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  1. "Maldita Noite!"

    04/12/2008

    Por: Cris Costa

    Fabrício saiu da Cerimônia de Entrega do Prêmio “Profissionais do Ano”, orgulhoso pelo reconhecimento, mas entediado. Despediu-se de seus colegas de trabalho e optou por voltar caminhando para casa. Morava do outro lado do parque e a noite estava tão bonita. Pensou que a caminhada noturna talvez o animasse um pouco. Já estava na metade do caminho quando ouviu um barulho estranho entre as árvores. Acelerou os passos e percebeu que estava sendo seguido. Alguns segundos depois, corria pelo parque desesperado, sentindo que o mal se aproximava cada vez mais. Olhava a sua volta, mas não conseguia ver nada. Maldita hora em que pensou que seria legal caminhar de volta para casa, ao invés de chamar um táxi. Não sabia ao certo o que o perseguia, mas era possível sentir sua respiração. Um arrepio percorreu sua espinha. “Socorro, alguém me ajude!! Socorro!!!”. Onde estava o guarda do parque naquele momento, quando mais precisava. Gritava com toda a força de seus pulmões e somente o eco na escuridão respondia. Praguejou recordando que bastava estacionar o carro por ali, na companhia de uma garota nas belas noites de verão, que imediatamente surgia o robusto guarda advertindo que era proibido “namorar” no parque. E por que naquele maldito momento o guarda não aparecia. “Socorro!”.

    Já era possível ouvir os passos cada vez mais próximos, bem como, os rosnados. “Socorroooooooo!!!”. Ao avistar as luzes da viatura que se aproximava, Fabrício empreendeu toda sua força, mas somente sentiu um golpe que o arremessou ao chão. A dor do impacto e a sensação de sua pele senso rasgada foi tão intensa que tudo se apagou. Quando acordou, com a claridade do sol em seus olhos, demorou um pouco para que ele reconhecesse que estava em um quarto de hospital. Quando movimentou o braço com o intuito de tocar a campainha, sentiu muita dor e só então constatou que seu braço direito estava totalmente coberto, um curativo. Com muito esforço conseguiu apertar o botão. Algum tempo depois, o médico responsável foi visitá-lo.

    - Como está se sentindo?? Você pode me responder seu nome completo e idade?? – disse o médico, com um sorriso amarelo para disfarçar a preocupação.
    - Meu nome é Fabrício, tenho 32 anos. Sou filho de Anabella e Augusto. Tenho uma empresa de auditoria na área de aviação. Moro no edifício Dom João e, ontem estava atravessando o parque, voltando para casa da Cerimônia de Homenagem aos Profissionais do Ano quando um atacado por um maníaco. – respondeu Fabrício irônico, pois percebeu que o médico receava que tivesse perdido a memória.
    - Òtimo, ótimo!!! Sua memória está perfeita, mas o Sr. foi atacado na Sexta-feira e hoje é Terça-feira. A desorientação é normal em casos como o seu. A polícia virá interrogá-lo assim que estiver preparado. Eles acreditam que o seu agressor estivesse acompanhado de um cachorro, treinado para matar– falou o médico friamente.
    - Cachorro!!! Impossível...o que me atacou era muito mais forte que um cachorro. E estes ferimentos, foram todos provocados por um cachorro??? Pensei que os cortes tivessem sido provocados por facadas???? – perguntou.
    - Exatamente. Seus ferimentos são semelhantes aos produzidos por ataques de cães. Não há sinais de cortes produzidos por faca, tesoura ou qualquer outra coisa. Suas dilacerações foram provocadas por algum tipo de cachorro, talvez um pitbul. Fabrício você teve muita sorte em sobreviver, pois o bicho parecia estar muito enfurecido – declarou o médico sinceramente.

    De repente sentiu novamente sua carne sendo rasgada, o imenso vulto negro de olhos vermelhos raivosos e famintos, os grandes caninos investindo contra sua carne. Um último suspiro.

