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  1. Reprimindo Medos

    02/09/2013

    Dominar ou me deixar dominar?
    Por puro cansaço, às vezes, me deixo levar.
    Não sinto vontade de dominar,
    Não sinto vontade de lutar.
    Mas quando se trata de proteger:
    Proteção para quem amo –
    Esqueço o cansaço,
    Nem lembro que a vontade de lutar não está lá.
    E contenho completamente...

    Quem sempre tenta me dominar.
    E feliz sigo meu caminho,
    Esperando o próximo temor chegar.

  2. Puxa vida, que curioso é um beijo.
    Alguns tímidos e sem calor.
    Outros se enroscando nas voltas das línguas.
    Muitos molhados e pegajosos.
    E os seguintes esfregando as pontas do nariz.
    Quem sabe o que se passa em um beijo?
    Sabe se dói ou se deixa em êxtase?
    Sabe se atrai ou ainda repele?
    Se as batidas do coração se fazem parar?
    Ou se disparam loucas a procura de algo?
    Assim intensos e profundos eles podem ser.

    E quando terminam, queremos mais.

  3. Indefinido

    01/06/2013

    A maior parte das pessoas nasce no melhor estilo “São Tomé” de ser: é ver para crer. Mas aquela menina não foi assim. Ela nem mesmo via muito bem com seus românticos olhos míopes, atrás das grossas lentes de vidro. E sempre foi muito arredia, nem mesmo permitindo o toque da pele com a pele. Não gostava de texturas. Braile não era para ela.

    Contudo para compensar estes sentidos, nasceu com um olfato apuradíssimo e podia dizer coisas sobre as pessoas que só um vidente diria, apenas cheirando-as. Era uma virtude que escondia muito bem, pois não queria ser vista como uma aberração.

    Podia dizer se uma pessoa estava triste ou alegre, somente pelo suave cheiro de mofo ou do orvalho da floresta, que sentia ao se aproximar. Doentes tinham cheiros pútridos conforme seu grau de doença. E mulheres grávidas cheiravam a talco. E tudo isto, ela podia cheirar antes mesmo que a própria pessoa soubesse da sua condição.

    Evitava então os cheiros enjoativos e sulfurosos e buscava estar próxima das pessoas perfumadas por flores e ervas aromáticas. Seu “sexto sentido”, era na verdade um dos cinco, mas permitia saber muito sobre as pessoas antes mesmo de trocar um oi com elas.

    E aquele dia de sol, na praça da cidade, estava apenas começando e ela já tinha cheirado entre os ciclistas, corredores e apenas passantes, uma traição, duas doenças sérias, meia dúzia de intrigas e uma ou outra euforia.

    Foi quando sentiu um cheiro que nunca havia sentido antes. Nada minimamente parecido. E ela nem mesmo sabia dizer se ele era bom ou ruim. Era um cheiro indefinido de madeira, compostagem e folhas secas. Tinha alguns toques adasmacados e alguma coisa orgânica que ela não podia identificar. Nunca antes havia acontecido de não identificar o cheiro, ou de não saber o que o cheiro representava.

    Procurou o dono ou dona do odor entre as pessoas na praça e o identificou a uma pequena distância conversando com um senhor que cheirava a sabedoria. Não era da cidade, pois aquele era um pequeno local e ela teria sentido seu cheiro antes. Quanto mais aspirava o cheiro que provinha do homem, mais ela sentia-se confusa e indecisa sobre o que pensar.

    O senhor cheirando a sabedoria, que trabalhava na biblioteca, estava apontando para ela neste exato momento. E ele a estava olhando! Meu Deus! O que fazer? Não havia como se esconder então ficou apenas esperando e rezando para que conseguisse perceber o que exatamente representava aquele aroma.

