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  1. por Medéia
    Acordar ao som dos tiros de canhão e tanques já estava virando rotina na vida de Anna. O alojamento no extremo oeste de Soissons estava todo ocupado por enfermeiras treinadas por Miss Saint-Paul. Além de Anna muitas outras enfermeiras de Saint-Paul estavam levantando. Era hora de se arrumar e realizar a troca de turno. Enquanto vestia a anágua e as meias brancas, ela pensava que o dia seria longo, afinal há uma semana já se ouviam os sons da guerra. Depois do vestido branco e do avental, o mais importante era manter o cabelo bem arrumado em um coque para prender o lenço que lhe fazia lembrar as freiras que ajudaram no seu treinamento. O mais importante sempre era manter a aparência de higiene e limpeza, dizia Miss Saint-Paul, parafraseando a famosa Florence.

    Como se estivessem ensaiadas, dezenas de enfermeiras ganharam a rua em frente ao alojamento e dirigiram-se às bicicletas que as levariam até o hospital do Castelo de Vauxbuin. Soissons tinha atualmente dois hospitais: Saint-Paul e Vauxbuin. Saint-Paul era o hospital principal, onde as garotas haviam sido treinadas e ficava logo após a travessia do Rio Aisne. Vauxbuin era um castelo de um nobre local que o cedeu para ser usado como hospital, pois ficava mais próximo do front, ao norte de Soissons.

    Enquanto pedalava ao longo do rio, Anna observava a cidade que parecia destroçada. Na verdade alguns tiros de canhão haviam destruído prédios importantes e os escombros se encontravam por toda parte. Muito pó e entulho era o que se via por todos os lados. Falava-se de uma tropa francesa e uma britânica que se dirigiam para ali, para barrar a 1ª infantaria alemã que marchava em direção a Paris. Anna esperava que chegassem logo pois a tropa local não estava conseguindo manter-se e as baixas eram muitas. O hospital estava super lotado e as enfermeiras treinadas não estavam dando conta. Muitas meninas que não tinham nem mesmo 12 anos ainda estavam sendo recrutadas e treinadas para a enfermagem.

    Atravessando a ponte sobre o Aisne faltava pouco para chegar. Anna pararia em Saint-Paul para falar com Miss Saint-Paul. Ninguém sabia seu nome real, e todos a chamavam assim pois era a enfermeira-chefe do hospital Saitn-Paul. Acreditava-se que era uma condessa que havia perdido seu marido para a guerra, mas eram apenas especulações. Algumas enfermeiras seguiram a rua destroçada do centro de Soissons em direção ao Vauxbuin enquanto outras seguiram Anna até Saint-Paul.

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    Kaptain Krauser não havia nem mesmo descansado. Passara a noite gritando com seus soldados e instruindo-os. General Kluck acreditava que os franceses teriam uma grande surpresa com a sua Radfahrertruppe. O soldado Müller sabia que os britânicos e os italianos estavam preparando suas tropas ciclistas assim como eles, mas o sucesso seria de quem os usasse primeiro. Por isso a preocupação de Krauser. Suas bicicletas eram modelos especialmente desenvolvidos por engenheiros alemães para a guerra. Eram dobráveis e leves. Podiam ser carregadas nas costas junto com a mochila de suprimentos e suas armas e munições. É claro que a Radfahrertruppe era uma tropa de elite. Todos os soldados da tropa eram fortes o suficiente para agüentar o peso extra da bicicleta. E todos estavam em treinamento há meses. Conseguiam atirar enquanto pedalavam. As bicicletas podiam entrar em locais onde os tanques não entravam, com muito mais velocidade e levando muito mais soldados de uma só vez, pois cada um tinha a sua.

    E hoje era o dia. Depois de bombardear a região da Picardia Francesa, principalmente Soissons e vilas ao redor, era imperativo que a Radfahrertruppe ocupasse a cidade antes que a tropa francesa de reforço chegasse. Eles sabiam que o reforço traria consigo tropas britânicas, afinal o General Kluck estava marchando em direção a Paris. E quem tivesse Paris estaria ganhando a guerra. Erich Muller mal tinha completado a maioridade, mas já tinha visto muitas mortes. Hoje seria a sua vez de matar.
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    Michel Dupré não tinha noção real do que acontecia ao seu redor. Acordou pela manhã, assim como Anna, ouvindo os estouros da guerra. Pareciam fogos para ele, mas sua tia lhe disse que muitas pessoas morriam. Seus pais haviam morrido havia pouco mais de um mês e sua tia lhe trouxera para Soissons. Com apenas cinco anos, Michel achava que morrer era algo bom. Afinal, o padre havia dito que seus pais estavam com Deus, no céu. E isto era bom, não era?

    Depois de comer um pão seco e tomar um copo de leite quente, Michel ouviu os conselhos da tia para não se expor muito na rua, enquanto ela ia buscar mais mantimentos para eles. Mas tudo o que o menino queria era brincar. Não havia muitas crianças ali. A maioria havia fugido e algumas já tinham morrido doentes ou em conseqüência das explosões. Após a saída da sua tia pegou seu triciclo e foi para a rua brincar.

