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  1. Irresistível

    05/03/2009

    Por: Cris Costa

    Não soube identificar se era noite ou se era dia. O silêncio era incomum, o que fazia parecer noite; a claridade porém, fazia parecer dia. O relógio não estava no local de costume, a cortina totalmente fechada. “Droga! Que horas são?”.

    Apalpou o outro lado da cama e teve certeza de que ele estava vazio a um bom tempo, pois nem desfeito estava. Tocou de leve a colcha e o travesseiro, procurando a forma e o calor do corpo que ele tanto desejava.

    Então, decidiu que devia verificar o que estava acontecendo. Sentou-se na cama e procurou pelos chinelos que ficavam sempre perfeitamente paralelos a cama, mas eles não estavam lá. Pisou no chão frio e caminhou até o armário, encontrando-o vazio.

    - Eve! Eve!! – gritou ele, abrindo a porta do quarto.
    Ainda desorientado pelo sono, foi procurá-la no banheiro, afinal ela adorava longos banhos na banheira. “Eve e seus sais, amigos inseparáveis!”. Nada. Tão vazio quanto o outro lado da cama. Tudo parecia diferente, tudo estava calmo e vazio demais.

    - Eve, querida, onde você está??? – mais uma vez, a única resposta foi o próprio som de sua voz.

    Um arrepio lhe percorreu a espinha, todo aquele silêncio era incomum, aquela calma era agonizante. O vazio lhe causou frio. O corredor parecia muito maior. Não sentia seus pés tocarem o chão. Nada parecia como era anteriormente.

    - Eve! Eve! Querida chega de brincadeira! Você conseguiu...estou muito assustado, ou melhor, estou desesperado! – disse ele, caminhando pelo longo corredor.

    Tentou abrir a primeira porta da esquerda, mas ao girar a maçaneta constatou que ela estava trancada. Tentou a próxima porta, depois a outra e assim sucessivamente. As portas estavam todas trancadas, aliás, havia mais portas do que ele se lembrava. Começou a caminhar mais rápido, pois sentia a necessidade de chegar a algum lugar, mesmo não sabendo que lugar era este.

    Começou a correr, mas parecia que quanto mais corria, mais ele ficava preso no mesmo lugar. “Deve ser um sonho! Só pode ser um sonho!”. Em sinal de total desespero beliscou-se. “Aaaaaiiiiiii! Caramba...não é sonho!”. Ele se lembrava que normalmente, nos filmes de terror, ao ser beliscado, o mocinho acordava do sonho ruim, mas, naquele momento a tática do beliscão não funcionou, ou melhor, funcionou, pois seu antebraço estava doendo muito. Se ele sentia a dor e tudo continuava como antes, aquilo não era um sonho.

    Conseguiu alcançar o final do corredor, a última porta, que estava no lugar do antigo vitral. Girou calma e lentamente a maçaneta e esta se abriu, espalhando uma luz, que nem duzentos holofotes poderiam produzir. Era apaziguador e assustador. Tudo era tão claro, que demorou alguns instantes até que seus olhos se acostumassem. Tateou a sua volta em busca de algo. Não conseguia identificar nada a sua volta. Ele não sentia medo do desconhecido, somente sentia curiosidade. Sentia-se calmo e feliz, como se todos os seus temores tivessem desaparecido. Para aquele lugar ser o paraíso só faltava uma pessoa: Evelyn!

    Ele caminhava em direção à luz; procurando sua fonte. A luz o desejava tanto quanto ele a desejava. “Daniel! Daniel!”. Ouvia chamar seu nome e era a voz mais sedutora que já ouvira. Confortante, talvez fosse o termo correto. Toda aquela paz, o silêncio, a luz, era quase impossível resistir.

    “Daniel, por favor, não!”
    “Eu te amo!”

    Aquela voz doce e forte era inconfundível. Era a voz da mulher que ele tinha amado desde o primeiro momento em que seus olhos se cruzaram. “Eve!”. Ela não estava naquela sala, disso ele tinha certeza; ela parecia estar tão distante. Ele parecia estar tão distante.

    “Daniel, Daniel”. A voz sedutora parecia se aproximar cada vez mais, induzindo que ele a seguisse. Ele ficou entorpecido, ouvindo aquelas vozes tão diferentes chamando seu nome, desejando-o.

    Neste momento a porta rompeu-se e ele foi tragado de volta para o corredor, numa velocidade inexplicável, não sendo possível que ele se agarrasse a nada. Ele queria a luz, mas a outra força era eletrizante. A luz foi ficando cada vez mais distante e a porta fechou-se novamente. Uma dor extrema percorreu seu peito e tudo se apagou.

    Ele abriu os olhos lentamente. Havia acordado sem que o despertador tocasse. Apalpou o outro lado da cama e para sua surpresa tocou o vazio. Sua mão tateou o vazio e acabou por chocar-se com uma mesinha. Percebeu que fios saíam de seu peito, ouviu um som repetitivo “bip...bip...bip”, desenhando pequenos gráficos na tela. O desfribilizador estava ao lado da cama.

    Olhou a sua volta e em meio aquele ambiente frio, repousando em uma poltrona no canto escuro do quarto estava ela, Eve. Ele havia voltado para casa. A última porta tinha se fechado novamente para ele.

    Aquela sala iluminada e sua voz era muito tentadora, mas, Eve, esta sim era irresistível.
    "O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente." (De Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crockett)

  2. 4 comentários:

    1. Medéia disse...

      Adorei Cris!
      Primeiro achei que a mulher é que tinha morrido, mas achei dez a surpresa do cara estar no túnel do fim da vida...
      Bom mesmo!

    2. Vivi Bastos disse...

      Surpreendente a escolha da abordagem. A história está bem costurada, não entrega a surpresa antes do tempo, mantendo-nos presos ao que virá. Gostei do tom e parabéns pelo olhar criativo, girl!

    3. lyani disse...

      Cris, concordo com a Vivi, achei seu texto muito criativo. Parabéns :D

    4. disse...

      Cris,

      Parabéns, muito bom o texto. Gostei da narrativa, da forma como desenvolveu a história.