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  1. Por: Cris Costa

    Você me faz tão bem
    Você me faz, você me faz tão bem
    Você me faz, você me faz tão bem
    Você me faz, você me faz tão bem


    Na van tocava essa música incrível dos Detonautas, quando cheguei na faculdade naquela terça-feira. Chovia muito, mas era época de provas, não tinha como faltar. Pilico, nosso motorista fez a gentileza de parar distante da entrada, ainda bem que a chuva tinha diminuído. Estava na escada da entrada quando algo bateu em mim. Ao olhar para baixo, vi uma garota de cabelos loiros e curtos, agarrada a um envelope pardo imenso de olhos fechados. Ela era linda. Gritos e gargalharam explodiram ao redor. Peguei em sua mão e ela foi abrindo os olhos aos poucos.

    - Nossa! Hoje é meu dia de sorte! Está chovendo mulher aos meus pés. Sou Téo, você está bem??? – vomitei as palavras sem pensar, afinal ela tinha realmente caído aos meus pés e nem sei de onde – Tudo bem??
    - Tudo bem...me desculpe...te machuquei? – ela disse agarrando minha mão com a sua mão muito fria – Que vergonha! Tinha que acontecer comigo... – ela me olhava como se buscasse algo – Ah! perdão...sou Guilhermina.
    Você me fez sentir de novo o que eu
    Já não me importava mais
    Você me faz tão bem
    Você me faz, você me faz tão bem


    Três anos depois nos casamos. Eu tinha acabado de me tornar sócio em um grande escritório de arquitetura. Ela se formou em psicologia e trabalhou em uma clínica até ficar grávida de nosso primeiro filho. Engraçado como lembrar do dia em que soube da gravidez, me faz sorrir. Acompanhei Gui em todas suas consultas médicas e no terceiro ultrassom soubemos do sexo do bebê. Parecia que o “tum tum” do coraçãozinho dele iria me fazer explodir – um menino. Foi um drama escolher o nome, mas chegamos a um acordo – “Ok, Gui você venceu, eu te amo!” – Cruz Feres.

    Nossa vida financeira estava melhorando rapidamente, meus trabalhos sendo reconhecido mundialmente. Consegui um grande projeto no Chile e outro na Síria. Nesta época, Guilhermina descobriu que estava grávida de nosso segundo filho. Os três meses na Síria foram um inferno. Voltei a tempo de acompanhar o último mês da gestação. Desta vez eu escolhi o nome Maya.

    Um ano depois, comprei um sítio e era nosso deleite passar os finais de semana lá. As crianças adoravam. Mudamos do apartamento para uma casa, cada criança tinha um quarto próprio. Em contrapartida passei a estar mais ausente na vida deles.
    - Téo, você não foi na festa da escola...o que aconteceu? – disse Guilermina assim que cheguei em casa.
    - Gui, a reunião se prolongou...ficamos o dia todo com os clientes –respondi com pesar, pois tinha me esquecido completamente da festa de Cruz.
    - Téo era a festa do Dia dos Pais – falou ela fuzilando – e seu filho não tinha um pai...que bonito...que beleza...que grande exemplo pra ele.
    - Você está sendo cruel...Não faltei porque quis, tinha compromissos a serem cumpridos – respondi me exaltando também – acha que vida vida se resume a construir casinhas de papelão...pois saiba que não...são grandes projetos – ela me olhava com tanta raiva, ela não estava sendo justa comigo– que sustentam esta casa! - falei tudo sem pensar, estava exausto e não esperava que Gui me reprovasse tanto.
    - Você é incrível Téo Feres – os olhos dela lacrimejavam – às vezes não sei mais quem é você! – disse ela saindo da sala em direção à cozinha.

    Ela estava na pia, tão linda quanto o dia em que caiu aos meus pés. Ela era irremediavelmente a razão da minha vida. Meu ratinho encrenqueiro. Abracei-a e beijei seu rosto. Ela ainda chorava. Guilhermina era o meu porto seguro, quando ela sorria não havia nada mais belo no mundo. Na verdade eu só queria a sua felicidade, fazia de tudo para não magoá-la.