    Sua mente infantil guardava imagens devastadoras que via, mas não as assimilava. Alguns soldados na calçada fumavam. Uma menina ainda menor que ele, brincava de boneca, apoiada em mochilas com armas e munição. Os mercados estavam abertos, mas com as portas fechadas. Muito pó fazia algumas pessoas tossirem. Um comércio no final da rua estava todo rachado e parte de seu telhado já havia caído.

    Michel continuava pedalando imaginando que viajava por lugares distantes, enquanto se afastava cada vez mais da casa de sua tia. Distraído chegou ao final do calçamento e encontrou algumas casas completamente destruídas. Atrás delas podia se ver o hospital Saint-Paul. Michel não tinha certeza de como voltar para casa, mas conhecia o hospital. Sua tia havia levado ele lá quando tinha machucado o joelho. Ele estava andando com seu triciclo e um estouro o fez cair no chão. Tivera até que levar pontos, mas já estava quase bom.

    Foi então que ele viu Miss Andrieu. Ela saía do hospital pedalando e estava indo em direção ao campo. Era uma moça muito bonita. Era enfermeira e dissera que ele podia chamá-la de Anna. Ela podia ajudá-lo a ir para casa. Aumentou a força das pedaladas mas Miss Andrieu estava muito à frente e sua bicicleta era muito maior que a de Michel. Mesmo assim ele não desistiu. A paisagem ao seu redor foi ficando diferente, mais escombros e menos casas. Um campo se erguia a sua frente e lá ao longe ele podia ver uma enorme propriedade. A enfermeira seguia para lá.

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    Antes de amanhecer a Radfahrertruppe estava pronta. Quando amanheceu os canhões e os tanques fizeram seu habitual barulho, mas desta vez era para esconder o avanço da tropa de ciclistas. Kaptain Otto Krauser comandava silenciosamente sua tropa através do pequeno bosque que delimitava o início de Soissons. As bicicletas nas costas seriam usadas quando chegassem ao campo. Herr Kaptain já havia estabelecido a formação da tropa, eles iriam em pequenos grupos formando um semicírculo ao redor do primeiro alvo: o hospital Vauxbuin. O hospital era um bom local para estabelecer uma base. Conforme lhes havia dito os mensageiros que sondaram o local, era uma ampla propriedade de um nobre que estava completamente equipada para receber centenas de feridos e ainda possuía uma ampla cozinha e muitas dependências.
    Erich estava à oeste da propriedade, e já via o movimento da troca de turno das enfermeiras e médicos. Eles deviam esperar a troca passar pois assim não corriam riscos de ninguém fugir e avisar as tropas francesas. Quando todos estivessem dentro do hospital, eles viriam pedalando, matariam os vigias e tomariam o controle do hospital. Médicos e enfermeiras seriam feitos prisioneiros e seriam usados para cuidar dos seus feridos. Suas bicicletas já estavam montadas e aguardando o sinal do Herr Kaptain. Erich então devia ir na direção da estrada para garantir que nenhuma pessoa chegasse até Vauxbuin com vida, ou fugisse e avisasse os franceses.

    O sinal foi dado e cada ciclista da tropa iniciou suas pedaladas em direção a Vauxbuin. Saíram do bosque e ganharam os campos ao redor da propriedade. Alguns tiros foram ouvidos e como não houve alarme, Erich soube que os vigias estavam mortos. Sua arma estava engatilhada e seus pés continuavam pedalando em direção a estrada. Os sons de tiros continuavam a ser ouvidos atrás do soldado Müller. Seus olhos não viam ninguém na estrada que levava a Vauxbuin. Então ele parou e esperou, montando guarda.

    Anna pedalava com vontade. Uma mochila em suas costas com alguns remédios dados por Miss Saint-Paul. O vento batendo em seu rosto lhe dava ânimo para o dia que estava por vir. Então ouviu os tiros. Parou imediatamente sua bicicleta e olhou ao seu redor procurando de onde vinha o som. Seu receio se confirmou quando ouviu novamente tiros e eles pareciam vir de Vauxbuin. Resolveu então sair da estrada e esconder-se. Observar o que estava acontecendo para então ver o que podia fazer. Quando se escondeu sob alguns arbustos viu um jovem soldado alemão vindo de bicicleta, arma em mãos e olhar feroz em direção a estrada. Ele parou a bicicleta e continuou olhando a estrada. Anna nem mesmo respirava para não se denunciar. O jovem alemão estava a menos de 4 metros de onde estava escondida.

    Michel continuava pedalando na estrada, seu pequeno triciclo gemendo por falta de óleo. Já fazia algum tempo que não via mais Miss Andrieu. Mas não estava preocupado, pois sabia que ela estava indo em direção a propriedade grande que ele havia visto do alto da colina. E a estrada devia ir até lá. Foi então que ouviu os estouros. Sua tia lhe disse que aquilo eram tiros e que matavam as pessoas. Pedalou com mais força, seu pequeno coração batendo com mais força. Tinha medo de Miss Andrieu ser morta. Se ela fosse para o céu como o levaria para casa? Mais algumas curvas e ele viu o soldado. Apoiado na bicicleta, uma grande arma nas mãos, apontando para ele. Mas onde estava a enfermeira Anna?