    Fabrício levantou-se assustado, suando e com falta de ar. Três e cinco da manhã acusava o relógio na mesinha de cabeceira. Levantou-se e foi até a cozinha, precisava de água, sua garganta doía de tão seca. Olhou para a imensa cicatriz no braço direito que mesmo após duas cirurgias plásticas ainda chamava a atenção. “Maldita noite! Que baita sorte”, pensou já se dirigindo para o escritório.

    Indiferente ao calor de 37ºC, Fabrício vestiu a camisa manga longa, a calça social, pegou o paletó e a gravata, escolheu um dos relógios de sua coleção e saiu para o trabalho. Não conseguiu mais fechar os olhos desde que despertara as três da manhã e nesse intervalo tinha encerrado um relatório, encaminhado e-mails e revisado a agenda do dia. Estava tudo organizado para sua ausência.

    Fabrício era um homem fabuloso, alto, cabelos negros e fartos, olhos verdes e um corpo muito bem definido. Era admirado pelos funcionários e desejado pelas mulheres. Sua empresa estava em ascensão, o que o levava a viajar constantemente. Pelo menos uma vez por mês ficava fora por uma semana. Estava envolvido com Beatriz a alguns meses. Realmente gostava dela, contudo, já alertara a pobre coitada de que nunca passaria disso, casamento estava fora de cogitação, filhos, então, nem pensar.

    As semanas sempre passavam rapidamente. Já estava novamente com a mala no carro. Já tinha feito a reserva na cidade de destino e deixado os funcionários devidamente orientados. Embarcou, tinha pela frente mais uma semana de desafios. “Que Deus me ajude a sobreviver a mais esta semana!”, pensou enquanto o avião decolava.

    O pequeno sítio era encantador e ficava a uma distância razoável da cidade. Com certeza Beatriz adoraria o local, pensou com desgosto, visto que não podia proporcionar a ela este prazer. A tarde começou a cair e a lua cheia com todo seu esplendor começou a iluminar o céu.

    Sentiu a primeira pontada de dor. Parecia ter levado um soco no estômago. A seguir vinham os enjôos, e ia se aprofundado como uma cólica renal. Depois parecia que todo seu interior começava a se desintegrar. Uma dor intensa, sufocante. “Maldita noite de lua cheia!”, pensava ao mesmo tempo em que proferia maldições. Seus ossos se partiam e tomavam outra forma. A pelagem escura surgia, as garras afiadas cortavam sua pele, os instintos se tornavam mais aguçados. A transformação era um processo de tortura indescritível. O homem desaparecia e a fera estava solta, desesperada e faminta. Um uivo e após um silencio agoniante. A lua cheia era a única testemunha da caçada que começava. Sete longas noites.

    “Enfim a última noite! Maldita seja!”, pensava Fabrício sentado na varanda apreciando os últimos raios do sol. A lua cruel começava a despontar. O processo começava, o último dia de transformação. A última caçada do mês.

    Espreitava entre a cana-de-açúcar. Não haviam mais animais por ali. Estudava suas possíveis vítimas. Haviam homens trabalhando na região. Tinha que ser cuidadoso. Um dos homens percebeu sua presença. A vítima foi escolhida naquele instante. A caçada começava.

    O homem partiu com seu caminhão carregado de cana queimada, pela estreita estrada de terra. A Fera começou a perseguir o veículo. O homem mais uma vez pareceu perceber sua presença. Teria que ser rápido, pois a presa estava alerta. Havia uma abertura entre todo o metal, perfeita na altura do pescoço do homem. Um único golpe perfeito seria letal. Projetou-se contra a lateral do caminhão e encontrou um local de apoio. Subitamente o homem virou e pôs-se a encará-lo. Um misto de horror e susto pode ser visto em seu olhar. O homem tinha os olhos arregalados, totalmente sem cor na pele. Seus instintos aguçados, sentiram o medo que percorria as entranhas da presa. Seus sangue fervia. O ataque foi rápido, tanto quanto o movimento do homem, que conseguiu desvencilhar-se. Havia uma proteção transparente que impediu que as garras da fera acertasse em cheio a jugular da vítima.

