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  1. Sol quente em dezembro no Rio de Janeiro. O grito da pequena menina do nariz arrebitado ao nascer ecoa na Santa Casa de Misericórdia. Sua mãe, pouco mais que uma menina, chora emocionada enquanto seu pai corre a contar aos parentes o nascimento de sua primogênita.

    Com seus cachinhos dourados e sua pele clara, era uma pequena alemãzinha entre os nativos da Cidade Maravilhosa. Muito sapeca e tagarela sempre demonstrou aptidão para as letras e os números. Desde muito jovem destacou-se escrevendo e fazendo contas.

    Gostava do Sítio do Pica Pau Amarelo, gostava de brincar dentro de armários e adorava viajar para o Rio Grande do Sul, na casa da sua avó. Aprendera com seu pai a paixão pelo Flamengo. Não gostava muito de praia, mas o que ela gostava mesmo era do seu mês. Do mês em que fazia aniversário: dezembro.

    A viagem antes do Natal para a casa da avó iniciava suas pequenas alegrias de dezembro. Encontrar as primas, brincar no milharal e procurar os presentes de Natal escondidos (ela nunca tinha certeza se o tal Papai Noel existia ou não). A mágica noite de Natal reunia todos os parentes para comer, cantar e celebrar. E, é claro, esperar o bom velhinho que chegava perto da meia-noite, com um saco gigante de presentes (os mesmos que ela já havia descoberto no forro da casa da avó e ainda assim achava que Papai Noel havia escondido).

    E o dia seguinte? Correr de casa em casa, desejando Feliz Natal e esperando os “pacotinhos” (cestinhos com doces e pequenos mimos que as outras vovós da rua davam às crianças). Olhar os gigantescos “Tannenbauns” enfeitados com delicadas bolas coloridas e pequenos ícones natalinos. Deliciar-se com o enorme presépio na casa da madrinha feito com grama de verdade, laguinho artificial e delicados bonecos e bichinhos de gesso que se reuniam ao redor de uma manjedoura de palha (de palha mesmo!) vendo o bebê Jesus. E então planejar sua festa: o seu aniversário.

    Sempre temáticos, com temas variando desde Verão até Futebol, a pimentinha convidava todas as crianças da rua para cantar os parabéns, comer doces e salgados, mas principalmente trazer presentes. Verão torrando de quente, brincadeiras no gramado da avó, e piscina de mil litros para apaziguar o calor.

    Passar os dias brincando, correndo, pulando, subindo em árvores e cavando na areia. Para a tardinha tomar banho, colocar roupa limpa e comer melancia gelada sentada no muro. Como era boa a sua infância.

    A menina cresceu e, depois de muito ir e vir, mudou-se de vez para a terra da sua mãe. Tornou-se gaúcha de coração, formou-se e transformou-se em educadora: lecionando sua paixão, computadores, para alunos de curso técnico. E o mês de Dezembro passou a ser uma época menos alegre.

    Finais de ano em escolas costumam ser um caos. Afogada na burocracia em forma de papéis, ela sempre espera o Natal chegar para iniciar a época mágica novamente. Mas a cada ano que passa a mágica diminui e os papéis aumentam. A quantidade de trabalho que há nesta época rivaliza apenas com a quantidade de trabalho do próprio Papai Noel. Ele, ao menos, pode se divertir indo de trenó a todas as partes do mundo, enquanto ela fica em frente a uma mesa ou ao computador, corrigindo provas e fechando notas e diários de classe.

    Cada novo Natal, antes do seu aniversário, se torna um pouco mais triste, pois a cada ano menos pessoas estão ali reunidas. Menos alegria, menos crianças, menos presentes e cantorias. Nem mesmo um Papai Noel é esperado à meia-noite. Apenas um beijo cálido em seu companheiro, um abraço forte em seus familiares e algum champanhe para comemorar, junto é claro com a boa comida da mãe.

    Mas a esperança ainda está no coração daquela que um dia foi uma pequena garotinha de cachos loiros e nariz arrebitado. Quem sabe no próximo Dezembro uma outra garotinha esteja com ela para reavivar a chama e a magia que Dezembro sempre lhe trouxe. Afinal através da infância, a magia e a esperança podem renascer no coração das pessoas.

    Feliz Natal a todos e um maravilhoso e mágico final de Dezembro!

  2. 5 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Menina Medéia,
      uma autobiografia...você arrasou!!!
      Lindo!!!
      (ps: que dia a menina de nariz arrebitado nasceu???)

      Bjs

    2. lyani disse...

      Lindo!!!
      que bela biografia e ainda com uma foto, FOFÍSSIMA... amei!
      É bom conhecer um pouquinho mais de vocês a cada rodada.
      Parabéns pelo lindo texto!
      bjos

    3. Vivi Bastos disse...

      Linda foto, Medéia! Em pose de mocinha...rs

      Bem, gostei de suas memórias. Delineou bem seu estado de espírito atual com suas recordações. Bonito!

    4. disse...

      Oi Medéia.

      Nessa época do ano ficamos mais sentimentais, não é mesmo?
      Os textos desta rodada me parecem bem confessionais.
      É o efeito dezembro.
      É bom nessa época voltarmos a infância e abrir o nosso baú de memórias para buscar o verdadeiro sentido do Natal.
      Gostei do texto!
      Bjs.Rê