliança e o pedido de casamento.
Ao abrir o horror e desespero tomou conta de todo meu humilde ser. Humilde nem tanto! Era uma questão de tempo. Dois pequenos pares de sapatos. Pequenas asas.
37 semanas depois...
O sol parecia no horizonte, o céu estava limpo e as contrações começaram. Usei o número que ele havia deixado e alguns minutos depois, o grande carro negro estacionava em frente a minha casa.
A motorista carregou as nossas bagagens e seguimos para o hospital. Todos estavam a nossa espera. As contrações aumentaram e quando Lucius apareceu em toda sua perfeição, foi como se tudo desaparecesse, hospital, médicos e as dores.
Os gêmeos nasceram alguns minutos depois de sua chegada. Dois dias depois, olhando para aquelas duas crianças perfeitas, ainda temia pelo futuro de ambos.
Lucius emitia aquilo que a meu ver era um sorriso e, por incrível que pareça nossos filhos retribuíam o sorriso. Pareciam que conversavam pelo olhar. Lindo e assustador.
