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  1. O que é Pecado?

    22/09/2008

    Por: Cris Costa


    Dizem que na vida, sempre há um dia em que você é obrigado a assumir escolhas que serão fundamentais para o resto da Vida. Numa fria noite de outono, acordei tremendo e molhada de suor, urina e lágrimas. Eu tinha pavor do “bicho papão”, pois ele era real e muito mais cruel do que na fábula. Eu temia as noites, pois era quando o “bicho papão” me procurava. Naquela noite resolvi por um ponto final nos longos anos de angústia e sofrimento.

    Papai morreu quando eu tinha seis anos e meu irmão Edgard ainda não tinha completado cinco anos. Mamãe era muito jovem, e dois anos depois começou a namorar com Beto. Ele era um homem incrível: bonito, simpático, divertido, companheiro e rico. Ela me dizia que tínhamos tirado a sorte grande. Rapidamente conquistou o coração de Mamãe, com lindas jóias, viagens em família e tudo mais que uma mulher pode sonhar. Não vou negar que Beto era uma pessoa extremamente cativante. Mamãe e Beto, dois anos depois resolveram se casar e fomos todos morar na casa dele. Eu e Edgard passamos a acreditar em contos de fadas, pois passamos a ter tudo que era bom e desejado.

    Era noite, eu começava a cochilar quando senti que estava sendo acariciada. Quando abri meus olhos, vi Beto sentado em minha cama me acariciando e dizendo que me amava. Fiquei feliz com a atenção dispensada por ele, achando que realmente ele queria ser meu novo pai. Aos dez anos se acredita em quase tudo.

    Mamãe conheceu novas amigas, frequentava chás da tarde, clínicas de estética e adorava estar na coluna social. Seu melhor amigo era o dinheiro. Em contrapartida, Edgard descobriu que a comida era uma ótima companhia e começou a engordar, pois como Mamãe nunca estava em casa, ele comia um monte de “porcarias”, deitado em frente a TV ou sentado no computador. Como eu vivia questionando sua atitudes, Edgard passou a me ignorar.

    As visitas de Beto se tornaram constantes. Tão constantes que contei para Mamãe. Ela me acalmou afirmando que ele era um homem maravilhoso, que eu tinha muita sorte por encontrar um padrasto tão generoso e assim devia ser grata por tudo que ele proporcionava. Devia ser grata por tudo!.

    Um certo dia, Beto chegou no meio da tarde e me chamou ao seu escritório. Mandou que me sentasse em seu colo. Disse que eu devia ser uma “menininha boazinha”, pois ele era muito bom para minha família e que tudo poderia acabar se eu contasse para outras pessoas o que acontecia em casa. Neste dia ele tomou a liberdade de tirar minha blusa e tocou meus minúsculos seios. Na minha cabeça só ouvia a voz dele repetindo: “você deve ser uma menininha boazinha e não contar nada para ninguém, senão tudo o que sua mãe e Edgard gostam, vai acabar”. Então, fui uma menina boazinha naquela tarde e nas noites que se seguiram. Foram muitas noites.

    Mais noites se passaram até que Beto foi ao meu quarto e não se contentou em tirar somente a blusa do meu pijama. Naquela noite ele me deixou nua, tocou e beijou meu corpo. Ele dizia: “Meu Amor, eu te amo, você é uma menina muito boazinha. Não conte isto para ninguém, é o nosso segredinho”. Eu queria gritar, mas quem ouviria. Ele parecia ler meus pensamentos. “Meu Amor, se você gritar, todos vão achar que você é louca e mentirosa, pois eu não machucaria uma mosca sequer”, “Meu Amor, só faço isso porque te amo, viu!”. Eu sentia pavor e repulsa. Aos onze anos, compreendi que Beto não me amava como se eu fosse sua filha, naquela época não entendia o motivo pelo qual ele sentia tanto prazer em fazer aquilo comigo, mas somente sabia que aquilo não podia ser chamado de amor. Naquela noite chorei até que não houvessem mais lágrimas. Creio que a criança que existia morreu naquele instante.

    Eu não sabia em quem confiar, por isso liguei para Tia Bete, irmã mais velha de mamãe. Ela me levou para passear e questionei os acontecimentos como se fosse uma notícia da internet. Titia ficou horrorizada e disse que a criança devia contar para a mãe e denunciar aquele “monstro” na polícia. Segui o que ela sugeriu e procurei Mamãe naquela noite. Mamãe tinha acabado de chegar de um sarau e estava muito feliz. Relatei o que estava acontecendo. Ela deu um leve sorriso e pediu perdão por estar tão ausente, salientando que iria conversar com Beto para que isto não se repetisse. Após conversar com ele, Mamãe me repreendeu. Ela disse: “É muito feio acusar um inocente de coisa tão grave, principalmente alguém que te ama demais. É pecado. Sua atitude é extremamente egoísta e malvada, está se tornando uma menina mesquinha e mimada.”. Eu acreditei nela. E por fim, acabei pedindo desculpas.

    Duas horas depois ele estava novamente em meu quarto e depois de se satisfazer disse “Meu Amor, se você agir mal novamente, vou voltar toda minha atenção para o seu irmão Edgard. Você quer isso?”. Humilhada, desamparada, em lágrimas, implorei para que ele deixasse meu irmão em paz, prometi que seria uma boa menina e faria tudo o que ele quisesse. Naquela noite, ele rompeu com toda a minha inocência, despedaçou todos os meus sonhos.

