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  1. O Guru do "Nadismo"

    19/09/2009

    Dois dias. Era o tempo que havia se passado desde que não havia se mexido. Estava tentando aplicar o nadismo em sua vida. Aparentemente não sabia como funcionava, mas estava tentando dar vazão a sua falta de vontade, ao stress e a indignação com a sociedade ao seu redor.

    Nunca imaginou que não fazer nada pudesse ser tão dolorido. Seus músculos doíam como se tivesse corrido uma maratona. Mas sua determinação em não fazer absolutamente nada se mantinha firme. Bem, quase nada... Afinal o corpo tinha necessidades fisiológicas. Por isso ajeitara o colchão bem próximo ao banheiro. Assim, não precisaria movimentar-se muito. E a comida estava toda empilhada ao seu redor: montes de bolachas, farelos e embalagens. Já estava começando a disputar sua comida com as formigas, mas não podia fazer muito esforço para não sair da sua determinada “ação” de não fazer nada.

    Difícil mesmo foi não dormir. Bem, dormia sim quando o corpo exausto pedia o sono, mas isso foram apenas quatro horas nos dois dias desde que iniciara o processo. E não olhar televisão, nem ler e muito menos pensar! Que vida dura era não fazer nada. Mas sua determinação era maior que estas picuinhas.

    Nas primeiras horas ainda pensava nos amigos dizendo que era louco. Muitos acharam que ele não levaria adiante seu projeto de não fazer nada por uma semana. Mas já deviam ter percebido, pois não apareceu dois dias ao trabalho. Alguns acharam a idéia interessante, mas disseram que mais que alguns minutos não era uma prática de nadismo e sim preguiça pura e simples. Eles realmente não podiam chegar ao âmago da sua filosofia.

    Do meio do primeiro dia em diante, parou de se preocupar com o que os outros pensavam. Talvez porque seus músculos doessem tanto, mas principalmente porque estava exercitando não pensar. Seus olhos abertos, olhando o nada (já tentou passar mais que alguns segundos olhando sem ver?), os músculos tremendo pela falta de atividade e os pensamentos trancados, esperando passar o tempo estipulado.

    O segundo dia então terminou e foi muito mais fácil continuar assim depois que estes dois dias passaram. É claro que não comia mais e nem ao banheiro ia. Os olhos parados se esforçavam apenas em não pensar. Não sentia mais os músculos, possivelmente nem mesmo pudesse se mover. Não dormia, ou pelo menos não fechava os olhos. Estava apenas ali fazendo nada, absurdamente nada, impossivelmente nada.

    No sétimo dia encontraram seu corpo. Possivelmente seu coração parou assim como o resto do corpo. Ele é sempre lembrado pelos amigos, injustamente, como preguiçoso, pois até preguiça de viver tinha. Mas virou mártir da filosofia que morreu praticando e entrou para a história.
    por Medéia, tentando não fazer nada mas lembrando da roupa para recolher

  2. 3 comentários:

    1. A ideia é bem interessante. Acho que dava pra explorar um pouco melhor, poderia rolar umas reflexões ou um desenvolvimento mais trabalhado. Talvez o texto tenha se simplificado um pouco demais, pra essa abordagem, eu acho... Mesmo assim uma ideia com um grande potencial.

    2. Cris Costa disse...

      Olá Medéia!
      Achei incrível a sua idéia e o desenvolvimento do texto. O final também achei super interessante, o contraposto de opiniões preguiçoso/martir, bem atual.
      Parabéns!

      Bjins

    3. Vivi disse...

      Fazer nada já é fazer alguma coisa...existe ação no processo...hehehe!

      Idéia interessante a que você explorou, Medéia. Não sei patavinas sobre o movimento Nadismo. Mas, pelo que pude ver por intermédio das agruras de não fazer nada vivenciadas pelo personagem, acaba sendo uma espécie de escravidão, né? Uma vez que o prazer se esvai do processo. Me fez lembra da poesia Liberdade de Fernando Pessoa, (segue o link: http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/195.html)onde o não fazer por obrigação é libertar-se das amarras condicionantes da cultura. Não acredito em nadismo, mas é bom fazer nada ou alguma coisa lendo, ouvindo música, mirando paisagens...

      Abordagem inteligente, principalmente, pelo paradoxo que o conceito e ação de nadismo engendra. Muito bom mesmo.

      Beijos