    Quanto mais próximo, mais indefinido o odor ficava e, de repente, todos os cheiros do local pareciam ter sumido. Só o cheiro dele impregnava suas narinas. Ele estava parado na sua frente e seus lábios se mexiam, mas ela não ouvia nada. Só sentia o perfume que vinha dele. E então ela descobriu que fragrância era aquela e soube, que nunca mais precisaria sentir outro cheiro e que as texturas agora fariam parte de sua vida também.

  4. Perna curta

    01/05/2013


    Pé ante pé, ele vai entrando em casa. Mais furtivo que um ladrão. A dobradiça da porta nem mesmo fez ruído e seus sapatos não tinham aqueles solados de borracha barulhentos. Estava realmente silencioso e orgulhoso disto. No outro dia, mentiria a hora e ficaria tudo bem, afinal ela tinha um sono pesado e dificilmente acordava à noite.

    Resolveu tirar a roupa na sala ainda. Levaria na mão o sapato e a roupa e entraria de cueca sobre as cobertas. Assim, se ela acordasse, poderia dizer que tinha ido ao banheiro e fingir que estava em casa há mais tempo.

    Enquanto desabotoava a camisa ia mentalmente repassando sua história. O chefe pediu para trabalhar naquele negócio novo até mais tarde, depois tinham saído para tomar umas cervejas e comemorar os novos e ricos clientes.

    Estava inventando mentalmente os detalhes enquanto abria o zíper da calça quando sentiu uma presença na sala, no escuro. Seu coração deu um salto. Quem seria? Se fosse ela, já teria se acusado. Podia ser um ladrão. Seu coração batia tão alto que tinha a impressão que todos ouviam na quadra inteira. Um suor frio brotou em seu corpo e a adrenalina corria por suas veias.

    Não ouvia barulho algum, mas sentia uma presença cada vez mais perto. Droga de cortinas corta-luz que não permitiam nem mesmo uma fresta de luz da rua para que pudesse ver. A escuridão tão bem-vinda antes agora o aterrorizava. Seus membros estavam paralisados e seu maior medo era que qualquer som que fizesse chamasse a atenção do ladrão.

    Longos minutos (segundos ou horas) se passaram e como não ouviu nada, começou a achar que era sua imaginação. Ninguém estava ali. Ninguém estava se acusando fazendo ruídos ou ligando as luzes. Com a calça no meio das coxas e sem conseguir se mexer direito, tentou ir até o corredor, mas suas pernas não obedeciam. Uma câimbra começou a subir pela panturrilha direita e teve que se morder para não gritar de dor.

    Arrastando a perna milímetro por milímetro, resolveu se arriscar em direção ao corredor. Não via nada, não ouvia nada, a dor era intensa e estava se espalhando pelo corpo. Já nem mesmo sabia o que estava doendo. Quando chegou ao corredor, sentiu novamente a presença. Parecia que alguém respirava em sua nuca. Meu Deus! Seria um fenômeno paranormal? Nunca havia acredito nestas coisas, mas não tinha explicação para o que estava ocorrendo.

    Uma presença sinistra e silenciosa parecia segui-lo e seu quarto era o refúgio, mas não conseguia chegar rapidamente lá. Se arrastando, encostado nas paredes a dor se espalhou tanto que subia pelo seu braço. O que estava acontecendo? Quando sentiu o marco da porta um alívio percorreu suas costas. Apesar da dor que não parava tinha certeza que agora era só chegar a cama que tudo terminaria.

    Quando colocou um pé para dentro do quarto ouviu claramente um “Boooo” em seu ouvido. E só! Caiu no chão, a dor em seu braço explodindo no peito. Barulho, gritos, luzes fortes e ali estava ela olhando horrorizada para ele, caído no chão. Antes de fechar definitivamente os olhos ele ainda viu passar pelos olhos dela um ar de alívio e outro de satisfação. 

