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  1. Meu Quarto

    24/04/2008

    Por: Cristiane Costa


    - Vamos Querido, você está atrasado novamente! Aconteceu alguma coisa no trabalho??- pensei em voz alta, enquanto ajeitava a poltrona estrategicamente perto da janela junto ao telescópio.

    Quando aluguei o apartamento, achei incrível o inquilino anterior ter deixado aquele telescópio perto da janela. O corretor não soube me explicar porque o antigo morador havia deixado um equipamento tão legal como aquele quando se mudou. Depois de algum tempo fui me familiarizando com o equipamento, aprendi como manuseá-lo e comecei a apreciar as estrelas. Descobri que mesmo morando em uma cidade grande tinha o privilégio de observar o imenso céu, coberto de brilhantes. Vi até uma estrela cadente. A lua cheia então...é magnífica.

    Mas como qualquer ser humano, tenho uma parte curiosa, bem pequenina, mas tenho. Nunca acreditei que a curiosidade matasse e creio que na maioria das vezes pode ser até bem prazerosa. Como já havia me cansado de ver todas as fases da lua e já estava íntima de todas as estrelas, comecei a buscar novos horizontes. Sem querer, passei a observar o que acontecia por perto do meu prédio, então, comecei a observar as ruas, os carros e as pessoas. É óbvio que as janelas dos prédios vizinhos tornaram-se alvos em potencial. Quem nunca desejou saber o que fazia aquele(a) belo(a) vizinho(a) na privacidade de seu lar que atire a primeira pedra!!

    Descobri que posso me divertir encolhidinha em minha velha poltrona. Observar a vida alheia é muito mais divertido do que assistir certos programas da TV.

    Os moradores do prédio ao lado são incríveis, tem para todos os gostos. A moradora do 3º andar, em sua sala tem espelhos em todas as paredes e ela passa horas ensaiando passos de dança sozinha, com sua malha e sapatilhas. O casal do 6º andar, vivem como nas novelas mexicanas, uma hora brigam, xingam, se ofendem e, depois fazem amor e mais amor, e mais amor.

    A donzela do 8º andar com certeza está apaixonado pelo entregador de pizzas, pois todo santo dia ela pede pizza no mesmo lugar e consequentemente o mesmo garoto bonitinho vem fazer a entrega. Ela atende a porta toda simpática e sempre bem vestida, e os dois conversam por alguns minutos. Só pode ser amor!! Pensem comigo, ela trabalha e fica fora o dia todo, logo é impossível que ela coma uma pizza sozinha toda noite, caso ela conseguisse tal façanha teria uma luta brutal com a balança. Ademais ninguém consegue comer pizza todos os dias!!

    Já o vizinho do 13º andar, ou traí a esposa ou ganha muitíssimo bem, porque todo santo dia ele trás algum presente para ela. Desde lindos ramalhetes de flores a caixinhas que infelizmente não sei o que é, mas ele nunca chega de mãos abanando. Mesmo com todo esse dengo, o relacionamento deles me parece bem frio. O sexo entre eles é tão sem graça, eles nem se beijam durante o ato.

    Admiro o casal do 11º, mesmo próximos dos 50 anos, não deixam a monotonia tomar conta do relacionamento. Um dia é noite cigana, noutra é vestes de látex. Tudo regado a muitas velas, champagne, strep tease e sexo, muito sexo.

    Mas sou fã mesmo do morador do 5º andar. Num desses “passeios” pela vizinhança observei um moreno, alto, forte, cabelos fartos, na sacada de seu apartamento, com um shorts preto fazendo abdominais. Ele era simplesmente perfeito, dono de uma barriguinha “tanquinho”; daquele tipo que faz toda mulher desejar lavar um cesto de roupa bem suja; pois bem, ele é assim.

    Desde que o conheci, acompanho diariamente seu ritual. Primeiro ele se alonga e depois faz algum tipo de exercício: esteira, bicicleta, barras ou qualquer outro equipamento de sua mini academia, e eu fico aqui no aconchego do meu quarto a admirá-lo. Creio que o termo correto seria, fico aqui no escurinho do meu quarto a desejá-lo.

