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  1. O INCRÉDULO

    11/03/2008

    Por: Cristiane Costa


    Emanuel era um homem do mundo, dono de um coração livre e independente. Quando jovem vivia em busca de novas experiências e muita emoção. Desde pequeno, nunca acreditou em nada que seus olhos não pudessem ver. Era um contador de piadas talentoso e um incrédulo convicto. Era um homem simples e até um tanto rude.
    Os anos e a paixão por Angela fizeram com que o coração de Emanuel se acalmasse e acabasse por fixar raízes na cidade. Mas os anos que passaram não conseguiram fazer com que Emanuel acreditasse nas histórias que ouvia, acreditava que tudo era fruto da imaginação dos narradores e as lendas eram invenções para assustar criancinhas e fazê-las mais obedientes.

    Do outro lado da cidade vivia Fabrício. Indiferente ao calor de 37ºC, Fabrício diariamente vestia, impecavelmente, seu traje social, a camisa sempre dobrada acima dos pulsos, exibindo o vistoso relógio de uma marca famosa. Sempre educado, cumprimentava e sorria a todos que encontrava.

    Fabrício era um homem fabuloso, com mais de 30 anos, era alto, cabelos negros e fartos, olhos verdes e um corpo muito bem definido, daqueles obtidos por horas na academia. Os olhares femininos normalmente se dirigiam a ele. Era formado em engenharia e proprietário de uma empresa especializada em auditoria na área de aviação. Devido a profissão viajava pelo menos uma vez por mês, durante uma semana. Namorava Beatriz a mais ou menos um ano. Fabrício era o mais perfeito cavalheiro. Um espécime raro. Embarcou na quinta-feira e tinha retorno programado para o sábado seguinte, para a profunda infelicidade de Beatriz que ficaria uma semana sem vê-lo.

    Emanuel estava trabalhando a mais de um ano no transporte de cana-de-açúcar, um emprego que simpatizava pois não tinha que aturar um chefe chato pegando no seu pé. Fazia o turno da noite, dirigindo seu velho caminhão. Como em todas as noites se dirigia até o campo, onde a máquina fazia o carregamento do caminhão. Enquanto aguardava o carregamento viu um vulto passando entre as canas que ainda não tinham sido cortadas, um cachorro grande que possivelmente tinha sido abandonado pelo dono, o que era muito comum nestas áreas rurais. A lua cheia, mesmo em sua última noite, iluminava o campo.

    Despediu-se dos outros motoristas que aguardavam o carregamento e pegou a estrada de terra que levava a cidade onde ficava a Usina. Ouvia uma estação de rádio local, cantarolando feliz quando percebeu pelo retrovisor o imenso vulto negro que se movia rapidamente tentando alcançar o caminhão. Foi o tempo de piscar os olhos e o mesmo havia desaparecido. Por um instante Emanuel pensou estar ficando louco, pois o vulto que viu lembrava muito o que vira no meio do canavial.

    Subitamente ouviu um barulho na lateral da cabina e ao se virar ficou cara a cara com aquele animal, que lembrava um lobo mas era muito maior que o convencional, com longa pelagem negra, olhar cortante e avermelhado, que estava apoiado no estribo do caminhão. Ao mesmo tempo em que o animal tentou agarrar Emanuel, este conseguiu desvencilhar-se do ataque e escorregou para o lado do passageiro.

    Desesperado Emanuel segurava o volante com uma mão, acelerava com um pé e com o outro tentava, sem sucesso, levantar o vidro que para sua sorte não estava completamente aberto. O animal estava enlouquecido. Totalmente arrebatado, Emanuel começou a jogar o caminhão de um lado para outro, tocando o barranco com a esperança de que o animal se assustasse ou se ferisse, mas tudo em vão. Se esquivava dos ataques da fera agora ainda mais raivosa, aquelas unhas e presas enormes e afiadas buscavam a tenra carne de Emanuel, que chutava e socava o grande lobo. Aquele animal era muito grande e forte, naquele instante Emanuel teve certeza que aquilo era um Lobisomem.

    Não se sabe quanto tempo a luta entre o homem e a fera durou, até que o grande lobo saltasse do veículo e desaparecesse em meio ao canavial. Emanuel ao chegar na Usina, branco como um papel, em um ato que muitos julgaram ser uma crise devido ao “stress”, entregou a chave do caminhão, que estava com a lateral amassada e a pintura riscada a um outro motorista que aguardava o descarregamento na Usina e nunca mais voltou a trabalhar no campo à noite.

    Depois do ataque do Lobisomem, Emanuel começou a crer que se uma lenda existe, algum acontecimento deu origem a ela. Passou a ter muito respeito, pois agora ele havia vivenciado e felizmente sobrevivido ao ataque de um Lobisomem, personagem que até então em sua vida não passava de uma lenda.

    O dia começava a surgir quando Fabrício, do outro lado da cidade, tocou a campainha da casa de Beatriz. Esta quase desmaiou ao ver o estado em que se encontrava seu belo amado. Ele estava todo sujo, com as roupas rasgadas, cheio de arranhões e hematomas. Parecia que tinha participado de uma luta de boxe com alguém muito mais forte que ele a noite inteira; os joelhos e cotovelos estavam escoriados e sangravam. Feliz por estar vivo, Fabrício abraçou a amada e começou a lhe contar os detalhes do sequestro relâmpago do qual foi vítima ao chegar na cidade. Apesar de muito cansado relatou com muito cuidado cada momento vivido. Beatriz ficou horrorizada com a crueldade e insanidade do assaltante, que enquanto agredia Fabrício com socos e pontapés ainda dirigia um veículo em uma estrada de terra.

    Depois de contar a Beatriz tudo o que lhe aconteceu, Fabrício prometeu descansar e não viajar, pelo menos não durante as próximas três semanas.
    ®Todos os direitos reservados

  2. 8 comentários:

    1. Vivi disse...

      Oi, Cris
      Bem inventivo. Amei o toque de humor que você acrescentou ao enredo. Gostei também a integração do moderno ao folclore.
      Muito bom, mesmo.

    2. Medéia disse...

      Adoro histórias de lobisomens (e vampiros, bruxas, fadas).
      Adorei o desfecho!
      Parabéns

    3. Anônimo disse...

      Olá Cris, gostei muito!!! Adoro textos sobre "seres fantásticos", produtos da imaginação do homem. Seria imaginação do homem ou o lobisomem existiria???? (uhahahahaha) Parabéns flor, você tem todo meu incentivo!!!!!!!!

    4. Fernanda disse...

      Oi Cris,
      Menina sua história é digna daqueles 'mistérios' de Dona Milú...rs
      Adorei!!

    5. disse...

      Gostei muito da témática abordada por você. Aliou suspense, terror, romance. Enfim, despertou em mim a vontade de saber se o Lobisomem atacaria novamente. Parabéns, Cris!!!

    6. Maísa disse...

      Oi Cris
      Adorei a sua história ficou bem interessante, meus parabéns.

    7. re disse...

      Parabéns!Seu texto foi muito criativo...adorei.

    8. Cris Costa disse...

      Oi, Pessoal!!!
      Agradeço aos recadinhos postados. Que sejam os primeiros de muitos, espero que continuem encaminhando elogios, sugestões e críticas, pois estes só enobrecem meu trabalho. Obrigada!!!
      Bjs