    A caça era tão ágil quanto o caçador. Desafiante. O homem começou a dirigir em ziguezague, tocando o barranco, tentando arremessá-lo para longe. O medo e o instinto de defesa da presa, aguçaram ainda mais o desejo da Fera. Queria rasgar a pele da presa, arrancar-lhe a cabeça e dilacerar as demais partes do corpo.

    O homem o golpeava com o pés e mãos, dirigindo insano. Desde sua transformação, aquela era a primeira vez que encontrava resistência em uma presa. Estava se divertindo. O homem o golpeava com muita intensidade, o que somente aumentava o prazer da caça. Aumentou os ataques, as garras passando a milímetros da pele da presa, que a essa altura não tinha mais nenhuma cor, parecia que todo sangue tinha fugido do corpo do homem.

    A pequena distração ao “brincar com a caça” lhe custou o final da caçada, pois sentiu a aproximação da civilização. Não podia se expor, era uma risco desnecessário. Saltou e correu em direção à plantação. Desapareceu.

    Quando acordou, estava nu deitado na varanda. Seu corpo estava repleto de arranhões, com o sangue já seco. Precisava se limpar. Ao se defrontar com o espelho empalideceu. Seu rosto estava com muitos hematomas e o canto esquerdo bem inchado. Realmente tinha sido uma caçada excitante. A vítima resistira bravamente.

    Enquanto limpava os ferimentos começou a pensar no que dizer quando voltasse à cidade. Toda encenação tinha que ser perfeita. Desceu do táxi e sorriu antes de apertar a campainha da casa de Beatriz. Quando ela o viu, ficou branca como a neve. Ele tinha pleno conhecimento de sua aparência.

    Feliz por estar vivo, Fabrício abraçou a amada e começou a lhe contar os detalhes do sequestro relâmpago do qual foi vítima ao chegar na cidade. Apesar de muito cansado relatou com muito cuidado cada momento de medo vivido. A pobre Beatriz ficou horrorizada com a crueldade e insanidade do assaltante. "A vida nas grandes cidades estava tornando-se insuportável."

    Depois de contar a Beatriz tudo o que lhe aconteceu, Fabrício prometeu descansar e não viajar mais. “Não pelo menos durante as próximas três semanas”, pensou satisfeito. Tinha decidido que estava na hora de terminar o relacionamento com Beatriz, pois da próxima vez qual desculpa inventaria??

    Não queria arriscar sua vida.

    Este era seu fardo.

    Este era seu segredo.

    Fim....ou melhor dizendo, até a próxima lua cheia!


  2. 5 comentários:

    1. Essa história ficou muito interessante adorei, parece que vivi cada momento, que loucura....bjus elis

    2. Medéia disse...

      Oi Cris

      Eu acho bem interessante estas histórias fantásticas que você cria.
      Seres fantásticos são sempre secretos...
      Beijos

    3. Lyani disse...

      NOSSA!!!!
      Muito bem descrito, que perfeito!
      Adorei!
      bjosss

    4. Vivi Bastos disse...

      Que segredo-bomba! E que sacada boa continuar o texto do tema I. Pensas que eu não percebi?...rsrs

      Cris, a continuação é bem melhor, se me permite dizer. A descrição de cenas e conflitos é muito boa. Os diálogos também. Nem havia a necessidade da menção do segredo ao final. Essa ídeia já é inerente ao ser lobisomem...rsrs

      Mas, me diga uma coisa: Fabrício devorou o médico? Fiquei na dúvida.

      Beijos
      Vivi

    5. disse...

      Cris,


      A história é bem interessante.Quanta criatividade, Cris!!
      Concordo com Vivi. As duas últimas frases, ao meu ver, são desnecessárias: "Este era seu segredo/Fim....ou melhor dizendo, até a próxima lua cheia!"

      Abs, Rê