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  1. por Medéia

    A primeira vez que abri os olhos e a vi, pensei que nunca veria nada mais lindo do que ela. Meu segundo pensamento foi para a prisão em que me encontrava. Eu não consigo me lembrar da minha vida antes dela, mas sei que devia existir. Afinal ela me trouxe para cá. Mesmo sendo a responsável por isto, nunca a culpei pois olhar todos os dias o reflexo do seu belo rosto me fazia feliz.

    Seu olhar era suave, com olhos muito grandes adornados por cílios enormes. Sobrancelha bem desenhada e a boca muito vermelha e cheia. O nariz ligeiramente aquilino lhe conferia um ar majestoso. Eu era seu amigo e confidente e nunca menti para ela. Não podia mesmo que quisesse.

    Ela casou-se de acordo com o seu porte, com um rei muito distinto e nobre. E foram felizes por algum tempo. Então veio a gravidez, os enjôos matinais, sua barriga volumosa e seu rosto arredondado. Era ainda mais bela, mas chorava todas as noites quando conversava comigo. Sentia-se gorda, inchada e feia. Adiantava muito pouco dizer a ela a verdade, que era ainda mais linda do que antes. A beleza da gravidez! Mas o rei, seu marido, teve muitos problemas em seu reino e a deixava muito só, perdida em seus pensamentos destrutivos.

    Então a menina nasceu. Linda como ela, com uma pele branca como alabastro. Cabelos negros e lisos e uma pequena boca de morango. Coincidiu com uma época melhor no reino, que fez o nobre rei ficar mais em seu castelo e dar mais atenção a sua família. E a menina cativou a todos, em especial ao seu pai. A bela rainha preocupada em com a sua aparência não ligava para os dois e ao mesmo tempo sentia ciúmes da relação de pai e filha.

    A cada ano que passava ela ficava mais linda, mais madura, mais mulher e mais se afastava dos seus. Mas eu podia viver este amor platônico, dizendo a ela como a via. E ela perguntava a mim todas as noites quem era a mais bela do reino. Em uma auto-afirmação da perfeição que se via no reflexo do meu rosto. Ela precisava saber, precisava que eu lhe dissesse.

    Um dia a menina, já adolescente entrou na torre onde eu ficava. Ouvi seus passos aproximando-se de onde eu estava. Quando afastou a cortina que cobria minha cela e eu vi como ela havia crescido, tão bela, tão branca, não pude me conter e me apaixonei novamente. Era tão mais linda que a bela rainha. Uma beleza pura e cativante. Era tão parecida com sua mãe e ao mesmo tempo, seu ar inocente, a fazia diferente.

    E esta foi sua perdição. Quando sua mãe esteve comigo naquela não pude dizer-lhe que era a mais bela. A pequena Branca (este era o seu nome) conquistou meu coração. E eu, um pobre espelho apaixonado por mãe e filha iniciei a tragédia que levou uma mãe a tentar matar sua filha.

    Mas esta é uma história que você já conhece.


  2. 4 comentários:

    1. Fernanda disse...

      Nossa adorei seu texto!O espelho apaixonado foi o máximo e as fraquezas da Rainha...rs...Adorei vc ter dado tanta realidade pra ele...muito bom mesmo!!!
      Parabéns!!!

    2. Cris Costa disse...

      Medéia,
      O que posso dizer do seu texto???? Menina, sou sua fã!
      Belíssima descrição dos sentimentos do "espelho vilão" da tão conhecida fábula. Creio que ninguém nunca imaginou um espelho tão apaixonado e fiel aos seus sentimentos.

      Parabéns!!!

      Bjs

    3. Vivi Bastos disse...

      A versão do espelho ficou ótima. A construção da narrativa bem ritmada de maneira a alinhavar os detalhes importantes da história da Branca de Neve foi uma sacada genial.
      Engraçado, a versão que conheço desse conto apresentava o conflito entre a madastra e a Branca. Essa outra versão existe ou foi criação de Medéia? Hã?

      Parabéns!!!

    4. disse...

      Medéia,

      Essa história permeia nosso imaginário infantil. Como não se encantar?
      Espelho, espelho meu....Essa pergunta todas nós nos fazemos, não?
      Também conheço a versão da madastra. Mas, penso que a autora usou da liberdade criativa para nos contar o que aconteceu antes daquela história que todos nós já conhecemos.
      Parabéns,
      OBS: No último parágrafo, o trecho " Quando sua mãe esteve comigo naquela...) faltou uma palavra para completar o sentido da frase.
      Bjs...Rê