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  1. Essa Esperança

    02/03/2009

    XXI Desafio
    Tema: Desdobre o Texto
    Período para votação: 06 a 09 de Março

    “O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente”

    Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crockett

    Por Lyani

    Primeiro fitou o teto branco com duas estrelinhas daqueles adesivos que brilham no escuro e que tinham descuidadamente esquecido de tirar antes de pintar quando se mudaram. Suspirou três vezes, a última de forma profunda e dolorosa, como se aquela rotina diária doesse mais do que era capaz de suportar. Mas suportava. Todos os dias. Virou o rosto para o criado mudo e para a foto dela sorrindo estática. As sardas no rosto claro e os olhos cor de mel que sempre o encantaram. Uma lágrima poderia ter se desprendido dos cílios úmidos e corrido pela face pálida neste momento, mas não era a primeira vez que fazia isso. Não seria a última. Ainda não. E não houve lágrima, só o movimento de levantar-se. Sentou-se na cama, os ombros pesados. Havia se passado quanto tempo desde a última vez? Ergueu-se por inteiro e respirou o ar pesado da ausência arranjando força pra andar até o guarda-roupa. Abriu a primeira porta só para encontrar o vazio. Os cabides negros em contraste com a madeira clara sequer se moviam. Nunca. Abriu a segunda porta, a terceira e na última seu coração sempre disparava ao ver alguma roupa. Mas era a sua própria roupa. Era sempre a sua própria roupa. E era nesse momento que corria pela casa, gritando aquele nome tão seu, tão dela. Procurava no banheiro, na sala de estar, na copa, na cozinha. E então parava na sala, um pouco diante da porta de entrada ao lado daquele vaso que ela adorava e ali se lembrava, com olhos chocados e cansados que ela não estava lá. Nunca mais estaria lá de novo. Então se jogava no sofá, sempre no canto mais afastado do telefone porque sabia que tocaria, sempre no mesmo horário todo dia. Era sua mãe querendo que ele parasse com aquilo, que se lembrasse de que estava vivo e que tinha que voltar a fazer alguma coisa. Às vezes depois que o telefone tocava sem nenhuma menção dele atender, ela aparecia. Sempre meia hora depois da ligação, com aquele ar maternal, trazendo comida, conversando sobre coisas amenas, tentando persuadi-lo a ir a um psicólogo. E era sempre a mesma coisa. Olhar vazio para ela, para qualquer coisa ou qualquer um. Balançar de cabeça como se concordasse em fazer qualquer coisa só pra voltar a ficar sozinho e ela ia embora com o olhar mais triste do que quando chegara. Olhar de derrota. O seu também. Fazia quanto tempo desde o ultimo riso dela que ouvira naquela mesma sala? Quais foram as suas últimas palavras no jardim? Qual foi a última refeição que ela cozinhou? A última roupa que tocou? O último olhar foi em direção a que móvel? Quadro? Flor? Por quanto tempo ele fazia aquilo todo dia? Na esperança de que algum dia, ele iria acordar com a respiração dela e não com o silêncio. Que o despertador iria tocar no horário de sempre, e iria estender o braço e encontrar o corpo dela na cama ao seu lado e sorririam um para o outro. Tomariam café da manhã juntos e iriam trabalhar, esperando o momento de estarem juntos de novo. Por quanto tempo essa esperança iria perturbar ainda?

  2. 5 comentários:

    1. Medéia disse...

      Todos os nossos textos tiveram um quê de nostalgia.
      Gostei bastante do seu.
      Beijão

    2. Mônica Costa disse...

      Olá. Parabéns pelo texto, é cativante!

      Você consegue prender a atenção do leitor.

    3. Vivi Bastos disse...

      Oi, Ly
      O seu texto encarna fielmente o sofrimento pessoal do personagem. Um texto que sente demais, é divagante e emocinal, no que tange ao sentido técnico. Isso tudo faz com que a narrativa esteja em coesão com a proposta de estranhamento e contradição que o texto de Sousa Tavares sugere. Parabéns!

    4. Cris Costa disse...

      Lyane,

      Adoro a forma como escreve, você tem muita facilidade em passar o real sentimento de seus personagens, transformando em palavras.

      Lindo, parabéns!!!

      Bjs

    5. disse...

      O texto é objetivo e coloca o leitor frente a frente com o dilema vivido pela personagem: seus temores, suas culpas, seus questiomentos.
      A trama psicológica que envolve a personagem foi bem traçada e o questionamento final sinaliza a dúvida que ainda persiste e artomenta seus pensamentos.
      Muito bom o texto!!!!