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  1. Monólogo Feminino

    17/06/2008

    Não sei por que motivo as pessoas costumam se referir a mim como um ser masculino. Eu sou inteira feminina. É fato que a palavra que usam para me citar é masculina, mas foi o homem que a criou. Se uma mulher tivesse parado para pensar em mim antes de escolherem meu nome, com certeza eu teria um nome feminino.
    Eu sou paciente, como somente uma mulher pode ser. Espero, como uma grávida, os bons momentos chegarem. Mas sei esperar como uma mãe ou avó os maus momentos se irem. Talvez eu pudesse me chamar Paciência, mas eu não sou apenas paciência.
    Vejo as pessoas nascerem e acompanho seus dias com ansiedade. Seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas descobertas e sua vida inteira. Então os vejo envelhecer, alguns aceitando minha companhia como seu eu fosse uma grande amiga, outros lutando contra mim ferrenhamente. Mal sabem eles que não há forma de se esconder de mim. Eu estou onipresente na vida de qualquer ser. Novamente como uma mulher, acompanhando, participando, presenciando. Sempre ali, permitindo o crescimento e nunca interferindo nas suas decisões.
    Alguns pensam que podem me enganar, mas eu sou passiva, apenas vejo as conseqüências dos atos que cometem. Não interfiro nas cirurgias, nas academias ou nos comprimidos.
    Inventaram máquinas para tentar me burlar, mas é uma pena que só tenham funcionado na ficção e na teoria. Mesmo assim você acha que me importei? Paciência é uma das minhas maiores virtudes. Quanto mais a vida passa por mim, mais as coisas mudam.
    E, apesar das mudanças, que são tão belas de se ver, eu vejo que existem padrões de repetição. Pessoas que se repetem, acontecimentos que se repetem. Às vezes uma guerra. Outras vezes uma nação ou um ditador. E eu aqui, pacientemente observando tudo o que a humanidade faz.
    E você está se perguntando quem sou e por que estou fazendo este monólogo óbvio sobre a vida. Eu sou aquela que seduz os homens, sou aquela que consola os sofridos, aquela que faz passar as dores e os males. Sou quem faz a criança crescer e se tornar o adulto que ela quis ser. Sou o passado, o presente e o futuro. Sou inverno e verão, primavera e outono. Eu sou onipresente e onisciente, mas não sou um deus, muito menos uma deusa. Eles passam por mim, assim como você.
    Eu sou o que chamam de Tempo, mas você pode me chamar de Ocasião, ao menos o artigo é feminino.

  2. 6 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Medéia,
      Senti sua falta no desafio anterior...Voltou com tudo, Menina!!!
      Lindo seu texto. Adorei a lógica do tempo feminino. Muito criativa e perfeito uso da primeira pessoa.
      Adorei o monólogo no todo, mas esta passagem chamou muito minha atenção: "Paciência é uma das minhas maiores virtudes. Quanto mais a vida passa por mim, mais as coisas mudam."
      Parabéns!!!

      Bjs

    2. Viviane Lima disse...

      Medéia,

      Você voltou com tudo e ler seu texto foi um grande prazer, sobretudo, pela construção de um personagem Tempo assumindo uma natureza feminina. Considero o texto original pelas metáforas bem construídas e apresentadas. Já reparei que suas analogias em textos como esse e do vampiro provocam reflexões instigantes.

      Excelente!!!

      Bjs

    3. Fernanda disse...

      Medéia,
      Seu texto está um espetáculo. Com certeza escreveu uma coisa pra refletirmos.
      Parabéns!

    4. Gostei bastante do texto. subverteu uma visão já batida, construiu um personagem complexo, e conseguiu umas passagens primorosas. Da Paciência, dos deuses, de gênero... mto bacana.

    5. disse...

      Medéia,

      Lindo texto. De todos os seus textos (que são ótimos) esse tocou o meu coração por sua beleza poética. Excelente idéia de retratar o tempo sob o ponto de vista feminino.
      Parabéns pela criatividade! Continue a exercê-la. Você vai longe...bjs...Rê

    6. Maria disse...

      Que lindo, Medéia.
      Uma mulher entende realmente melhor o tempo, aliás ocasião.
      Gostei da personagem e do monólogo.
      Belo texto.
      Beijos
      Maria There