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  1. XLI Desafio
    Tema:
    Biblioteca

    Por Lyani

    Era uma espécie de vício. As vezes, doentiu. Tinha que caminhar, todos os dias no mesmo horário, para aquele prédio imponente no centro da cidade. E aquele dia, especificamente, era um dia muito frio pra se sair à rua por qualquer motivo. O sol não aparecia há alguns dias e pela previsão do tempo, ainda demoraria um bom tempo para voltar a brilhar no céu. Teve ímpetos de permanecer no aconchego aquecido de casa, mas sabia que se não fosse ficaria com o sentimento de que algo essencial lhe faltava. E era sempre assim. Quando deu por si, lá estava com sua touca de lã e as luvas cobrindo as mãos, parada em frente a Biblioteca Municipal. Nem o frio, nem a falta de sol, ou qualquer outro problema climático lhe tirariam aquele prazer. Mal podia conter o sorriso, e como se fosse a primeira vez que vinha ali, ao entrar, observava cada detalhe. As altas estantes de madeira, as poltronas de leitura, as mesas para pesquisa e claro, os livros. As lombadas coloridas e diversificadas que, ao contrário das pessoas, eram convidativas e pareciam querer chamar sua atenção para esta ou aquela história. Sempre se perguntava se a garota loira que fora ontem, antes de ler o livro que trazia para devolver, seria a mesma de hoje ao escolher outro título para leitura. Seria a mesma amanhã, depois de mais um livro lido. Ou a leitura a modificava a cada dia? Correu as estantes com os olhos, com as pontas do dedo, encantada como todos os dias com aquele lugar mágico. Puxou um ou outro livro da estante e os folheou, saboreando o som das folhas virando, o cheiro típido do papel envelhecido. Esquecia-se de tudo naquele lugar. Os problemas, a vida, as dificuldades, tudo parecia distante e até mesmo não existir diante daqueles corredores e estantes abarrotados de livros, de vida! Depois de percorrer quase todo o salão, olhou o grande relógio que batia as horas em suaves ruídos, possíveis de ouvir apenas pelo silêncio sagrado daquele santuário. 12:51. Escolheu o título que queria e exatamente uma hora depois que entrara, saía da Biblioteca segurando-o de encontro ao peito e um sorriso leve curvando os lábios rosados pra cima. Sabia que seus olhos estavam iluminados pela felicidade de ter visitado seu lugar favorito na cidade, no seu mundo. Não se importava de ter uma espécie de vício assim, que lhe fazia tão bem.

  2. 7 comentários:

    1. Medéia disse...

      Sensível como sempre, Ly!
      Parabéns!

    2. Ricardo disse...

      Parabéns meu amor!! sempre delicada com as palavras!!

    3. Robson Ribeiro disse...

      Se todos os vícios fossem agradáveis como esse...

      Acredito que nunca somos os mesmos após a leitura de um livro.

      Parabéns pelo texto.

      Beijo.

    4. Vivi disse...

      Seus textos sempre me levam a imaginar fotografias em sépia. Não são textos datados, mas a sua escrita nos remete ao clássicos. Há elegância no seu estilo, Ly. É sempre agradável ler o que escreve. No tocante ao texto, a abordagem da paixão viciante pelos livros é interessante e muito inteligente. O poder da leitura é tamanho que muitas das vezes passar a ser uma necessidade visceral e irracional. As bibliotecas nos inicia no prazer e no vício. Mas, há quem diga que há virtude nesse prazer.

      Beijocas

    5. Sandra disse...

      Lindo texto... me tocou profundamente "Sempre se perguntava se a garota loira que fora ontem, antes de ler o livro que trazia para devolver, seria a mesma de hoje ao escolher outro título para leitura". Acho que nunca somos os mesmo... parabéns, o texto está leve, sensível...
      bjinhos,

    6. Cris disse...

      Ly,

      Que bela a comparação da leitura com um vício e é mesmo.
      Abordagem delicada e criativa, que somente uma profissional poderia desenvolver.
      Parabéns pelo texto!
      Parabéns pela data comemorativa de sua profissão, tão bela e tão nobre.

      Bjs

    7. disse...

      Tocante seu texto, Ly
      É gostoso de ler e é perceptível sua paixão pelos livros.
      Parabéns!