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  1. por Medéia
    Eu nunca havia sentido falta. Mas agora que não posso mais ser fotografado, que meu corpo é transparente para um filme, eu sinto. De mais nenhuma coisa da minha vida humana eu sinto esta falta. Talvez de comer cachorro-quente e pizza, já que meu estômago agora é mero enfeite e apenas sangue me alimenta.
    Ser um imortal, sugador de sangue, tem suas vantagens: o aumento dos sentidos, da força, da velocidade e da intuição, por exemplo. Tomar sol nunca foi meu passatempo preferido, até mesmo porque sempre fui noturno. Levantar cedo não faz meu tipo.
    Mas fotografias analógicas ou digitais sempre me atraíram. A foto marca um momento bom da sua vida, porque ninguém fotografa momentos ruins (a não ser os tablóides sensacionalistas). A foto caseira tirada em festas familiares, passeios, viagens, com amigos ou conhecidos são marcos, lembranças de bons instantes (agora entendi porque alguns chamam instantâneos) que vivemos.
    E qual é a graça em ser imortal, viver séculos e séculos, viajando, conhecendo locais, participando de momentos únicos, se não puder registrar a imagem?
    Sempre ouvi dizer que uma imagem vale por mil palavras. Nunca, em toda minha vida mortal, eu percebi o que realmente isso significava. O tempo que já vivi como imortal, aquele exato minuto em que tudo aconteceu, tudo aquilo que eu quis registrar, ficará guardado apenas na minha memória, que não é mais tão falha como era antes, mas que também não terá os detalhes, as minúcias.
    Escrever é uma boa forma de registro, porém nunca fui um bom escritor e tenho certeza que não saberia fazer com que uma descrição minha fosse realmente viva, real para aquele que a lê. Isto não melhora quando nos tornamos um imortal. Se você era inepto para alguma coisa, continua sendo. Apenas o que melhora são os sentidos com os quais você já nasceu.
    Guardo da minha existência humana, todas as minhas fotografias, inclusive as digitais, tiradas com meu celular, em ângulos estranhos. Todavia, quem olhar meus álbuns, poderá se perguntar o que aconteceu de lá pra cá? E já se passaram 80 anos desde minha última fotografia.
    Somos uma das mais antigas raças sobreviventes da Terra e ainda não inventaram nada que permita a gravação de nossa imagem.
    Tão triste, não poder relembrar olhando, folhando as páginas de meu modesto álbum. Meu nascimento, meu batizado, primeiros passos, comunhão, festinhas temáticas do meu aniversário (engraçado ver estas, pois tive vampiros como tema no meu 12º aniversário), formatura, namoradas, bodas de prata de meus pais... Boas lembranças, bons momentos.
    Depois do meu “2º nascimento” já viajei o mundo, estive em lugares que minha categoria de classe média não permitia: Coliseu, pirâmides, desertos, florestas, centros comerciais e econômicos, Torre Eiffel, Corcovado. Foram tantos lugares e nenhuma recordação de que eu estive ali. Minha cara redonda e branca, quase fora de esquadro com a Torre de Londres ao fundo. Nada disto eu possuo.
    E as pessoas? Presidentes, artistas, famosos, mulheres lindas e nem mesmo posso me gabar de ter conhecido uma miss universo ou um cientista prêmio Nobel. Do que serve conhecê-los então?
    E você ainda quer ser imortal? Não poder guardar suas lembranças amareladas ou vívidas, em caixas ou álbuns, arquivos em discos virtuais, em vídeos...
    Tudo o que você gostaria de viver e recordar através das lentes já foi vivido? Não? Então viva a vida, tire fotos da sua família, de seu cachorro, peixinho ou gato, de namoradas, dos seus objetos (aquela sua pantufa velha, a cadeira preferida do seu pai), de lugares famosos ou não (seu jardim pode ser infinitamente mais confortável que o lombo de um camelo no deserto do Saara) e principalmente de você (seus olhos, nariz, boca, corpo inteiro, só rosto). E depois de viver tudo e registrar, me procure. A minha sede de sangue, você pode aplacar.... mas não minha fome de recordações.

  2. 5 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Medéia,
      Fiquei comovida com a triste história do Vampiro...quem disse que vida de imortal é fácil!! :-))
      Adorei, você abordou o tema (fotografia) de um ponto de vista completamente diferente e inesperado.
      Parabéns!

      Bjs

      Cris

    2. Vivi disse...

      Bem confessional e reflexivo. A imortalidade vampirizando as lembranças. Uma perspectiva inusitada e criativa. Parabéns!

      Beijos

    3. gostei! abordagem surpreendente e conseguiu traçar uns paralelos bem interessantes.

    4. Elisabeth disse...

      Eu realmente estou virando sua fã!
      Seus textos sempre têm um quê sobrenatural ou místico.
      Abordar fotografia como recordação, e fazer uma comparação do mortal que tem acesso a imagens e do imortal que não tem foi excepcional.
      Gostei bastante e desta vez gostei do título também.
      Só não vou votar ainda porque não li todos os textos e quero estar certa do meu voto.
      Mesmo assim, parabéns garota!
      Texto muito bom mesmo.

    5. disse...

      Interessante seu texto. Acertou em cheio, Medéia. Original e criativo na medida certa. Parabéns!!!