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  1. Ao abrir o depósito, se deu conta das coisas velhas que haviam ali. De longe, avistou em cima do armário, a caixa das recordações. Subiu em uma pequena cadeira velha de madeira. Sujou suas mãos. O tempo e a poeira denunciavam que há tempos aquele objeto não era tocado. Talvez por conter momentos que marcaram de forma profunda sua vida e por ter medo de revivê-los.
    No entanto, impulsionada pela vontade incontrolável de revivê-las, abriu a tampa da caixa e como se o tempo não tivesse passado viu aquela cena comum, mas carregada de significados pessoais. Era o registro da pequena menina que segurava em uma de suas mãos a velha boneca de pano. Ao seu lado, a mãe orgulhosa a observava.
    Passadas duas décadas, ainda sentia a presença da mãe da mesma forma como se constantemente fosse afagada por aquela que sempre teve a sensibilidade de compreendê-la sem esforço. Era a única que a conhecia por inteiro.
    Ao tocar outra imagem foi remetida a um imenso jardim repleto de flores, muitas flores e no meio delas um senhor sentado em uma cadeira lia sossegadamente um livro. A sua feição transmitia paz e sabedoria. Em seus lábios era possível vislumbrar um sorriso contido, disfarçado. O que será que ele estava pensando? Talvez estivesse lembrando-se de alguma aventura da neta que sempre aprontava quando ia visitá-lo.
    Nesse momento, ela fechou a caixa e começou a chorar, sem saber o porquê. Sentiu em seu peito um misto de tristeza e saudade das pessoas que já não se encontravam mais ali, os momentos, os cheiros, as sensações, os sabores. Tudo tão distante e ao mesmo tempo tão perto.
    Apenas as imagens eram o registro cabal de que aquilo não tinha sido um sonho.
    Abriu novamente a caixa e se deparou com aquela que era a imagem mais querida: a comilança, assim havia rotulado aquela foto. Em preto e branco, viam-se várias pessoas comendo, sorrindo, brincando ao redor de uma mesa farta na varanda da casa. Se não estava enganada, aquele foi um domingo propício para um almoço em família.
    Ao ver aqueles rostos familiares veio uma vontade incontrolada de sorrir ao lembrar-se da festa que era estar juntos, comungando a mesma alegria.
    Fechou a caixa. Alegre, guardou-a novamente no mesmo local. Fechou a porta do depósito ainda emocionada por saber que tudo estava ali, intocável. As emoções estavam todas guardadas na caixa de recordações e em sua memória. Podia viver feliz.
    Por Rê Lima

  2. 5 comentários:

    1. Vivi disse...

      Fiquei muito emocionada. Um filme passou-se em minha mente.
      Gostei bastante.
      Beijos
      Vivi

    2. Medéia disse...

      Emocionante mesmo...
      Parabéns Rê

    3. Cris Costa disse...

      Rê, que lindo!!!
      Cada fotografias, uma lembrança.
      Parabéns!!!

      Bjs

      Cris

    4. Anônimo disse...

      Cris meus parabens pelas foto e pa raens aos outros cada foto de lembrança


      bjs

      gustavo

    5. Elisabeth disse...

      Olá Rê
      Tocante. Me lembrei do nonno ao ler seu texto. Muito sentimental, mas fotografias são assim mesmo, né?
      Parabéns