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  1. Luz e Escuridão

    28/10/2008

    Tema: Mulher
    Período para votação: 29/10 a 31/10

    Por Lyani

    “Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste”
    Fernando Pessoa

    Ela tenta, sabendo que vai falhar, esquecê-lo, enquanto colhe as flores para levar à mesa da casa de sua mãe. Não quer amá-lo, nem desejar a sua escuridão e o seu sorriso sombrio e gelado. Mas sempre que é primavera ele faz tanta falta! Suspira e respira o ar impregnado de flores, lembrando-se de onde estava e seus deveres.

    Anda devagar pelo campo carregando as flores no braço. O sol tocando-lhe os cabelos e deixando um pouco mais clara a cor mel de seus olhos. Até mesmo no interior daquele imenso castelo a luz se faz intensamente presente. Não havia sequer um canto de sombra, um ponto de escuridão que pudesse amenizar a saudade.

    Sorri ao chegar à mesa com as flores colhidas, como tem que ser ao estar ali. Ouve as palavras de carinho de sua amada mãe e se sente confortada, quase feliz. As conversas, as horas, os sorrisos, os carinhos, as tarefas diárias naquela época do ano eram ótimas, não poderia reclamar, mas sempre falta alguma coisa. E o sorriso se desmancha quando está sozinha, a luz do olhar se apaga um pouco tentando relembrar, voltar ao lado sombrio em que ele estará presente.

    Ela se pergunta, às vezes, como pode sentir essa falta da escuridão, quando um dia fora apenas luz. Era feliz naquela sutileza de sentimentos, na colheita diária de flores, nas brincadeiras de roda com as amigas, na volta para casa e para o colo da mãe. Só que ele veio, um dia, trazendo toda aquela escuridão que turvou-lhe o olhar, enraizou um grito de medo na garganta, tirou-lhe o fôlego, a vida e a levou consigo.

    Sentiu tanto medo, tanta ânsia de voltar para casa, para a luz, para sua mãe, que passou meses desolada, vazia, infinitamente triste. Porém, aos poucos, toda aquela escuridão que o acompanhava onde quer que fosse, aquele ar frio desviando-lhe o humor sempre agressivo, aquela voz profunda que parecia, pelo menos quando lhe dirigia a palavra, vir de alguém tão apaixonado, começou a deixá-la curiosa por aquele lugar, aquele tipo de vida, aquele mundo. Gostava do som do seu novo nome na voz dele.

    É claro que ficou infinitamente feliz quando sua mãe, através de um Deus, foi buscá-la por não aceitar aquela separação. Mas é claro que também não pôde negar a ele seu último pedido: aceitou aquele presente que pareceu-lhe tão singelo. Saboreou-o como uma despedida eterna, um Adeus.

    Voltou à luz, ao campo, às flores. Mas já não era a mesma. Nunca mais seria a mesma e algo parecia lhe faltar, uma parte de si, como se estivesse ficado lá com ele. Descobriu pouco depois que desde então, estava condenada a viver essa eterna incompletude. Divida entre dois mundos, dois sentimentos, dois nomes e dois deveres.

    Uma parte do ano passava ao lado de sua mãe, no campo com as flores, primavera constante. A outra parte era ao lado dele que ficava, como sua esposa e devota. Uma Deusa das sombras em inverno infinito.

    Ao lhe dar aquele último presente, ele havia selado com ela um compromisso eterno de tê-la, nem que fosse apenas por uma parte do ano, desde que isso fosse para sempre. E assim se fizera, uma parte luz e outra escuridão. Em cada momento duas percepções, dois sentimentos opostos que nunca se tocam, e no entanto, nunca se abandonam. Sempre com algo a desejar, algo a doer, algo a faltar.

    Deixou a mesa, em busca do refúgio de seu quarto, dizendo estar um pouco cansada da colheita. Queria o silêncio para amenizar a voz dele que não lhe abandonava. Queria fechar os olhos um pouco, apenas para fingir estar na escuridão que o cercava, porque como sempre, ao estar na luz, no dia, no campo e nas flores, sentia falta da escuridão, sentia falta dele, do frio, do poder. E como sempre, ao estar na escuridão, na noite, na cama e nos braços dele, sentia falta da luz, das flores, da doçura.

    Menina e mulher, em função do amor e da paixão. Deusa infiel às próprias vontades, mas sempre desejada e sempre querida. Amada e adorada. Perséfone e Cora.

    E ainda assim, triste.

  2. 3 comentários:

    1. Vivi Bastos disse...

      Oi, Ly
      Seus textos são sempre profusos em sentimentos. Tenho notado também você apresenta uma estética cujo apuro nos atinge por seu contéudo. Esse é um de seus principais recursos além do conhecimento profundo dos livros que eu sei que você tem. Isso combinado torna-se um excelente combustível de inspiração. Nesse texto, em especial, foi bem trabalhado (de maneira levíssima) essa revisita a um tema denso da mitologia grega sob o ponto de vista de perséfone.
      Boa lembrança do feminino!!!!
      PS: Aqui, em BsB, o clima quentíssimo e seco está assando até o pensamento. Acho que a dança da chuva logo, logo será moda total por aqui.

    2. Cris Costa disse...

      Menina Ly,
      Que texto incrível...Que talento você tem!!!
      Para não ser repetitiva, faço das palavras de Vivi as minhas.
      Parabéns!!

      Bjs

    3. disse...

      Ly,

      Belas palavras, belo texto. Poético e profundo.
      Percebo sua entrega de corpo e alma. Fica evidente o seu envolvimento, e o resultado não poderia ser outro: um texto carregado de doçura e emoção.
      Parabéns!!!