    Erich estava há tanto tempo olhando fixo para a estrada que sua mente divagou e estava de volta na pequena vila alemã onde morava, lembrando seus pais e irmãos menores. Uma cabeça surgiu no horizonte. Alguém vinha pedalando pela estrada em direção a Vauxbuin. Antes mesmo de visualizar a pessoa, ele mirou, na cabeça, e colocou o dedo no gatilho para atirar. Quando seu dedo estava apertando o gatilho, viu um vulto branco a sua esquerda vindo em sua direção aos gritos. Um instante e todos estavam no chão: Erich, Anna e Michel.

    Erich sentiu sua respiração falhar após bater com as costelas no chão. Inspirou fundo e levantou-se em um salto. Uma garota francesa, enfermeira a julgar pelas roupas, estava caída no chão. Seu cabelo havia se soltado do lenço e estava esparramado sobre sua cabeça. Juntou seu rifle do chão e apontou para a garota, enquanto olhava para a pessoa que estava vindo na estrada e que agora estava caído, provavelmente tinha sido acertado pelo tiro. Parecia apenas um garoto. A jovem enfermeira agora estava sentada e lhe pedia para deixá-la levantar. Erich não conseguia se mexer – seu primeiro tiro havia matado um garoto?

    Anna quando sentiu o choque do soldado alemão, levantou-se e correu de encontro a Michel. O pequeno órfão que havia estado há poucas semanas no hospital era um trapo caído na estrada. Parecia nem respirar. Ao chegar perto do garoto pode ver que ele ainda respirava em meio a muito sangue e poeira. Ele abriu seus olhos para Anna e lhe disse: “Eu só queria brincar de bicicleta, Miss Andrieu”. Os olhos de Anna marejados de lágrimas tentavam encontrar o ferimento em meio ao sangue. O tiro havia acertado seu estômago, não havia volta para Michel. Segurando sua pequena mão e chorando muito a enfermeira consolava o pequeno garoto. “Não chore Miss Andrieu, o céu é um lugar legal, meu papá e minha mamã estão lá.”

    Ela mais sentiu do que viu quando o soldado alemão se aproximou. Ele ainda estava em choque, mas abaixou-se e parecia pedir desculpas ao menino. Michel sorriu para o soldado e em um último suspiro lhe disse “Bicicleta legal a sua”.

    Obs.: Os personagens são fictícios mas o local e a situação foram reais e antecederam a Batalha do Marne (às margens do Rio Marne, 1914) na Primeira Guerra Mundial. Os dois hospitais realmente existiam, bem como Miss Saint-Paul (enfermeira-chefe) e o General Kluck. Soissons foi realmente atacada e invadida pelos alemães antes da Batalha do Marne, que marchavam em direção a Paris (a apenas 100Km de Soissons), mas voltou para mãos francesas logo após a Batalha do Marne e o recuo das tropas alemãs. A tropa de ciclistas do exército alemão só saiu do papel na verdade no ano seguinte (os italianos foram os primeiros a ter uma tropa ciclista) mas em 1914 já havia uma publicação chamada Die Radfahrertruppe (A Tropa de Ciclistas, em alemão) que avaliava a importância de ter uma tropa ciclista e como devia ser organizada a mesma.

  2. 6 comentários:

    1. Robson Ribeiro disse...

      Muito bom. Vivi os cenas e os cenários... Obrigado.
      Parabéns!!!

      Beijos!

    2. Confesso q nas primeiras rodadas os textos da Medéia não me chamaram tanto a atenção. Mas já há boas rodadas que isso mudou muito. A evolução dos textos foi vertiginosa, me parecem muito mais maduros, conssitentes, fortes. Este ficou demais. Tão bom que eu retiraria a observação final. A história se sustenta sozinha, independente do que tenha ou não acontecido. Grandes histórias, eu acredito, devem contar-se por si próprias. clap, clap, clap, pra vc.

    3. meu, escapou um 2 Ss vergonhoso. :P

    4. Vivi Bastos disse...

      Salve, Salve, Medéia!
      Sua evolução é mesmo digna de nota. E tudo é merito de seu esforço e dedicação. Parabéns!
      O texto é belíssimo e foi conduzido de forma tão delicada que, ao final, a impressão contraditória da paz e meio à guerra foi o que mais marcou em seu texto. Tanto a descrição quanto a narração dos fatos foram bem cuidadas de modo a fazer saltar à frente dos olhos do leitor as imagens do narrado.

      Beijocas

    5. Cris Costa disse...

      Menina Medéia,
      Parece roteiro de filme...um texto perfeito.
      Fica claro que vc realizou uma vasta pesquisa. MARAVILHOSO!
      Parabéns!

      Bjs

    6. disse...

      Parabéns pelo esforço, Medeia.
      Belo texto!