  5. Divagando

    31/03/2013


    Paciência
    Pachorra
    Fleuma
    Calma
    Despreocupação
    Resignação
    Virtude a ser cultivada
    Ou quem sabe preguiça?
    Lassidão
    Moleza
    Cansaço
    Fadiga
    Apatia
    Devagar e sempre
    Esperando acontecer
    Uma coisa de cada vez
    Ser paciente
    Ciente da situação
    Paciência
    Ciência
    Espaço
    Estrelas e planetas
    Lentidão
    Imensidão
    Solidão
    Paciência


  6. Encontrei no espirro uma forma de me livrar de tudo.
    Pôr para fora o que me contamina,
    O que me mantém doente e infeliz.
    E o chamei de amigo.

    Espirrar é uma forma de não ver,
    Pois não conseguimos manter os olhos abertos.
    Assim não precisamos enxergar tudo .
    De olhos fechados, espirrando, podemos ser felizes.

    Por alguns breves e rápidos momentos,
    Contrair os músculos do rosto, da garganta, abdominais e diafragma.
    Eliminar os problemas através das pequenas gotas,
    Sumir da realidade.

    Os espirros me mantêm afastada dos problemas cotidianos,
    Permitem-me sonhar com outra realidade.
    Ainda assim as pessoas me desejam saúde.
    Uma saúde que não quero, não desejo.

    Corrompida pelo vício ,
    Procuro formas cada vez mais insanas de espirrar,
    Longe dos olhares comuns,
    Que não podem me compreender.

  7. Amor de Verão

    28/01/2013


    por Medéia

    Naqueles dias quentes de verão, o que prevalecia era a guerra. Mas não pense você que era algo ruim, pois as palavras tem o sentido que nós atribuímos a elas. E eles estavam sim travando uma guerra a cada dia.

    Guerra de beijos e abraços, com direito a bombas de flores, sorvetes ao pôr do sol e caixas de bombom. O que não se queria era a monotonia que a paz no coração trazia. Verão bom era verão com movimento, com batalhas de flertes e brigas de travesseiros depois do amor.

    Um combate a cada dia. Hoje ela ganhava. Amanhã ganhava ele. E todos os dias eles ganhavam boas lembranças. Lembranças que a serenidade de um verão sem amor não trazia. Nada se ganha por passar a vida sereno e tranquilo, sem viver um amor de verão.

  8. Mundo Animal

    14/12/2012


    Há horas que ele estava preso ali sendo tratado como um humano. Já pedira seu direito a uma ligação e a um advogado, mas aqueles porcos da polícia estavam ignorando-o de propósito. Contudo ele não tinha medo. Era inocente apesar das aparências.

    Quando acordou de manhã com a cantoria do seu vizinho, o Sr. Galo, não podia imaginar tudo que ia lhe acontecer em um único dia. Já que estava acordado mesmo, exercitou-se, tomou seu café e preparou-se para o trabalho. No elevador não pode parar de admirar a gata do 701, que estava em um mini vestido rosa de dar água na boca.

    O mêtro lotado misturava odores felinos, caninos e até equinos. O calor deixava fragrâncias de diversos animais no ar. Aqui e ali viam-se alguns bichos passeando com seus humanos nas coleiras, aproveitando o frescor da manhã.

    A rotina do escritório estava mais maçante do que nunca. Os mugidos de sua chefe não lhe deixavam em paz um só momento. Um dia como qualquer outro, até a hora que acabou o expediente. Ele até tinha recebido um convite das raposas para ir a um bar para um happy hour, mas estava suado, mentalmente cansado e só queria enrolar-se no seu lençol e dormir profundamente.

    Pegou o metrô da volta, ainda mais fedorento que o da ida, e acabou cochilando. Isto lhe fez descer umas duas paradas depois da sua. Não estava com vontade de ver gente e resolveu caminhar até em casa. O sol já tinha se posto e o frescor da noite era melhor do que o bafo de um metrô lotado.

    Algumas quadras depois e já estava arrependido. O bairro era perigoso, mal iluminado e ele sabia que algumas gangues de hienas rondavam por ali. E não estava tão fresco assim. Mesmo sem sol o calor seguia atormentando seu pelo.

