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  1. XLVI Desafio
    Tema:
    Catástrofe

    Por Lyani


    Ninguém notaria, dentre os destroços e cheiro de carne humana queimada, uma parede solitária que não havia caído. Nela, podia-se divisar a sombra de uma mulher lendo um livro, provavelmente sentada numa poltrona em sua sala quando a luz, e não o som, a alcançou. O som só chegaria depois, e aos ouvidos de outras pessoas. Os ouvidos daquela mulher nunca ouviriam o som daquela destruição. Estava perto demais de onde a bomba fora lançada pra ouvir qualquer coisa. Tudo que ela poderia ter registrado nos três segundos mais tristes de toda a humanidade foi a luz intensa, como se mil sóis estivessem brilhando no céu naquele momento. A luz e aquela ausência de dor, porque seus nervos deixaram de existir antes que pudessem enviar qualquer mensagem ao cérebro. Ela teria sumido do planeta sem deixar vestígios, não fosse a pálida sombra de sua imagem impressa naquela parede que permanecera erguida, enquanto todo o resto fora destruído. Eram exatamente 8:15h de uma bela manhã de agosto quando aconteceu, e ninguém jamais notaria, no meio daquela catástrofe, a imagem solitária de uma mulher com seu livro.


    *Uma humilde homenagem (se é que se pode chamar assim) às vitimas de Hiroshima. A idéia da imagem impressa na parede veio do livro "O último Trem de Hiroshima" de Charles Pellegrino onde descobri que por toda a cidade era possível ver essas sombras, de pessoas e objetos, impressas nos destroços.


  2. 4 comentários:

    1. Medéia disse...

      Poético, bonito e muito sensível como tudo o que você escreve Ly!
      Beijos

    2. Vivi disse...

      Esse livro deve ser mesmo muito bom para inspirar um texto tão lindo, Ly.

      Beijos

    3. disse...

      Ly,

      Texto impacatante. Bela associação da imagem com as palavras.
      Parabéns, Rê

    4. Léia disse...

      Texto que faz a emoção aflorar. Gostei bastante da maneira como você se expressou e criou esse texto.