Rss Feed
  1. A face e o espelho

    26/07/2008

    Ela não se deu conta do momento exato que o espelho caiu de suas mãos. Ali, naquele chão cinza do quarto escuro, uma Eva assustada relutava em aceitar o fato.
    Diante de seus olhos, aquele objeto reluzente havia se reduzido em cacos.
    Eva sabia que não havia perdido apenas o espelho, mas registros de um tempo que não voltaria mais.
    Ainda pequena, o recebera de sua avó. Desde então, seria o objeto mais querido.
    O espelho levava momentos únicos vividos e marcados em sua face, que agora estavam ali, depositados em cada um dos fragmentos de vidro no chão.
    Quantas lembranças o espelho havia guardado? — Pensou.
    Não saberia responder. Cacos apenas restavam agora.
    Subitamente, lhe veio o pensamento: Não seria mais possível reencontrar a mim mesma? Como buscar em outros espelhos uma face que não a minha?
    Sentia-se abalada.
    Queria juntar os cacos de sua face. E assim o fez. Tentou, mas não conseguiu.
    Eram tão pequenos, imperceptíveis aos seus olhos tristes que denotavam decepção por não ter tido a oportunidade de ter visto pela última vez aquela face, a sua face.
    Seu dilema se converteu em culpa.
    Ressentia-se por talvez não ter compreendido a importância daquele objeto em sua vida. Se ao menos pudesse juntar os restos daquilo que um dia fora minha imagem refletida no espelho —Eva pensou.
    Sentimentos, emoções, lembranças únicas esvaídas em uma fração de segundos.
    Porque tenho a sensação de não me reconhecer mais?
    Tinha a certeza de que havia perdido a sua face, a mais verdadeira.
    A dor sentida por perceber que perdera muito mais que um simples espelho deixou Eva atormentada. A sensação experimentada naquele momento era de que sem aquele objeto não seria nada.
    Os cacos ainda estavam ali no chão. Não teria forças para recolhê-los.
    Não agora — ponderou.
    Saiu do quarto.
    Mais tarde, os varreria e os enterraria no fundo de sua alma.


    Por Rê Lima

  2. 4 comentários:

    1. Medéia disse...

      Que profundo, Rê... e triste.
      Muito bom e reflexivo.

      Parabéns.

    2. Fernanda disse...

      Achei o texto muito profundo e lindo...me tocou muito.Parabéns!!!

    3. Cris Costa disse...

      Rê, seu texto ficou lindo!
      Você retratou com tanta veracidade os sentimentos da personagem, que ao ler é possível sentir a tristeza, a culpa e a profunda dor que sentiu Eva pela perda. Afinal quem de nós nunca perdeu algo que amava???

      Parabéns!

      Bjs

    4. Vivi Bastos disse...

      Estar diante do espelho e deparar com o quebra-cabeças de imagens que somos enseja reflexões várias. Seu texto ficou ótimo pela metáfora bem trabalhada. Um de seus melhores textos! Notável a evolução.

      Bjs