    Resolveu cantarolar para espantar os medos e ouviu um disparo e um balido agudo. Alguém gritava por socorro. O instinto é algo extraordinário, e ele esqueceu seus medos e correu para auxiliar quem pedia ajuda.

    Debaixo de uma árvore enorme, que escondia a luz do poste, só viu vultos quadrúpedes afastando-se do local e percebeu que alguém jazia ali, caído no chão. Aproximou-se correndo para tentar ajudar e tropeçou em algo pesado que lhe fez doer a pata. Pegou o objeto e percebeu que era uma arma calibre 38. A ovelha jazia logo ali, deitada no chão, dando seus últimos suspiros em meio ao sangue que golfava pela sua boca. Seu instinto canino mais uma vez ultrapassou seus pensamentos e abraçou-se a ovelha para tentar ajudá-la a respirar. Seus olhos inocentes fecharam-se agradecendo-lhe enquanto as sirenes chegavam.

    Os porcos imaginaram logo o pior. Ele era um cão, com uma arma na mão e com uma ovelha morta deitada no colo.

    Foi assim que fora parar naquela cela imunda e escura. Lhe deram uma comida melequenta que mais parecia ração humana e estavam se negando a chamar um advogado e a lhe dar o seu direito a um telefonema. Quando a cela se abriu, respirou aliviado pensando que teria seus direitos atendidos, mas ao se deparar com uma sala com correntes e objetos de tortura percebeu que seria mais uma vítima do sistema.

    Onde estavam os direitos animais quando precisavam deles?

  9. ONOMATOPEIAS

    26/11/2012


    - Ronc. Ronc. Ronc. Ronc.
    Tic tac tic tac tic tac
    Trimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
    - Uóooooooooooo... nham, nham, nham.
    Klunk
    - Ops.
    - Ouch! Ui, ui, ui, ui...
    - Snif snif snif.
    - Mmmmmmm.
    - Afff.
    Ploc, ploc, ploc, ploc
    Nhééééééééééééééééc
    Bam!
    Toc toc toc
    Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc
    Nhééééééééééééééééc
    Ding dong
    Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc
    Toc toc toc toc
    - Aff!!!!!
    Nhééééééééééééééééc
    - Oi! Já acordei…

  10. Peço licença para a poética,
    Mas não sei rimar.
    Quero apenas o seu cérebro,
    No almoço e no jantar.
    Não me interessam suas ideias,
    Nem suas opiniões.
    Já não vivo, não me esforço,
    Não penso, só me desloco.
    Grunhindo e gemendo,
    Em busca de matar
    A fome que me corrói.

    Algumas partes de mim
    Já não estão mais comigo,
    Mesmo assim eu continuo
    Sem medo do perigo.
    Procurando massa cinzenta
    E correndo todos os riscos,
    De levar um tiro na testa,
    Por só buscar nutrição.

    Não sou belo,
    Nem romântico,
    Mas como não penso e não ligo,
    Ninguém se importa comigo.
    O que importa ser zumbi?
    Nem mesmo importa a mim.
    Continuo só querendo,
    Um cérebro fresco e quente,
    Rasgado com os meus dentes.

    Sem rima prá terminar...
    Que tal ser o meu jantar?
    por Medéia

  11. Futuro (in)certo(?)

    09/08/2011

    Desde cedo queria ser famosa.
    Sonhava sempre em ser artista de novela.
    Ensaiava os papéis na frente do espelho.
    E todos sempre diziam que seria celebridade.
    Era linda e etérea com traços perfeitos.
    E sempre fez muito sucesso no teatro da escola.
     Seus pais lhe colocaram em cursos de arte.
    E a sua vida de famosa parecia cada vez mais perto.

    Um grande jogador ele ia ser.
    Desde a barriga da mãe  já chutava forte.
    Nas peladas do bairro era sempre o destaque.
    Todos o queriam no seu time.
    O pai orgulhoso já imaginava o garoto em um grande clube.
    E o garoto sonhava com o futebol europeu.
    Quem sabe a camisa amarelinha da seleção.
    Era certo que seria um craque.

