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  1. Os pés inchados denunciavam o fim do turno. Luciana tinha trabalhado no restaurante do Joião desde as seis da manhã. Tirou o surrado uniforme, carimbou o cartão ponto e despediu-se da turma. A primeira noite de inverno, fria, nebulosa, denunciava uma temporada há muito não vista.

    Luciana era órfã, estava vinte quilos acima do peso, já tinha passado por outros trinta invernos e não tinha uma perspectiva muito positiva de seu futuro. Com certeza trabalharia no Joião até conseguir se aposentar com um salário mínimo.

    As ruas estavam vazias, a calçada úmida e escorregadia. Luciana acelerou o passo, pois ainda estava longe de casa. Era tarde, não havia mais ônibus. “Que droga! porque nunca aparece ninguém conhecido quando é preciso!” – pensava quando escorregou e pranchou no chão.

    - Permita-me que lhe ajude – disse uma voz, ao mesmo tempo em que uma mão enluvada tocava na dela.
    Luciana sentiu um calor percorrer-lhe a espinha. Era um mau sinal. Levantou a cabeça e focalizou o homem loiro, vestindo um sobretudo negro que lhe estendia a mão.

    - Você está bem? – disse ele, mantendo a mão estendida
    - Oh! Sim...obrigada. – respondeu Luciana aceitando a mão do estranho para levantar-se.
    O homem vestia um terno escuro e gravata vermelha por baixo do sobretudo. Aquela região era de classe baixa, logo, aquela pessoa devia estar perdida, pois estava muito bem vestido.

    - Espero que não tenha se machucado, Luciana? Foi um tombo feio!
    - Não...estou bem...é essa neblina, que deixa a calçada muito úmida...sou uma desastrada nata.
    - Luciana...Luciana... que horas são, por favor?
    - São dez e trinta e quatro. – respondeu.

    Nesse momento, sentiu novamente um frio percorrer sua espinha. “Como ele sabe o meu nome?”. Percorreu os olhos, e constatou que não estava usando o crachá do trabalho. E nunca em sua vida tinha conhecido alguém como aquele homem.

    - Meu nome é Alvaro e está é sua hora de sorte.
    - Desculpe não entendi, senhor. – o frio era tão intenso, que os dentes dela tremiam.
    - Esta é sua hora da sorte...Te concedo quatro desejos... – falou sorrindo, exibindo os dentes perfeitos e os olhos mais negros e brilhantes.
    - O que? Quatro desejos? Dez horas e trinta e quatro minutos? – disse Luciana entorpecida.
    - Você me entendeu... somente se lembre que... cuidado com o que deseja.

    Puf. Ele desapareceu na neblina sem mais nada dizer. Luciana imaginou que devia estar congelando e por isso delirando. Correu para casa. Tomou um banho bem quente e dormiu.

    Acordou achando que tinha sonhado. Enquanto degustava sua mísera xícara de café, lembrou das palavras homem loiro – “Quatro desejos. Sua hora de sorte.” – Seria bom demais que fosse verdade. Se foi só delírio, mal não irá fazer.

    “Queria ter dinheiro.”

    Luciana arrumou a casa rapidamente e se trocou para ir para o trabalho. Passava das nove da manhã, quando um homem vestindo um terno elegante entrou no restaurante. O inverno castigava a pequena cidade. Joião apontou para Luciana e o homem veio em sua direção.

    - Luciana, sua tia Veridiana faleceu e você foi a beneficiária de seu seguro de vida. Aqui estão os R$300.000,00 da apólice.

    O homem explicou tudo detalhadamente para Luciana que agora possuía R$300.000,00 em sua conta. Após todo êxtase, ela se lembrou do estranho da noite anterior e pensou no inocente pedido daquela manhã. Sorriu, pois era bom demais para ser verdade. “Enfim minha estrelinha brilhou...”. Neste momento olhou pela janela e viu Thomas passando com seu carro esporte em frente ao restaurante. Ele era o rapaz mais rico da pequena cidade, filho do prefeito.

    “Queria Thomas apaixonado loucamente por mim.”

    Luciana saiu do trabalho mais cedo, pois queria comprar um casaco novo. Agora não precisava mais passar frio. Acabou comprando dois casacos, três calças e até uma luva de couro. Ela sempre odiou o inverno e, pela primeira vez achou que inverno era bom. Entrou em um café. Saboreava seu cappuccino, quando de repente Thomas sentou ao seu lado e puxou conversa. Conversaram por horas e combinaram de sair naquela noite.

    Ela tomou um banho longo e quente e começou a experimentar suas melhores roupas para o encontro com Thomas. “Não! Não! Não!”. Nada parecia lhe cair bem.

    “Quero ser belíssima.”

    Vestiu um conjunto preto e um dos casacos novos. Completou o visual com um cachecol. Thomas estava perfeito. Olhava para Luciana como se ela fosse a única pessoa a seu redor.

