Rss Feed
  1. Tema: Sala de Espera
    Período de votação: 05/09 até 07/09

    Por Lyani

    Bateu mais uma vez o salto fino no chão de mármore. O som agudo emitido fez com que as outras pessoas, antes atentas à TV ou lendo suas revistas, se voltassem para ela. Seu rosto ficou vermelho no mesmo instante e ela cruzou suas pernas, impaciente, tentando disfarçar. Pegou uma revista e começou a folheá-la, mas não se prendia a nenhuma notícia ou foto, mesmo porque a revista era do ano retrasado. Recolocou-a sobre o estofado verde, ao seu lado, e olhou para o relógio de pulso. Suspirou: passaram-se apenas dez minutos da hora marcada para sua consulta. Sua vida atribulada tinha lhe presenteado com uma dor de cabeça insistente que, finalmente, após duas semanas de dor incessante, obrigou-a a marcar uma consulta com o neurologista.

    A clínica escolhida era próxima de seu trabalho. Por isso o salto fino, o conjunto bem alinhado de cor escura e a pasta carregada de trabalho, agora deitada em seu colo. Balançou a perna de forma compulsiva e trocou de posição várias vezes. Procurou na bolsa algo interessante que pudesse ler, praguejando baixinho por ter deixado em casa aquele livro, mesmo sabendo que esperaria muito pela consulta. Na bolsa, a carteira, os óculos escuros novos que havia ganhado do marido, o estojo com escova de dente e creme dental, o Gloss da Natura quase no fim e uma caneta. Olhando para esta, arqueou a sobrancelha e um sorriso saudoso brincou em seus lábios. Há quanto tempo não escrevia?

    Começou a lembrar da época em que bastava um tempinho livre, dentro do ônibus, do metrô, ou até mesmo durante aquela aula monótona na faculdade, para que abrisse sua agenda-diário (que carregava sempre dentro da bolsa) e começasse a escrever seus sentimentos, suas vivências, seus momentos. Será por que havia perdido esse hábito? Teria sido o dia-a-dia? As ocupações e preocupações que cercavam seus dias de cinzas?

    Passou então a tentar se lembrar de onde teria deixado aquele diário querido: no seu antigo quarto na casa dos pais? Em uma caixa esquecida no guarda-roupa de seu novo lar? De repente sentiu-se órfã. Como se houvesse perdido um amigo muito querido e agora estivesse sozinha e cheia de coisas novas pra compartilhar. Naquele instante a sala de espera e a impaciência sumiram, as pessoas sumiram. Pegou a caneta, abriu a pasta com documentos do trabalho e, sem se importar, virou uma página e começou a rabiscar um verso, com letra maltratada, de quem há muito não usa a caneta para se expressar.

    As palavras foram fluindo naturalmente, surgidas do fundo de sua alma, com uma satisfação deliciosa que há muito não sentia...

    Não, não me esqueci de você.
    Ainda me lembro do que compartilhamos
    Você sempre vazio, sereno, quieto
    Esperando meus desabafos, gritos, lágrimas
    Se enchendo aos poucos das minhas vivências
    Se completando com elas, em silêncio absoluto
    Mas sempre confidente, sempre amigo
    Sei que há muito tempo também estou silenciosa
    Ambos vazios, aguardando-se mutuamente
    Juro que não é esquecimento
    Não é troca, nem traição
    Confesso meu desleixo, tenho muito o que contar
    Mas não sei mais como
    Acho que perdi o jeito, fiquei sem jeito
    Tímida te olhando
    Observando suas cores unidas em um único tom
    Branco, vazio
    Espaço esperando palavras
    Momentos, vida.
    Eu volto, um dia eu volto

    “Lívia Marcondes”, ouviu seu nome como se a voz viesse de muito longe e olhou um pouco assustada para o médico que a esperava na porta do consultório. Será que ele havia lhe chamado já outras vezes? Acenou com a cabeça arrumando as folhas dispersas no seu colo e, ainda no estofado verde, pouco antes de se levantar, terminou de escrever a última linha:


    Eu ainda te amo.

  2. 8 comentários:

    1. Também tenho um amor-saudade pelos meus cadernos de pensamentos poéticos que também abandonei...

    2. Cris Costa disse...

      Ly,
      Seu texto ficou lindo!!!
      Uma verdadeira declaração de amor para aquele que sempre nos tolera.
      "sempre confidente, sempre amigo" - tão importante e muitas vezes esquecido...Congratulations por homenageá-lo.

      Parabéns!!!
      Adorei...
      Bjs

      Cris

    3. Robson Ribeiro disse...

      Entre as impressões deixadas
      Para trás,
      Estarão pedaços de nós.
      Entre os tantos mundos criados,
      Seremos aqueles que outros
      Encontrarão.

      Como novidade.

      //

      Lyani, parabéns pela bela abordagem.

      Robson.

    4. Vivi Bastos disse...

      Ly, sua escrita é tão gostosa e a alma pede mais. Gostei muito do tom do texto e do tema abordado. Minha relação com diários sempre foi de pouca vitalidade. Sempre feita de arroubos de recomeços e rompantes de negligência total...rsrs

      Parabéns!

      Beijocas

    5. Medéia disse...

      Emocionante Lyani!
      Adorei a forma como você abordou o tema.
      Lindo mesmo.
      Temas de amor sempre me renovam.
      Parabéns...

    6. Fernanda disse...

      Lyani está muito bom o texto! Gostei da abordagem e o achei muito bonito. Parabéns!

    7. disse...

      Ly,

      Na sala de espera do consultório a mente vaga, os pensamentos vão a mil por hora. E confidenciá-los com o amigo de todas as horas é uma forma de guardá-los para sempre conosco.
      Parabéns pelo texto!
      Bjs...Rê