    Então eles se conheceram.
    E se amaram desde o primeiro momento.
    Eram um o complemento do outro.
    E quando ela engravidou, tiveram que escolher:
    Esquecer o sonho de terem fama ou
    Perder a felicidade de estarem juntos.
    Escolheram o amor (ou ele os escolheu).

    O que poderia ter acontecido se tivessem se encontrado 10 anos depois?
    Um caso? Um casamento? Um divórcio?
    Brigas nas revistas de fofoca?
    Assim pouparam o sofrimento e vivem felizes...
    ... enquanto o amor durar.

  12. Sorrisos para Lili

    17/07/2011

    “A amiga de Lili,
    assim como ela,
    sorria com pratas novas
    para cada flor bela.

    E o avô de Lili,
    com seu sorriso de cobre,
    há muito não ria mais.
    Nem mesmo um sorriso pobre.”

    por Medéia

    Homenagem à Lili e à Quintana
    que sempre me fizeram sorrir...

  13. A manhã gelada era a mesma da anterior.  Havia dias em que a massa de ar polar só fazia aumentar a sensação de frio. O sopro quente dos escapamentos dos carros erguia-se branco como névoa na escuridão, minutos antes do nascimento do sol. As pessoas passavam encolhidas em casacões, cachecóis e luvas em direção a seus empregos, ignorantes do dia que se avizinhava.

    Léia aproveitava mais alguns minutos entre os cobertores quentes antes de sentir o ar gelado que ocupava o quarto inteiro, a casa inteira. Os sentimentos que agitaram seu sono durante a noite sem deixá-la dormir eram semelhantes aos do ar glacial do ambiente ao seu redor.

    Primeiro a ira, a frustração, a raiva, a mágoa, e agora a indiferença fria, faziam da sua vida algo sem perspectiva, sem futuro. Por ela, mantinha-se sob as cobertas o dia inteiro, mas a rotina diária até que lhe fazia bem. Pelo menos não pensava nos seus problemas quando estava ocupada.

    Levantou-se e ligou a televisão por hábito. Assim ouvia algumas notícias antes de ir trabalhar, mesmo que inconscientemente. Escovava os dentes enquanto o apresentador do jornal matinal anunciava ainda mais frio, nevoeiros e até mesmo neve em algumas cidades mais frias. O termômetro estava batendo recordes a cada dia. Há muitos anos que não fazia tanto frio.

    Comeu com pressa depois de se arrumar e nem mesmo pensou em maquiagem ou perfume. Isto não fazia mais sentido em sua vida. Ninguém perceberia ou comentaria sobre sua boa ou má aparência. Pegou sua bolsa e as chaves do carro e desceu as escadas em direção à garagem. Passou por vizinhos contraídos de frio. Seu carro demorou a pegar e precisou esquentar-se antes de sair às ruas geladas onde os primeiros raios de sol brilhavam no orvalho gelado .

    Distraidamente foi refazendo o caminho diário sem prestar atenção aos gramados brancos pela geada e ao fino nevoeiro que brigava com os raios solares. Sua mente só saiu da fria indiferença em que estava quando o som de uma freada brusca anunciou um iminente desastre.

    Tudo o que lhe aconteceu nos últimos meses passou por sua mente em apenas dois segundos. Esperou o impacto enquanto freava também, mas ele não aconteceu. Com o carro parado, o tempo também parecia parado e mudo. Este instante foi de menos de um segundo, mas pareceu uma eternidade e então ouviu os gritos, as buzinas e o desespero no choro das pessoas.

    Desceu do carro e esqueceu de toda sua vida enquanto via ferragens de vários veículos, sangue e muitos gritos. Mas o que mais alarmava era que alguns envolvidos nem mesmo gemiam. O silêncio podia ser realmente assustador. As pessoas corriam, gritavam e gemiam. Alguma pessoas não envolvidas no acidente ligavam para o socorro ou para a polícia. O frio foi completamente esquecido.

