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  1. Dilemaniagonizante

    16/11/2008

    Acordou atordoada. Olhou o relógio. Que horas são? 09 horas e 17 minutos!! Corria contra o tempo. Corra Lola, corra! Atrasada, tomou uma ducha, rápida. Ainda com sabão no corpo, se dirigiu ao quarto, se enxugou rapidamente e pegou a primeira roupa que encontrou no cabide. Não teria tempo para fazer combinações como prescrevem os ditames da moda. Olhou-se no espelho: jeans, camiseta básica e tênis. Aparência aceitável. Tinha de estar no consultório médico às 10h00min.

    Com as chaves do carro e do apartamento em mãos, seguiu destino à consulta que havia agendado há meses. Não poderia perdê-la. Abriu a porta do carro, sentou e deu a partida. Pausa para reflexão. “Será que desliguei o gás da cozinha?” “Não tenho certeza, só me lembro de ter pegado as chaves”. Ouve-se o som do virar das chaves.

    Sobe correndo as escadas, pois o elevador como sempre nessas horas que mais se precisa está com defeito. Ao entrar em casa, verifica que o registro está fechado. Sente-se aliviada. Mas, não tem muito tempo para pensar... Sua consulta!!!

    Desce novamente os dois lances de escadas, liga o carro. Já começa a fazer a manobra quando a dúvida novamente lhe acomete: será que ao entrar em casa, deixei a luz da cozinha acesa?”. “Não é possível, como ter certeza? Desliga o carro, olha rapidamente para o relógio, faltam 20 minutos para o seu compromisso. Mas, como deixar que essa dúvida a atormente durante o resto do dia?

    Resignada, sobe os dois lances de escada, abre a porta correndo e segue em direção à cozinha. Morta de raiva de si mesma. Constata que está tudo em conformidade. Luz apagada. E o gás? Dá uma olhada novamente, por garantia. Tudo ok. Desce os dois lances, a respiração já ofegante.

    Dá a partida no carro, mas, logo lhe sobrevém a dúvida cruel: tem a sensação de não ter verificado se deixara a porta de casa fechada. “Será que ao sair, deixei a porta aberta?”. Por um instante, pensa em chorar, mas, se controla. Respira fundo. Sobe os dois lances de escadas. Verifica o trinco da porta: F E C H A D A. Verifica novamente. Custa averiguar o gás e a luz? Custa.

    Pára por um instante diante da porta trancada. Começa a descer os dois lances de escada rumo ao seu compromisso! Novamente pára e olha a porta. Trancada?? Verifica as horas: são 10h00min cravados em seu relógio. Sobe. Abre novamente a porta. Tudo ok.

    Senta no sofá. Liga a televisão. Olha para o nada. Lá se foi outra consulta com o psicólogo.

    Desliga a televisão. Confere novamente a porta. Verifica o registro do gás. Luz apagada. Dirige-se ao quarto com a esperança de conseguir dormir.

    Antes, porém, liga para o consultório na tentativa de remarcar a consulta. A secretária atende. “Como explicar que perdera a consulta por não conseguir ficar sem pensar se desligou o gás ou não antes de sair de casa?” Melhor não explicar nada, mesmo envergonhada por ser a sétima vez que a consulta fora desmarcada. A secretária informa que há vaga apenas para o próximo mês. “Fazer o quê? Pode marcar na primeira data, primeiro horário.” Consulta marcada, sente-se mais confortável.

    Deita novamente em sua cama. Fecha os olhos na tentativa de descansar um pouco. Em um sobressalto, os seus olhos se abrem. Pula da cama, se dirige em direção à cozinha. Gás desligado. Luz apagada. Porta trancada. Não necessariamente nessa ordem.


    Por Rê Lima

  2. 5 comentários:

    1. Medéia disse...

      Quem é que nunca saiu de casa achando que tinha deixado algo ligado/destrancado/aberto?
      Muito boa a paranóia da personagem.
      Parabéns, Rê!

    2. Cris Costa disse...

      Menina Rê,
      muito observador seu texto. Você atingiu em cheio o núcleo das manias. Como bem disse a Medéia, quem nunca teve dúvidas como sua personagem?? Estou com os dois braços levantados!!!
      Parabéns!!
      Adorei.

      Bjs

    3. lyani disse...

      Nossa Rê!!!!
      Fiz um memem no meu blog certa vez sobre manias bizarras, e uma das minhas manias era a geladeira aberta e o gas do fogão. Sempre, sempre volto pra verificar os dois, haja o que houver... e posso já estar na porta do compromisso, eu volto pra ver se está tudo bem...
      ADOREI!!! PARABÉNS!!!
      Bjos,
      Ly

    4. Vivi Bastos disse...

      Rê, você fotografou com palavras o sofrimento de quem passa por isso sem resvalar no melodrama. Gostei da inspiração do título pois abarca bem o sentido do texto. E a idéia de que o círculo maníaco continua foi um desfecho plausível e coerente. Além disso, notei uma mudança de estilo o que é bom para dar um novo fôlego no combustível da criação. Continue assim, garotinha!!!

    5. Ao q tange o texto, concordo em tudo com a Vivi. Os parágrafos curtos tb ajudaram a colocar o leitor nesse "ir e voltar" de uma rotina fragmentada. bacana.