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  1. O Colecionador

    16/11/2008

    por Medéia

    Nove e meia da noite.

    O quarto escuro era iluminado apenas pela luz do poste que entrava fracamente através da cortina azul marinho na janela. Miguel, deitado na cama de olhos fechados, visualizava cada canto de seu familiar recinto. As coleções de latas de cerveja, os álbuns de figurinhas do campeonato brasileiro de 10 anos consecutivos (todos completos), os copos, os selos, CDs e DVDs e todas as outras grandes e pequenas coleções que acumulara em sua vida. Até mesmo pedras. Suas prateleiras eram metodicamente organizadas para expor suas coletâneas de modo a valorizá-las ainda mais, mas principalmente de modo a servir a mais uma de suas manias: a organização.

    Nove e cinqüenta.

    O relógio de pulso de Miguel despertou lembrando-o de algum compromisso. Sem abrir os olhos, um sorriso desenhou-se em sua boca em quanto suas mãos se moviam para desligar o alarme. Estava excitado com a idéia de começar uma nova coleção. E esta seria a mais importante de sua vida. Levantou-se devagar e só então abriu os olhos. O escuro o manteve cego por alguns segundos, mas ele logo se acostumou com a penumbra. Abriu a porta do armário e vestiu-se. Como sempre, primeiro tirou toda a roupa, dobrou-a cuidadosamente e a colocou no cesto ao lado do armário para lavar. Calçou as meias primeiro, seguidas pela cueca e então a calça. Primeiro a parte de baixo do corpo. Calçados. Só então a parte de cima. Camisa e casaco. Penteou o cabelo, ainda no escuro. O perfume importado no colarinho. Guardou a carteira e a chave do carro no bolso interno do casaco e sorriu mais uma vez para si mesmo. Tudo daria certo.

    Dez e quinze.

    Um bipe do alarme e Miguel já estava no carro rumando ao seu destino. Precisava uma música para combinar com sua euforia. Não se sentia assim há anos. Talvez nunca tivesse se sentido desta forma. Um misto de excitação, adrenalina e medo do desconhecido. Ligou o player com o CD previamente gravado. Não gostava de ouvir músicas ao acaso no rádio, por isso gravava seus CDs conforme seu estado de espírito. Tinha no mínimo um para cada momento. E neste momento encontrava-se estimulado demais. Os acordes de uma música eletrônica, vibrante e dançante encheram o carro.

    Dez e quarenta.

    Em frente à boate movimentada, Miguel parou seu carro, ligando o alarme e verificando se tudo estava em ordem. Respirou fundo para diminuir a adrenalina no seu corpo e não parecer eufórico demais. As pessoas poderiam achar que ele estava drogado. Mas a única droga circulando em suas veias era seu próprio sangue que parecia antecipar o momento e corria com força em suas veias fazendo com que seu coração batesse apressado. Conseguiu diminuir o ritmo cardíaco e se dirigiu a entrada vip. Era bom ter dinheiro em coleção também, afinal este tipo de coleção não era questionado pela sociedade. Quanto mais você tinha, mais interessante você parecia.

    Dez e cinqüenta

    Uma nuvem de gelo seco veio ao seu encontro quando entrou na pista. Um empregado da boate lhe guiava até o camarote comprado. Algumas garotas já lhe seguiam com os olhos. A roupa de marca e a direção que seguia (os camarotes especiais) indicavam uma pessoa com dinheiro e talvez poder. Muitas cabeças de todas as cores viraram para lhe olhar, mas Miguel sabia exatamente o que queria para começar sua coleção. Pediu um scotch com gelo ao garçom que parecia lhe esperar no camarote. A pista ainda estava vazia, mas ele preferia assim, pois era mais fácil de vê-las chegando. Uma a uma desfilando em frente a ele. Saias curtas, decotes generosos, blusas brilhantes, maquiagem carregada e jóias (ou seriam bijuterias) brilhando nos braços e pescoços. A carta de mulheres do local era melhor que a de vinhos. Mas ele ainda não encontrara “A” garota especial. Ele sabia que encontraria. Sua excitação crescente lhe dava esta confiança. Foi então que ele a viu.

    Onze e trinta.

    Em seu canto, Luísa via os corpos dançando em movimentos ondulatórios. Jovens e não tão jovens vestiam-se sensualmente para atrair a atenção uns dos outros. Movimentam-se freneticamente como se estivessem fazendo uma dança de acasalamento. O que ela fazia ali? Vestira-se com apuro, maquiara-se com esmero, mas seu espírito não estava nesta festa. Não dançava e nem sorria. Apenas olhava a diversão alheia. Não via seus olhos, percebia somente o movimento da dança. E de novo aquela sensação de estar sendo vigiada. Medo. Seus olhos então refletiram o medo que aumentava em seu interior. E se ele a havia seguido? Olhou ao seu redor e não o viu, mas a sensação continuava ali. Foi então que viu Miguel. Ele a encarava com um sorriso nos olhos. Parecia engoli-la com o olhar. Não dançava e estava desacompanhado. Bebia um copo de uísque e a olhava como se a conhecesse. Ao vê-la encarando-o, fez um gesto leve com a cabeça em sua direção. Talvez fosse isso o que precisava. Distração.