    Léia se movimentava devagar, sem saber o que fazer para ajudar. Não conseguia contar, mas sabia que entre os veículos estava uma van escolar, um ônibus e muitos carros. Um choro baixinho entre as ferragens da van a atraiu instintivamente. Abaixou-se e viu presa entre os bancos uma garotinha. Devia ter apenas 7 ou 8 anos e estava molhada de sangue que Léia não sabia dizer se era dela ou de outras crianças da van. Deitada no asfalto frio, Léia esticou-se o máximo possível para poder dar a mão a menina e tentar acalmá-la. Ela soluçava de maneira sentida e agarrou a mão de Léia assim que a viu.

    Léia sentiu os dedinhos frios que escapavam pelos buracos feitos na luva que a menina usava e seu coração indiferente quebrou-se demonstrando o calor da solidariedade. Depois de várias perguntas, percebeu que a menina tinha apenas leves arranhões e que a maior parte do sangue era de outras crianças ou pessoas. A menina, que disse se chamar Brenda, parou de soluçar e passou a prestar atenção na voz calorosa de Léia que não parava nunca de falar, tentando acalmá-la.

    Assim ficaram por intermináveis minutos que foram quebrados pelos sons de sirenes dos bombeiros, polícias e ambulâncias que chegavam ao local para socorrer as vítimas. Logo um bombeiro chegou ao lado de Léia e ela pode lhe passar tudo o que Brenda estava sentindo e como ela estava. Enquanto ele fazia seu trabalho, Brenda não largou a mão de Léia nem um minuto. Este era seu porto seguro e sua salvação. Em meio a tragédia, o calor humano.

    Quando a ambulância se afastou levando a garotinha, Léia não era mais a mesma. O sol já espantara o nevoeiro. O frio cedia aos poucos lugar para o calor do dia. E o coração de Léia se abria a novas expectativas, cheio de emoção e pronto para novas experiências que espantassem as imagens da terrível calamidade que presenciara. Ainda tinha sangue nas mãos quando entrou no seu carro e um sorriso emocionado se abriu no seu rosto.

  14. Procura Binária

    07/06/2011

    Vazio. Nada se comparava a andar quilômetros e não encontrar ninguém.
    Já fazia muitas horas que ela caminhava e nem mesmo insetos esvoaçavam ao seu redor. As casas com as portas abertas pareciam convidar a entrar, mas ela já tinha percebido, depois de entrar em algumas dezenas, que ninguém estava lá dentro. Em toda parte parecia que as pessoas tinham resolvido ir embora deixando para trás tudo exatamente como estava. Geladeiras abertas, torneiras escorrendo água, máquinas ligadas, tudo continuava ali como se o responsável só tivesse ido ao banheiro ou até outro lugar pegar algo. Porém, ninguém voltava.
    Por onde andam todos? – ela se perguntava no início. Agora não se perguntava mais, pois cansara de conversar mentalmente com ela mesma. O cenário era desolador, como em um filme de ficção científica onde todos tivessem sido abduzidos e só haviam deixado ela para trás. Nem mesmo cachorros e gatos se viam nas esquinas e muros. Só ela fazia um ruído humano ou animal nas ruas.
    O sol já havia se posto bem no alto e agora abaixava lentamente, indicando a passagem da tarde. Ela não tinha pressa. Procurava alguém, qualquer alguém que estivesse na mesma situação que ela, desesperada por uma companhia. Quem sabe ela não era Eva a espera de um Adão para povoar a nova Terra? Talvez fosse um cataclisma que deixara tudo assim. Talvez fosse apenas um sonho tolo e logo ela acordaria, mas tudo parecia muito real.
    Quando pegou a estrada em direção a cidade vizinha o sol principiou a baixar no horizonte, mas ela só queria chegar lá, para descobrir se outras cidades passavam pela mesma situação. Desconfiava que sim, pois já tentara ligar para parentes e ninguém atendera. O calor no asfalto mantinha aquela sensação ainda mais surreal. Foi então que ela viu! No final da comprida reta uma sombra com formato humano.
    Talvez fosse apenas ilusão de ótica, por isto não correu. Apenas se manteve caminhando enquanto o sol dava lugar à lua e o vulto se aproximava cada vez mais. Caminhavam um em direção ao outro. Quanto mais se aproximava, mais nítido ficava o vulto. Aos poucos pode ver os cabelos negros e curtos, a calça jeans e a camiseta preta. Mas os detalhes do rosto ainda estavam ocultos pelas sombras da noite que chegava.
    Quando estavam a menos de 5 metros um do outro ela conseguiu enxergá-lo bem. Ele a olhava com a mesma expectativa que havia em seu olhar. Dois metros agora os separavam e eles já podiam ver detalhes: o cabelo crespo e loiro dela, os olhos castanhos claros dele, a sapatilha vermelha nos pés dela, os tênis com amortecedor nos pés dele, o vestido médio que envolviam as pernas dela em uma explosão de cores de verão. Eles agora podiam se tocar, mas nem mesmo trocavam palavras. Somente se olhavam como se enxergassem assombrações e não seres humanos. Quanto tempo eles estavam à procura de outra pessoa? Apenas uma bastava.
    E ali estavam eles. 
    Apenas dois em um mundo deserto e livre.

