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  1. por Medéia
    Quando tudo oficialmente terminou, na verdade, já havia terminado há muitos meses. Eu e ele não tínhamos mais nada em comum. Ou quem sabe nunca tivemos.
    Se apaixonar muitas vezes é mostrar a alguém interessante um lado que nem mesmo você sabia que possuía. E durante todo o tempo em que estivemos juntos a fantasia do ser por quem eu gostaria de me apaixonar imperou em nossa relação. Ele era o cara perfeito, e eu a mulher que ele queria.
    Mas erramos os dois. Criamos falsas expectativas construindo personagens no lugar de pessoas. E doeu. Doeu muito quando terminou. Não porque o amor tivesse acabado, até porque creio que ele nem mesmo existiu, mas sim porque nos desiludimos um com o outro e com nossos personagens.
    Então eu resolvi ter uma conversa com Deus. Nunca havia parado para pensar se realmente eu acreditava nele. Apenas fazia as preces automáticas que aprendemos a fazer quando somos crianças. E não pedi nada. Não mesmo! Apenas resolvi agradecer a Ele (ou talvez Ela, não sei como Deus realmente se parece) pela lição recebida. Fui relatando todas as mágoas que tive durante meu relacionamento, como faria a um amigo, ou um diário, sem medo de repressões. E Deus é um ótimo amigo/diário, me ouviu em silêncio, sem comentar nada.
    Foi um desabafo. Meu analista diria que coloquei para fora meu inconsciente, conseguindo assim deixar de lado a situação problema em que me encontrava e seguindo minha vida sem a bagagem emocional de um relacionamento desgastado. Mas Ele não disse nada. Não me encorajou, nem me repreendeu. E eu gostei. Pois assim deixei de ter expectativas em relação a minha vida amorosa.
    Estava livre! Sozinha e feliz. Pronta para ter uma vida agitada e cheia de alegria. Festas, baladas, pizza com amigos, conversar na Internet. Esta última mostrou-se interessante. Chat em salas de bate-papo com pessoas anônimas com apelidos engraçados (o que você imagina de alguém que se entitula Ursinh@?).
    Escolher meu próprio apelido foi algo interessante. Resolvi homenagear meu amigo Deus (ou seria Deusa?). Em todas as civilizações há formas e nomes diferentes para Ele. Eu somente tinha que escolher um apropriado, que fosse adequado a mim. Escolher o panteão foi o mais complicado: grego, hindu, egípcio, realmente há muitos nomes e faces para o ser divino. O grego é meio óbvio, pois as pessoas conhecem Afrodite, Perséfone ou outras deusas. E estes nomes acabam sendo atrativos demais. As deusas hindus costumam ter nomes assustadores, eu também não queria isto para mim. Então me sobrou o Egito. Só tinha que escolher um não óbvio, não assustador e adequado.
    E encontrei! Maat, deusa da verdade, justiça e ordem divina. A representação da religiosidade entre os homens. Adequadíssimo! Estava mesmo devendo uma a Ele.
    Entrei em uma sala qualquer, não muito cheia, nem muito vazia (corria o risco de ficar abobalhadamente lendo as mensagens de outros). Espiei os nomes: Gat@o, sarado_mg, lindo, gostoso, umhomemprachamardeseu, e outros nomes tão estranhos e narcisistas que só podiam pertencer a protótipos de homens que se encontravam na frente de um computador procurando alguém para ajudar na masturbação noturna. E eu procurava algo mais, uma conversa interessante, um pouco de risos e nenhum personagem (já bastava o apelido).
    Foi então que ele entrou – Max Ernst, apelido é claro. Eu conhecia a obra do pintor surrealista original. Soube logo que o dono do apelido era alguém diferente dos outros. Afinal, se você quer conhecer alguém para transar, não usa um apelido como este. Foi o único homem da sala que veio conversar comigo. Ele sabia que Maat era uma deusa, e o mais incrível, sabia o que ela representava.
    Nunca conversei tanto em toda minha vida. Dos assuntos mais diversos. Das pinturas surrealistas e dadaístas de Ernst, passando por mitologia, vida e morte, poesia, física, Deus e sua existência, e outros temas tão interessantes. Escondidos em nossos apelidos, narramos toda nossa vida. E mesmo com personagens criados (Maat e Max Ernst) eu nunca soube tanto de outra pessoa como soube dele, e tenho certeza de que nunca contei tanto de mim para outra pessoa.
    Foi uma relação surpresa. Nem eu esperava e creio que ele também não. Muitos e-mails, telefonemas e até mesmo cartas. Foi intenso e bom desde o início. O encontro “ao vivo” foi apenas mais um passo naquela afinidade que crescia a cada dia. Não contarei os detalhes íntimos, mas podem crer que foi bom também.
    A distância das nossas cidades não atrapalhava muito. Continuamos por meses a fio a nos falar diariamente seja por qual meio fosse. E alguns encontros tornavam tudo ainda melhor. Então, eu não sei em que momento, percebemos algo que era muito maior que nós dois. Algo que estava predestinado a acontecer. E assim foi. Nos tornamos amigos. Amigos que se amam profundamente, que se querem muito bem, mas que nunca estiveram destinados a ser amantes.
    Eu sei, você estava imaginando uma história romântica e arrebatadora, com um surpreendente final feliz. E estava certo, esta história é tudo isto. Hoje somos os melhores amigos um do outro. Temos nossos parceiros e os amamos. Reconstruímos nossa vida. Mas, naqueles meses em que fomos algo mais um do outro, nós estávamos nos preparando para novas e maravilhosas relações. Construímos durante aquele período novas idéias sobre amar e ser amado. E nos tornamos pessoas mais confiantes.
    E Deus? Ele com certeza respondeu minhas preces...


  2. 4 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Menina Medéia,
      linda a narrativa (1ª pessoa). O amor possui inúmeras maneiras de se expressar e, com certeza Deus ou Deusa dá seus "pitacos". E mais uma vez fica a lição de que tudo na vida vale a pena.
      A-D-O-R-E-I!!!
      Parabéns!!!

      Bjs

    2. Vivi Bastos disse...

      Medéia

      Gosto da maneira como você trabalha o conceito intrínseco ao tema misturando com pontos de vistas que lhes são antagônicos. Misturar o sagrado ao profano conferiu uma originalidade a premissa da narrativa. No entanto, esperava que o desenvolvimento da história acompanhasse a originalidade da premissa. Acredito que o tom de depoimento incorporado na história contribuiu para isso. No entanto, gosto muito de seu estilo de escrita, principalmente, da maneira como você desconstrói um tema tirando da cartola o elemento surpresa.

    3. Lyani disse...

      Belíssimo!!!
      Parabéns Medéia, gostei muito mesmo!
      Ly

    4. disse...

      Médeia, é nítida a facilidade que você tem para criar textos instigantes e que nos fazem pensar.
      No entanto, com relação ao texto dessa rodada, confesso que esperava um pouco mais.
      Não consegui associar a história de admiração e amizade que unia as personagens com o tema proposto. O final, poderia ter sido menos óbvio
      Mas, admiro a capacidade sua de trazer a tona toda essa força que existe dentro de você e que é visível em seus textos.
      Abs, Rê