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  1. Tudo aconteceu muito rápido.
    Há apenas um minuto, talvez dois, eu tinha plena consciência do mundo. Das cores, das sensações, dos sentimentos. Eu podia olhar para uma placa na rua, ou um jornal na banca de revista e decifrar facilmente os símbolos da linguagem. Podia andar sem parecer uma bêbada em plena luz do dia. E meu cérebro fazia todas as conexões necessárias pra enviar ao meu corpo completamente são, a sensação de estar viva. Há apenas um minuto, talvez dois, minha pele tinha algumas manchas dos dias de sol na praia, durante as férias de verão, mas era completamente lisa e cobria todas as partes do meu corpo. E minha boca sentia ainda o gosto do bolo de côco delicioso da doceria ao lado da escola e não esse gosto amargo de, sangue, talvez? Meus cabelos longos eram brilhantes e não formavam esses nós empapados em algo pegajoso impossível de decifrar, porque já fazem alguns minutos agora que não reconheço mais nada. Tudo é apenas uma não-consciência, uma não-dor, e uma fome. Incontrolável, mas não de bolo de côco. De gente.

  2. 7 comentários:

    1. disse...

      Uau! Um texto tão pequeno e tão forte. Amei o final, tenho vontade de ler mais sobre esse zumbi que gostava de bolo de coco. :)

    2. Medéia disse...

      Esperava ansiosa teu texto, amiga.
      Você sempre consegue dizer muito com poucas palavras.
      Descreveu com clareza a zumbi e ela antes da sua nova condição. E os sentimentos... adorei sua zumbi.
      Fiquei imaginando algumas das minhas alunas... eh eh eh

    3. Vivi disse...

      Ly, legal você ter focado na ação do tempo em que a vida de um corpo vai se esvaindo em questão de poucos minutos. Bem pensado!

      O processo de "zumbificação" não ficou claro. Então, pela ação rápidA representada na frase "Há apenas um minuto", penso ter sido um vírus biológico que passou despercebido à personagem.

      Interessante acompanhar a voz da personagem narrando algumas coisas perdidas com a transformação. O que mais gostei é que, nesse primeiro instante, ela está muito voltada para si mesma. Não pensa nas coisas mais valiosas que possa ter perdido. Ao invés disso, ela enfatiza a perda das coisas pequenas e banais. Isso reforça a ideia de uma transformação bem recente.

      Dá para visualisar a personagem totalmente atordoada com a mudança de um estado vivo que começa a deixa de existir para um outro ainda desconhecido. Em razão disso, eu não evidenciaria a incosciência nesse momento, como consta na última frase. Deixaria as faculdades vitais da personagem morrerem aos poucos. Até que, incapaz de perceber-se inconsciente, não soubesse mais relatar o que deixara para trás, nem mesmo o que estaria por vir.

      É isso. No mais, sempre me encanto com a beleza e elegância da sua escrita. Dessa vez, não foi diferente.

    4. Cris disse...

      Ly,

      Invejo sua capacidade de dizer tanto com poucas palavras. Parabéns!

      O sentimento de apreciar as pequenas coisas da zumbi e a inconsciência do processo de transformação foi envolvente e triste.

      Parabéns adorei seu texto!

      Bjs

    5. Lyani disse...

      Meninas,
      Muito obrigada pelos comentários e principalmente pelas dicas, com certeza esse exercício nosso é fundamental para melhorar nosso processo de escrita! Tô adorando essa nova etapa e estava morrendo de saudades disso aqui :)
      Um beijo!!!
      Ly

    6. Oi, Lyani, como me pediu, estou também comentando seu texto anterior! Acho que nem tinha comentado antes porque já havia tantos comentários, e especialmente o da Vivi foi tão completo e complexo, que achei que o meu nem faria mais diferença, hehehe. Mas vamos lá ver no que posso meter o bedelho.

      Em primeiro lugar, eu acho maravilhoso ver um texto tão VERDADEIRO. Percebe-se aqui muito bem que não é uma pessoa habituada, viciada a zumbis, a esse mundo besta e maluco nada a ver com nada, para quem isso já se banalizou. É uma pessoa (e escritora ou narradora) normal, pura. Percebe-se o contato dessa escritora sincera com o absurdo mundo dos zumbis. O que me tocou tão profundamente para dizer isso, por exemplo?

      - pele que cobria todas as partes do meu corpo

      - gosto de bolo de côco versus gosto amargo de, sangue, talvez

      - cabelos que não faziam nós empapados e pegajosos

      - fome não de bolo, mas de gente.

      ==

      Minhas críticas:

      - A narração em primeira pessoa é muito arriscada de se utilizar. Pode resultar em algo contraditório e não verossímil. Afinal, se a narradora virou um zumbi, e não tem mais consciência, como é que ela está escrevendo este texto e nos contando tudo isso?

      - Um minuto (ou dois) parece muito pouco tempo para a transformação descrita. Normalmente, considera-se que há um processo lento para que humanos virem zumbis, não? Digamos, eles são mordidos ou arranhados, recebem ferimentos fatais, até que morrem. E então acabam "ressuscitando", mas como zumbis. Bem, talvez em seu universo o processo ocorra muito rápido. Mas eu estranhei muito essa velocidade.

      De todo modo, parabéns pela delicadeza e beleza de seu texto!

    7. Arthur Cesar disse...

      Olá Ly,

      Acho que fiquei um pouco confuso com seu texto. A questão de haver apenas um minuto me fez ler o texto com uma pressa que achei desnecessária.

      A essência do texto, o que você quis passar, foi uma ideia ótima, mas pelo modo com que você construiu o texto, não achei que ficou com um fluxo bacana, pois fica difícil de aceitar que um zumbi (que comumente é considerado sem concsiência) possa ter continuado a escrever durante ou após a transformação.

      O que mais gostei foi, como Maurício chegou a comentar, o fato de que foi a transformação de uma pessoa "pura", apegada ao fato de ser humana.
      E o que você conseguiu passar a mim, sem sombra de dúvida, foi uma sensação forte de perda de esperança, porque mesmo com o fluxo do texto difícil, foi possível criar um pequeno laço com a personagem a ponto de sentir pena dela.