  15. Sou um tomate e ela uma alface.
    O tempo foi como uma academia para o amor.
    Malhou nossa relação e enxugou o nosso ardor.
    Tudo o que eu queria era ser um espaguete
    e ela ser o meu molho.
    Profunda e densa relação,
    enrolada e misturada,
    não sabendo onde um começa e outro termina.
    Mas foi o matrimônio que sufocou nossa história.
    Foi ele que acabou com nossas calorias.
    Porém nos melhores dias podemos ser como
    um palmito com mussarela de búfala.
    E ainda assim logo voltamos a ser alface e tomate.

  16. Esta é a minha época preferida do ano. Muitas cores da paleta vão embora e novas surgem. Os muitos tons de verde dando lugar ao amarelo ouro. E o amarelo escurecendo até quase o marrom.

    O ruivo do meu cabelo combinando com a natureza. Como os cabelos de Boadicea, a grande rainha guerreira. Assim como eu mesma as árvores estão lutando como guerreiras celtas, com o vermelho esvoaçando ao vento.

    E contra o que lutamos, eu e as árvores? Contra a estação da natureza que se impõe e vem trazendo dias mais frios e escuros. Tentando em vão segurar as folhas nos galhos, enquanto o vento devagarinho carrega em uma dança espiralada as antigas folhas verdes que agora, secas, são levadas.

    Novamente assim como eu, que estou secando por dentro, aos poucos morrendo. Serei levada pelo tempo, pelo vento, pela natureza. Quem sabe possa ensaiar uns passos da dança das folhas, enquanto espero o inverno da minha vida chegar.

    Mas tudo o que tento fazer é seguir os instintos dos meus cabelos cor de fogo e lutar. Quando o inverno chegar deixarei meu corpo dançar a música de encerramento e serei levada para renascer na primavera. Contudo, até lá, serei uma amazona guerreira, entoando gritos de guerra contra o tempo e fazendo justiça ao fogo nos meus cabelos pois ainda é outono e o inverno demora a chegar.

    por Medéia

  17. Velhos Hábitos

    02/04/2011

    por
    Medéia

    Uma velha encarquilhada balançava na antiga cadeira que pertenceu a sua bisavó e contava os pontos perdidos de uma manta de tricô azul bebê. Um gato gordo e cinza preguiçosamente brincava com o fofo rolo de lã, enquanto o bule fervia com chá de camomila. Um velho relógio cuco preparava-se para cantar as três badaladas da tarde e a velha senhora dizia "Mimi, está na hora de pôr uma meia e tomar chá". Todos os dias, a mesma rotina até o novo substituir o velho, até a velha parar de balançar e as antiguidades irem parar em caixas, escondidas das novas gerações.

