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  1. Sombras à Noite

    31/08/2009

    por Medéia
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    Todos a possuímos de alguma forma. Alguns vivem uma longa vida sem que ela apareça. Em outros casos, mesmo muito crianças, alguns já demonstram sua sombra. A sombra de que falo não é a física que aparece como contraponto à ausência de luz. Falo da sombra da personalidade, o lado escuro que cada ser humano possui.

    Ela não era uma pessoa má. Nunca tinha demonstrado sua sombra da personalidade. Vivia uma vida pacata e tranqüila com seus pais e sua irmã menor. Freqüentava a igreja, grupos de estudo e fazia caridade. Espelhava-se na mãe que suportava um marido cruel de forma resignada. Acreditava nas palavras "oferecer a outra face". A vida não era um mar de rosas, mas juntas as mulheres da família faziam sua parte.

    Algumas vezes, quando via seu pai bater na mãe ou na irmã, sentia a sombra crescer dentro de si. Mesmo assim, continha-se e sofria calada. Era uma jovem boa e cristã.

    Uma noite o grupo de jovens reuniu-se na casa de uma das garotas. Pensavam em organizar uma semana solidária para crianças carentes da região. Trabalhos como este a faziam esquecer seus problemas caseiros. Mas seu pai não permitiu que fosse ao encontro. Disse que era muito tarde e que não ficava bem. Tentou argumentar e levou um tapa forte no rosto. Subiu ao seu quarto chorando. E quando o choro acalmou, resolveu sair pela janela.

    Sabia que não fazia nada errado, então porque permitir que seu pai a proibisse?

    Eram algumas quadras até a casa do encontro e já estava atrasada. Resolveu cortar caminho por uma praça arborizada que ficava no caminho. Iria lhe poupar uma caminhada maior. Mas era extremamente escuro. Poucas luzes iluminavam a praça e a sombra das árvores era amedrontadora.

    Aumentou a velocidade e então ouviu passos atrás de si. Olhou para trás e só viu as sombras projetadas pelas árvores. Quando olhou para frente novamente, bateu contra um peito largo.
    Já tinha visto aquele rapaz, mas ele agora lhe sorria. Seu sorriso era frio como o outono que iniciava. Pediu desculpas e tentou contorná-lo para seguir seu caminho.

    Ele segurou seu braço, não permitindo que escapasse. Um frio desceu por sua espinha quando olhou novamente para ele. Seus olhos agora eram vermelhos e contrastavam com seu pálido rosto. Seus dentes pontiagudos brilhavam contra os lábios rubros. Nem mesmo conseguiu pensar no que acontecia. Em um momento tentava escapar e no outro sentia o rapaz morder profundamente seu pescoço.

    Foi tudo muito rápido e ao mesmo tempo transcorreu em câmera lenta. Enquanto sentia seu corpo amolecer de fraqueza, sua vida passou como um filme por seus olhos. E então estava lá, caída no chão da praça. O rapaz de rosto pálido e olhar maligno havia sumido, assim como a vida de seu corpo. Não soube dizer quanto tempo transcorreu, mas sentiu alguém lhe carregar até um lugar quente. Seus olhos fechados apenas sentiam as mãos cuidadosas que lhe ajudavam.

    Quando acordou, não soube dizer onde estava, nem o que havia ocorrido. Estava só, semi-enterrada por terra e folhas, em uma caverna escura. Mesmo na escuridão conseguia enxergar pequenos insetos ao seu redor. E ouvia os menores ruídos que eles faziam. Caminhando pela caverna percebeu que era noite novamente (ou seria ainda a mesma noite?). Seus pais deviam estar preocupados. Provavelmente apanharia por ter saído escondida. Mas só pensava em voltar ao aconchego de seu lar. Ver sua mãe e sua irmãzinha. E estar com elas para sempre.

    Não estava muito longe de casa e seus pés a guiaram. Parecia caminhar flutuando. Avançava rapidamente sem dificuldades. Quando viu as luzes de sua casa correu os metros restantes até a porta. Bateu com força e logo sua mãe, com os olhos vermelhos por chorar, abriu a porta. O olhar dela se alterou no mesmo instante. Alegria brotava entre as lágrimas que corriam. Abraçou-a como se nunca mais quisesse soltá-la. Sentiu as mãozinhas pequenas de sua irmã entre as suas. Logo as três estavam em um emocionado abraço de reencontro.

    Foi então que seu pai entrou na sala e a olhou com ódio. Gritou com ela como sempre fazia. Empurrou sua mãe no chão quando tentou defendê-la. E bateu em sua pequena irmã que chorando lhe pedia para parar. Acusava-lhe de vagabunda e outras palavras que nem conhecia. Dizia que não era mais sua filha e que ficasse na rua como uma vadia. Ele então fechou a mão em soco e partiu para cima de seu rosto.

    Ela fechou os olhos esperando a dor, mas ela não veio. Sentiu apenas a mão tocar seu nariz, mas não sentiu dor. Dentro de si cresceu o rancor e então surgiu a sombra que nunca tinha se mostrado.

    Cada ser humano tem a sua sombra.

    E a sombra desta garota fez coisas que ela nunca teria se permitido fazer. Depois que terminou sabia que não podia mais viver com sua família. As paredes vermelhas de sangue e o olhar apavorado de sua mãe e irmã lhe diziam do horror que sentiam. Sabia que a partir de agora viveria só caminhando apenas durante a noite, quando sua sombra lhe protegeria.

    E então ela se foi, com sua sombra a lhe seguir.

  2. 5 comentários:

    1. a história está bacana, apenas não vi nada novo. Eu, que até me atraio pelo tema, acho que poderia ter uma pitada de um algo mais. Talvez no momento que ela é abordada, não sei. Me parece que ali faltou uma sutileza na narrativa, para deixa-la mais... à sombra, digamos assim.

    2. Cris Costa disse...

      Medéia,
      Adorei seu texto. Tenho pavor de imaginar que temos um lado negro...E a garota, pobrezinha, foi muito azarada!
      Parabéns!
      Bjs

    3. Vivi disse...

      Gostei muito do texto. Foi sombrio mas, nem tanto. E no caso, devido a forma com que direcionou a história, o desenvolvimento do, digamos, "encontro com a força da própria sombra" poderia ter sido mais bem explorado. O lado triste e a sombra da culpa preponderou. O que também valorizou o texto de uma outra forma; contribuindo para ensejar a reflexão acerca de qual a nossa maior sombra?

      Um texto de qualidade!

      Beijos

    4. Lyani disse...

      Me lembrou a Nikki do Heroes :D
      Parabéns!
      Bjossss

    5. disse...

      Medéia,


      A história é interessante, mas sinto que também poderia ter sido melhor explorado o elemento sombra, embora eestivesse presente no texto de alguma forma. Mas, mas algo ficou no ar.... Talvez tenha faltado trabalhar o lado psicológico da personagem com maior riqueza de detalhes.
      Mas, o texto é bom e a idéia é muito bacana.

      Parabéns!!