    Apesar de magoá-la ultimamente com frequencia, ela sempre me perdoava. Depois de discutirmos e fazermos as pazes, ela me convenceu a passar o final de semana no sítio. O que não faço por essa mulher. Confesso que às vezes quero esganá-la, mas logo em seguida quero fazer amor com ela. “Oh! Vida dura!”.

    Não tenha medo
    Não tenha medo desse amor
    Não faz sentido
    Não faz sentido não mudar
    Esse amor

    Foi um final de semana incrível, nos divertimos muito. A partir desse dia, começaria a valorizar mais minha família, passar mais tempo com eles. Eu os amava demais e precisava mudar. Estava chovendo, e Gui estava tão feliz que parecia brilhar, era meu anjo particular. Eu estava tranquilo pois minha família estava feliz. Cruz e Maya cantavam e riam alto com Guilhermina. Ela queria que eles devolvessem o cd do Jonnhy Rivers. “Téo! faça alguma coisa.”. Fiz o que estava ao meu alcance e cantarolei Do you wanna dance?. Ela me olhou, sorriu e beijou minha mão. Aquela era a minha imagem do paraíso.
    Vi o ônibus vindo em nossa direção, tinha outro carro atravessado na pista, piscando suas luzes e buzinando. Não tínhamos para onde ir, a pista estava escorregadia. Só consegui gritar “Cuidado, vamos bater...”. Gui e as crianças tentaram se proteger.

    Sinto que a mão de Guilhermina está junto à minha. Vozes se aproximam. Não sinto dor, aliás não sinto o meu corpo. Não consigo ver as crianças. Estou preso nas ferragens e Gui está ao meu lado. Ouço vozes e sons de metal. Vejo um bombeiro tentando liberá-la das ferragens e solto sua mão fria.

    - Ela está viva! – ouço uma voz dizer eufórica – Ela está viva!

    Sinto frio. Sinto alegria. Sinto gosto de sangue em minha boca. Aliás há sangue em minha volta. Estou aliviado. “Ela está viva!” foi o que disse o bombeiro. Todos estão bem. Ouço sons de metal sendo cortado, mas o som já está mais distante. A ferragem se move e sinto uma dor alucinante. Logo, logo estarei com minha família de novo. Em breve estarei com a minha Gui. Só tenho que esperar mais um pouquinho. Dou um longo suspiro e vem a minha mente minha doce Guilhermina sorrindo...

    Você me faz, você me faz tão bem
    Você me faz, você me faz tão bem


    (Música: Você me faz tão bem
    Artista: Detonautas Roque Clube
    Album: Psicodeliamorsexo&distorção, 2006)

  2. 5 comentários:

    1. Lyani disse...

      Cris, você e suas histórias super envolventes!!!! Muito bommmmm!
      Parabéns :)

    2. Elisandra disse...

      Nossa tão lindoooo, mas com um final muito triste, porem soube como envolver o leitor...Parabéns.....beijokas elis!!!!!

    3. Vivi disse...

      Cris, romantismo e pop rock dão uma mistura boa, né? Então, gostei do narrador em primeira pessoa a incorporar a declaração de amor constante na música. Você também soube criar imagens que comprovassem o quanto Guilhermina fazia bem ao Téo. E o resultado ficou muito bom ainda que eu pense que não precisava colocar a letra da música na estrutura do texto pois, o texto fala da música muito bem.

      Beijocas
      Vivi

    4. Débora Lauton disse...

      Adorei... como sempre seus textos são sempre envolventes...
      Também concordo com a Vivi sobre a letra da música ao longo do texto...

      beijos
      Dé...

    5. disse...

      Cris,

      Quanta criatividade. Isso é muito bom!
      Faço côro a opinião de Viviane e Débora sobre a questão da música intercalada no texto.
      Algo que tenho tentado trabalhar e penso que vale a dica para todas nós também é descrever mais as cenas (de forma objetiva)ao invés de usar muitos adjetivos.
      Ex:"Na van tocava essa música incrível dos Detonautas...". Poderia ser descrito a satisfação dos personagens ao ouvir a música.
      Assim, o leitor chegará a conclusão de que a música é incrivel.
      *Esse é um exercício que vale para todas nós da IL.

      Bjs....Rê