    Onze e trinta.

    A garota era diferente. Parecia perdida no meio de todos dançando. Olhava ao redor procurando algo ou alguém. Seus olhos refletiam medo. Vestia-se bem com um vestido vermelho decotado e curto, mas não era vulgar como tantas outras ali. E Miguel não conseguia tirar os olhos dela. Mais uma vez a garota parecia procurar alguém com temor. Então seus olhos se encontraram. Ela o tinha visto e sabia que ele estava olhando agora. Fez um ligeiro sinal com a cabeça. Sentiu-se ainda mais confiante, pois ela abriu um sorriso tímido e o olhar de receio sumiu. Resolveu então se aproximar. Engraçado, agora que as coisas começavam a funcionar seu coração desacelerou, a excitação diminuiu e ele se sentia em paz.

    Duas e dez da manhã.

    Sua casa era mesmo perfeita. Próxima do centro mas sem vizinhos. Não morava com ninguém e na garagem, o quartinho especial que preparara para suas coleções estava em silêncio agora. Ninguém diria que há menos de duas horas a bela Luísa estava ali gritando a plenos pulmões. Ele sentira mais prazer do que nunca. Escolhera a garota certa. Sozinha no mundo, sem família, fugindo de um namorado violento. Ela nunca mais precisaria se preocupar com ele. Um Martini na mão e uma expressão pensativa. Agora a adrenalina estava diminuindo e Miguel estava voltando ao seu estado normal. Deus! Esta nova coleção era a melhor de todas. O que ele mais queria era poder continuar. Mas primeiro precisava guardar metodicamente os seus “objetos” em uma prateleira especial que já estava preparada. O sangue estava limpo e ele até já havia tomado um banho e trocado de roupa em seu ritual sistemático. Pegou o vestido vermelho da garota para guardar no armário. Ainda bem que era vermelho porque o sangue espirrara um pouco. Mas nem se notava.

    Duas e vinte e cinco.

    Com todas as luzes apagadas, mais uma de suas manias, foi andando para o seu quarto. Já estava preparando um novo plano para sua próxima garota de coleção. Abriu a porta do quarto. Tirou toda a sua roupa e dobrou-a meticulosamente como sempre. Colocou sobre o baú pois a vestiria pela manhã. Ao sentar-se na cama, com seus pensamentos longe, sentiu as molas do colchão cederem com seu peso. Afofou o travesseiro e meteu-se sob o edredom. Quente. Aconchegante. Antes de dormir, sentiu o braço da garota abraçá-lo pela cintura. Pensou que devia arranjar um lugar que não fosse sua casa assim não corria o risco de apegar-se a sua coleção de sexo e que devia dar uns pontos na mão cortada pelo copo quebrado. Seus olhos nublados de sono ainda olharam para a prateleira onde sabia que a calcinha vermelha estava guardada.

  2. 6 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Menina Medéia,
      Eletrizante!!! Chocante!! Surpreendente!!!
      Adorei sua atuação neste gênero, seu texto ficou ótimo.
      "Cada qual com sua mania"!

      Parabéns!!

      Bjs

    2. lyani disse...

      Nossa O.o
      Fiquei grudada ao texto, muito bom!!!!
      Sempre surpreendendo!
      Bjos,
      Ly

    3. Vivi Bastos disse...

      Mudança de hábito? Estou gostando de ver...rsrs

      A psicose quando associada a mania é um perigo. O desenvolvimento do caráter psicótico foi muito bem feito. O domínio da ação também foi preponderante para nos manter presos à leitura. Mas,do ponto de vista do leitor, entrar na mente do personagem e tentar adivinhar-lhe os passos, isso não tem preço.

      Òtimo!!!

    4. Clarissa disse...

      Exepcional!
      Surpreendente durante todo a história, mantem a atenção presa a narrativa .

      Exelente!!

      bjos

    5. disse...

      Medéia,

      Você foi por um outro viés ao abordar o tema. Um suspense denso, por se tratar de uma história forte e impactante do ponto de vista emocional. Estavam presentes a criatividade, o esforço e dedicação em oferecer ao leitor os elementos para se envolver com história. Parabéns, Medéia.

    6. O meu Deus, ficou demais.....amei....Parabéns.....Você confundiu minha cabeça hein...rsrsrs.....bjus Elis