    Depois que ele saiu, chorei muito, pois era a única coisa que podia fazer. Não tinha ninguém para me consolar, ninguém a quem pedir socorro. Todos admiravam Beto, quem iria acreditar numa garotinha mimada e ingrata?? Naquela noite chorei, não só pelo que aquele monstro havia feito comigo, mas por descobrir que a pessoa que eu mais amava não acreditava em mim, que ao invés de me proteger, me deixou sob os cuidados de um monstro – do verdadeiro “bicho papão”.

    Eu não entendia o motivo, mas, comecei a ir mal no colégio, já não conseguia dormir à noite e comecei a fazer “xixi” na cama. Até o Colégio observou minha mudança e chamou minha mãe. Ela, mais uma vez me repreendeu, dizendo que eu era egoísta e que estava fazendo tudo aquilo somente para chamar atenção. Pasmem...ela me disse que eu era ingrata, que queria vê-la na lama novamente, pobre, humilhada e sozinha. O dinheiro e o poder cegaram minha mãe. Ela não compreendeu meus sinais, eu implorava por ajuda, infelizmente ela só enxergava mesquinhez em minhas súplicas.

    Aos treze anos, era uma menina triste, e sinceramente acreditava que meus dias seriam assim para sempre. Quando estava quase perdendo as esperanças, Tia Bete veio ao meu socorro. Ela percebeu que eu estava muito deprimida e quis saber o que estava acontecendo. Relutei durante várias semanas. Sofri ameaças por parte de Beto e acreditem de minha própria mãe. Quando Beto após se satisfazer mais uma vez, falou: “Meu Amor, é melhor você ficar de quietinha, continue sendo uma boa menina, caso contrário vai acabar se machucando”, minha ira era tanta que pensei: "Quanto mais ele pode me machucar?". Naquela noite acordei tremendo e molhada de suor, urina e lágrimas. Decidi que era o fim. Estava na hora de por um ponto final naquela história e só dependia de mim. Finalmente, venci o medo e contei o que ocorria no conforto do que minha mãe chamava de doce lar; relatei tudo a que Beto me submetia. Enquanto contava minuciosamente tudo o que acontecia a mais de anos, lágrimas escorriam dos olhos de Tia Bete. De repente ela fez algo tão simples mas que naquele momento significou tanto. Ela me abraçou e chorou comigo. Fazia muito tempo que não me sentia tão protegida.

    Ela foi até minha casa, pegou algumas roupas e me levou para sua casa. Depois de uma discussão terrível por telefone, Bete convenceu Mamãe de que era melhor eu ficar em sua casa. Foi uma noite estranhamente calma e o “bicho papão” não veio me visitar. Na manhã seguinte minha Tia disse que eu devia denunciar Beto, caso contrário ele sairia ileso e continuaria a viver bem, podendo fazer outras vítimas. Só de imaginar outra menina passando pelo que passei, me fez vomitar. Era repugnante. Eu não podia me calar.

    Minha Tia conversou comigo, como ninguém antes havia conversado. Expôs a gravidade do caso e quais eram as minhas escolhas. Deixou claro que qual fosse minha escolha, ela ficaria ao meu lado e me protegeria. Explicou que não seria nada fácil, que seriam exigidos vários exames e acareações. Segui os conselhos dela e denunciei Beto. Provei que aquele exemplo de idoneidade, era na verdade um monstro. O processo não foi rápido, foi extremamente doloroso, e a recompensa nada prazerosa, somente apaziguadora. Minha mãe não ficou impune. Nas audiências Mamãe chorou, jurou que nada sabia, mas foi condenada por condescendência.

    Um dia, Mamãe olhou em meus olhos e me perguntou: “Porque você está fazendo tudo isto comigo?”. Uma lágrima escorreu de meus olhos. Foi a única resposta que consegui dar a ela. Não tive coragem de perguntar porque ela permitiu que ele fizesse tudo aquilo comigo, mas sinceramente não queria saber o porque.

    Aos quatorze anos, assumi uma escolha que definitivamente foi fundamental para o resto da Vida. Estou recomeçando a viver com minha Tia. Edgard está vivendo conosco. Recomeçar é difícil, confiar nas pessoas parece impossível. Bete diz que sou jovem e que aos poucos vou superando cada fase, mas como disse, é difícil recomeçar. Ainda não consegui perdoar minha mãe por me tornar tão insignificante. Muitos dizem que é pecado guardar rancor, se é pecado, não sei, afinal o que é pecado?



  2. 5 comentários:

    1. Robson Ribeiro disse...

      Cris, muito forte o seu texto.

      Só de pensar que essas coisas ocorrem realmente, e não poucas vezes, sinto arrepios.

      Parabéns!

    2. tijolada! bem tocante o texto, bem desenvolvido. a personagem da mãe está especialmente interessante.

    3. Vivi Bastos disse...

      Eu gosto quando você joga um texto assim, Cris. Pungente, pontiguado como que perfurando nosso senso de emoção. A divisão entre narrador e personagem confere o tom confessional do texto e atinge o ponto central da revelação. Assim como foi o texto da Ly.

      Parabéns, menina!!!

    4. lyani disse...

      Nossa, que forte e triste. Dói imaginar que em algum lugar isso é verdade.
      Parabéns, adorei!
      bjos

    5. disse...

      Cris,
      Quisera fosse apenas um relato restrito à ficção, mas casos como esse ocorrem na vida real, infelizmente. Você adota um estilo bem pessoal, em certos momentos parece conversar com o leitor. Mas, gostaria de ver um texto seu em um estilo mais impessoal,mas o texto está muito bom! Continue assim! Abs, Rê