    O garçom se aproximou, sorriu e entregou o cardápio à Luciana. Ela mal pegou o cardápio e Thomas estava em pé, encarando o garçom.

    - Está paquerando a minha garota?
    - Não senhor...eu só...
    - Tire os olhos dela...

    O gerente chegou nesse momento e evitou que aquilo prosseguisse. O jantar transcorreu perfeitamente, sem contar que os garçons não olhavam sequer na direção de Luciana.

    Os dias passaram e Luciana nunca se imaginara tão feliz. Tinha dinheiro, estava saindo com o rapaz mais desejado da cidade e ainda por cima estava linda. Este definitivamente era o melhor inverno de sua vida.

    Ela não podia desejar nada que Thomas providenciava a realização. Levava Luciana para todo lugar. Ela não ficava sozinha um minuto sequer. Lá fora fazia muito frio, mas seu coração estava aquecido. Ele não permitia que ninguém conversasse com Luciana. Já tinha brigado com três amigos, pois segundo Thomas, eles estavam desejando Luciana. A última vítima tinha sido o velho Joião. Numa tarde, Luciana se sentia sozinha e quis rever os amigos do restaurante. Foi até lá sem avisar Thomas. Este ficou desesperado quando chegou a casa dela e não a encontrou. Começou a procurar como louco pela cidade e quando chegou ao restaurante, Luciana estava se despedindo de Joião com um abraço.

    Thomas entrou no restaurante cego de ciúme e partiu para cima do velho. Se não fosse agarrado pelos outros clientes, certamente teria matado o pobre Joião, que felizmente só perdeu um dente e trincou o pulso.

    - Thomas...o que foi aquilo – finalmente conseguiu falar Luciana entre lágrimas quando já se aproximava de sua nova casa. Apesar do inverno estar quase chegando ao fim, ainda fazia muito frio.
    - Só quero o seu bem, meu amor.
    - Você poderia ter matado o Joião...
    - Aquele velho tarado...ele estava se aproveitando...um dia ainda vou acertas as contas com ele...pervertido!
    - Pára! Ele é como um pai para mim...por favor...Thomas...por favor...chega...esse ciúme precisa acabar. – falou abrindo a porta e entrando em casa, seguida por Thomas.
    - Eu te amo demais, Lu.
    - Eu também te amo...mas você não permite que ninguém chegue perto de mim...

    Ele começou a beijá-la e abraçá-la. Nesse momento, um frio percorreu a espinha de Luciana. “Cuidado com o que deseja.” Thomas acariciava o pescoço de Luciana e sussurrava em seu ouvido. “Te amo! Te amo! Te amo!Você é minha!”.

    - Thomas...olha para mim..e me escuta. – falou ela determinada.
    - Fala meu amor – disse ele olhando nos olhos dela e sorrindo – sou só ouvidos...fale o que quiser...peça o que quise.
    - Creio que devemos dar um tempo...ficar alguns dias separados para termos certeza dos nossos sentimentos.
    - O que? Porque?
    - Você está me sufocando...não consigo fazer nada sozinha...não posso sequer ver meus amigos...nossa relação não está bem.
    - Sufocando! Sufocando! É isso que você acha...eu te amo...só isso...só quero o seu bem...Sufocando...Sufocando...Sufocando...é isso que você pensa...

    Luciana tentava afastar Thomas, com socos e chutes, mas, ele parecia nada sentir. Ela começou a sentir a cabeça latejando, os olhos queimando, as forças acabando. Ele apertava seu pescoço com muita força e sorria enquanto ela lutava por sua vida. “Quatro desejos! São quatro desejos! Ainda tenho um!”.

    “Quero vi.............”

    Os braços de Luciana caíram ao lado do corpo e ela parou de lutar. Thomas soltou lentamente o pescoço dela. O corpo caiu. Ele tocou nela. Beijou seus lábios frios. Fechou os olhos dela. “Agora você é só minha, meu amor!”. Thomas saiu e fechou a porta. Uma forte neblina cobria a noite de inverno. Olhou no relógio. "Dez e trinta e quatro". Entrou em seu carro e pegou a rodovia. Ele fugia do inverno. Ia em busca de dias ensolarados, bem longe dali.

    Por: Cris

  2. 3 comentários:

    1. Lyani disse...

      Como sempre, fiquei presa à narrativa empolgante.
      Parabéns Cris!
      Bjos

    2. Medéia disse...

      Realmente empolgante, Cris!
      Adoro este clima de suspense.
      Parabéns!

    3. Vivi disse...

      Cris, a narrativa é muito envolvente. Gostei demais e estou admirada com a sua inventividade. No entanto, senti que o tema da rodada ficou em segundo plano. Mesmo assim, tal fato não esmaece a qualidade de seu texto.

      Beijos
      Vivi