  18. Reaprender

    12/03/2011

    Era a primeira vez que ela voltava lá. Desta vez não era como antes, não havia luz e sombra e não havia as cores das diferentes lombadas a atraindo. Não podia mais ver as pesadas prateleiras de madeira, nem as cadeiras de couro envelhecidas. As páginas de cores alvas e amareladas não estavam mais ali da mesma forma que antes. E o que restava então?

    Ela respirou fundo antes de seguir adiante. Tirou os sapatos e sentiu sob os pés a leve aspereza do tapete da entrada. Lembrava das cores dele, marrom e bege com um tom avermelhado. Dois passos e sentiu o frio das tábuas enceradas. Deixou os pés acostumarem-se com a sensação e seguiu em frente. Os braços esticados em direção ao balcão. Alguns tropeços e seus dedos tocaram a madeira macia do balcão. Deixou-os saborear a nova impressão.

    Segurando-se nas bordas arredondadas, contornou o balcão, passando para o outro lado. Sabia agora que estava distante apenas três ou quatro passos das prateleiras. Já sentia o aroma de bolor leve das obras antigas que a esperavam. Deixou-se ficar por alguns minutos ali, no balcão, apenas sentindo o cheiro da madeira e do papel.

    Alcançar as prateleiras foi como uma espécie de êxtase. Correu os dedos pelas lombadas em uma direção e depois de volta. Sentiu os calombos que separavam um livro do outro. Sensações de papelão e couro misturadas. Encadernações novas e velhas. Cheiro de livro novo combinado com o mofo das antigas páginas. O indicador parou sobre uma grande obra com capa dura de couro, costurada a mão. Puxou devagarzinho e, embalando o livro como um bebê, procurou com a outra mão a cadeira mais próxima.


    Na cadeira macia, deixou-se sentar com o livro no colo. As mãos percorrendo a capa e seus relevos. Conseguia lembrar a sensação de ver, mas os outros sentidos compensavam a falta da visão. O som das páginas sendo viradas, o tato do papel e o cheiro das folhas e da capa. A nova vida agora da antiga bibliotecária estava sendo reconstruída com novas sensações e novos hábitos, mas com conhecimento de tempos construído no amor aos livros.

    °°°oooOooo°°°
      por Medéia

  19. Há muitos anos que estou aqui.
    Milhares de anos para ser mais exata.
    Depois dos primeiros cem anos
    nada mais me surpreende, nada mais é novidade.

    Ainda recordo a minha infância humana,
    de correr na rua, de brincar e tomar banho de rio.
    Lembro da doce e tumultuada adolescência,
    com hormônios em ebulição e beijos roubados.

    E da noite escura em que fui mordida,
    jovem ainda, com toda vida para viver.
    Então eu ganhei o mundo,
    força, poder, beleza e vida eterna.

    Mas eu perdi o sabor do dia,
    Do sol, do verão escaldante, da primavera florida.
    O que não daria para renascer,
    para sentir o calor na minha pele,
    o vento morno em meus cabelos.

    E hoje, depois de tudo,
    sei que é o momento de terminar.
    Terminar com o tédio para voltar a ter o sol em mim,
    apenas instantes antes de tudo acabar,
    em meio ao calor da pele queimando.

  20. por Medéia
    Amanhã é outro dia.
    E o ontem já passou.
    Estamos sempre atrás de um novo futuro
    Como uma criança de bicicleta
    Atrás de uma folha ao vento.
    Um onde os erros do passado se apaguem
    E que novas esperanças surjam
    Como um pássaro a voar
    Entre brancas nuvens.
    Onde se possa escrever
    Em uma nova folha
    Sem máculas
    Sem pingos ou borrões.
    Novos horizontes,
    Grandes perspectivas.
    Pois o futuro é viver um novo presente
    Porque amanhã é outro dia.