    Quando comentei sobre meu vizinho desconhecido com as minhas amigas, no início elas ficaram entusiasmadas, mas depois disseram que eu estava ficando paranóica, que devia procurar um psiquiatra pois observar outras pessoas é um distúrbio. Pura inveja delas.

    Hoje, três meses depois, começo acreditar que elas tinham um pouquinho de razão, mas só um pouquinho. Às vezes, eu mesma acho que estou ficando obcecada pelo meu vizinho. Trabalho como uma louca o dia todo para poder sair no horário e voltar correndo para casa para aguardar de camarote a chegada do meu belo e misterioso vizinho.

    O mais engraçado é que sei que horas ele acorda, a que horas volta do trabalho e quando vai dormir. Já sei identificar quando ele está feliz e quando algo o preocupa. Sinto como se já nos conhecêssemos a muito tempo. Algumas vezes sinto como se ele olhasse diretamente para mim, como soubesse que estou observando, pois sempre olha na minha direção e sorri.

    Hoje, por exemplo, ele deve ter tido um dia ruim, pois está muito atrasado. “Será que está me traindo?????”

    Imagino minha relação com o meu vizinho, como a de Eros e Psique, temos noites incríveis de amor, mas nossas identidades devem continuar ocultas, pelo menos para um de nós, caso contrário pode quebrar o encanto. Todas as noites fico esperando ele chegar para que pelo menos em meus sonhos ele me possua.

    - O que será que aconteceu??? Garotão você está muito atrasado??? Ah, não!!! Quem será que está tocando a campainha. Será que não se pode ter um pouco de privacidade nesta vida!!!!

    Ohhooo, no!!! É ele!!! Na minha porta, com uma garrafa de alguma coisa na mão. Acho que ele se enganou de apartamento. Devo ficar bem quietinha e fingir que não estou em casa. Como ele é insistente!!! Vai queimar a minha campainha. E se ele não for embora, ou estiver precisando de ajuda urgente. É melhor atender, afinal sou uma pessoa civilizada e educada.

    - Oi! Boa Noite! Posso ajudá-lo???
    - Boa Noite!! Estou aqui e espero que você possa me ajudar.
    - Como posso lhe ajudar??

    Ele deu um passo a frente e eu dois para trás. Ele fechou a porta, caminhou em minha direção. Não disse nenhuma palavra sequer e me agarrou pela cintura, me beijando tão loucamente, tão faminto que até perdi o fôlego, o chão desapareceu. Ficamos ofegantes por vários minutos, corações pulsando desenfreadamente, olhando nos olhos como se estivéssemos hipnotizados.

    - Seus olhos são verdes!!! Muito mais bonitos do que imaginei. – ele disse, sussurrando.
    - Sim!!!! – foi só o que pude responder

    E nos beijamos novamente. A língua dele procurando desesperadamente a minha. “Como esse homem beija bem!”. “Ele parece um polvo, sinto a mão dele em todas as curvas do meu corpo”. “Como ele beija gostoso!”. “É tão cheiroso!”. “Como é forte!”. “Que mãos macias e determinadas!”. “Como beija gostoso!”. “Ops!! Acho que já pensei nisso!”.

    Estes foram meus últimos pensamentos lógicos...esperem, conto o restante depois, pois neste exato momento minha mente está ocupada com outras coisinhas...não tão pequenas!




  2. 5 comentários:

    1. Vivi disse...

      Cris,

      Muito bom!

      Esse quarto esteve muito comportado, hein?
      Fantasia das românticas. hã,hã

      Aguardo o restante da história..kkk

      Beijos
      Vivi

    2. Lili disse...

      Adorei Cris!!
      Agora ficou o gostinho de quero mais rsrs

      Beijosss
      Lili

    3. Medéia disse...

      Hitchcock erótico?
      Ficou bom seu texto no estilo "Janela Indiscreta".

      Abraços

    4. a medéia retirou as palavras da minha boca (ou do meu teclado, nesse caso) Só faltou aquela mala misteriosa.

    5. disse...

      Cris,

      Quando a coisa ia pegar fogo você deixou para o próximo capítulo. Nossa, já imaginei as loucuras que poderiam rolar depois daquele beijo. Algo bem erótico...Mas, se esse foi o seu propósito: deixar que cada um imagine o que possa ter acontecido, você acertou em cheio.
      Ficou um gostinho de quero mais...Abs, Rê