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  1. Herança

    07/05/2008

    Por: Cris Costa

    Com olhos lacrimejantes, deixei a imensa sala e fui até o jardim. Retirei do bolso da jaqueta a velha fotografia e passei a admirar. Na foto, uma jovem de olhos grandes e claros; cabelos fartos e longos; pele aveludada e beleza exuberante; sorria alegremente.

    Ela segurava um livro e um pequeno arranjo de flores. A fotografia preto e branco, agora já era um tanto amarelada, no entanto, o colorido vestido ainda chamava atenção.

    O sorriso amplo e espontâneo era capaz de iluminar o mundo todo. Os olhos cintilantes demonstravam que naquela alma só existiam sentimentos puros e alegres. Nunca vi aquela mulher demonstrar cinismo, hipocrisia ou egoísmo.

    Sempre foi dona de um verdadeiro coração puro, angelical. Era uma mulher realmente bela.

    Com cuidado toquei novamente a fotografia, com medo que ela se desintegrasse. Aquela mulher da foto que eu tanto amava e que me ensinou muito, agora iria viver somente em minha memória. Em minhas melhores lembranças.

    Aquela bela jovem viveu sua vida da forma mais verdadeira. Ela amadureceu; conheceu seu amor; se casou; teve três filhos; acompanhou o sucesso de cada um; vibrou com o nascimento de cada um dos cinco netos e depois sofreu com a partida de seu único e grande amor.

    Sem arrependimentos, ela sempre viveu a vida intensamente, valorizando cada segundo, pois como ela sempre me disse: “cada segundo da Vida é sempre único, por isso faça bom uso dele”.

    Agora que ela repousa no caixão postado na imensa sala, não é mais tão jovem; afinal os anos passaram e levaram a sua juventude, contudo, a verdadeira beleza nunca a abandonou.

    Alguns parentes, amigos e conhecidos choram; outros comentam suas grandes façanhas; outros estão lá para agradar um outro alguém, pois não a conheciam diretamente. Velórios são todos iguais.

    Com certeza amanhã ou depois, todos os herdeiros se reunirão para dividir os seus pertences e logo ela será somente uma lembrança para eles. Algumas pessoas tendem a se esquecer das coisas realmente importantes.

    Em seu testamento ficou determinado que todos os imóveis e bens materiais poderão ser divididos entre seus três filhos e netos, exceto um item ficou reservado para mim.

    Sou a única beneficiária de seu verdadeiro legado. Ela me deixou toda a sua maior riqueza. Riqueza que nunca será perdida ou roubada, e, com certeza não causará discórdia na família. Deixou-me todos os seus livros.

    Para ela, os livros sempre foram sagrados e mágicos. Sagrados, pois guardam em si um pouquinho da alma de quem os escreveu e, absorve um pouquinho da de cada pessoa que os lê. Mágicos porque são chaves secretas que nos transportam para outros mundos sem que ninguém perceba.

    Ela foi e sempre será a mulher mais incrível que já conheci.

    Naquela velha fotografia, tirada a mais de setenta anos, minha avó já sabia o que me deixaria como herança, e, ela realmente conseguiu me fazer a pessoa mais rica do mundo.

  2. 4 comentários:

    1. Vivi disse...

      Òtimo, Cris
      Esse texto revela grandes emoções. Bela história de vida, de lembranças e de futuro.

      Beijos

    2. Medéia disse...

      Taí Cris!
      Linda história. Eu sei que você adora romances quando escreve, mas esta é a melhor de todas as suas histórias.
      Adorei, parabéns!

    3. Haroldo disse...

      Cris um texto com coração, não há como não dizer que me coloquei no seu lugar realmente muito bom.

    4. disse...

      Cris,

      Parabéns. Foi perceptível a mudança de enfoque no texto dessa rodada. Ponto para você: demonstra sua versatilidade. Concordo com a Medéia. Todos os seus textos foram ótimos, mas esse para mim foi o melhor.
      Continue assim: a nos surpreender a cada desafio.
      Parabéns!!!
      PS: Me indentifiquei com seu texto. Pois, apesar de diferentes, nossos textos tiveram um enfoque mais intimista, como já disseram por aqui.