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  1. Pedacinho de céu

    15/02/2009


    Autor: Giovanni Nobile


    Uma pessoa equilibrada. É isso que era. Ou não? Bom, pelo menos assim era reconhecida pelas pessoas que participavam superficialmente de seu cotidiano. Lígia até que também se considerava uma pessoa bem centrada e, sentada no sofá da sala de seu apartamento, pensava que isso era uma coisa boa. Achava-se tranqüila e serena. Principalmente aos domingos.
    É que uma vez sua percepção da vida mudou, tomou novos rumos. Nada que alterasse o destino, mas de alguma maneira Lígia sentia que pelo menos o caminho poderia ser mais florido.
    Foi quando, num desses domingos em que o sofá de Lígia era sua sombra, o copo de refrigerante, a sua água fresca, e a sala cingia todo o sentimento que ali pudesse existir. Lígia domingava quatro vezes por mês de maneira natural e quase que sem escapatória. Aos poucos seu estado de domingar passou a tomar conta da essência de Lígia que, aos poucos se viu domingando de segunda à sexta, também. E, às vezes, só pra dar aquela variada, também tomava lugar no sofá da sala.
    O pobre sofá de couro sintético já estava com a espuma moldada no formato do corpo de Lígia deitado, tamanho era o tempo em que a tela da tevê se transformava em sua janela pro mundo e que engraçadíssimos prohgramas de humor safado de sábado à noite procuravam, numa tentativa absurda e frustrada se tornar o seu pedacinho de céu. Não dava!
    Foi quando Lígia se descobriu uma pessoa não tão centrada. Foi ali, deitada no sofá vermelho, o qual ganhou da tia Josefa, a qual não tem nada a ver com esta história, que Lígia percebeu que programas de humor devem provocar contrações no músculos da face de modo que esta ação produza no mínimo um leve sorriso, em vez de testas franzidas e uma imensa sensação de que o tempo escoa por entre os dedos.
    Lígia levantou, foi ao quarto, meteu-se num vestido preto, calçou um par de tênis também pretos, pintou os olhos e a boca, beijou o espelho e disse a si mesma: “desligue a porra da tevê e sai por aí, mulher!”.
    Foi o que fez.
    Saiu sozinha. Voltou diferente. No meio do caminho, no balcão daquele bar underground, point da subversão daquele esboço de centro urbano desorganizado onde as multidões vivem a sós, que Lígia e sua língua se encontraram com a língua e a barba de Fábio, guitarrista de uma banda que havia tocado ali tempos antes. Agora, Fábio arriscava alguns solos no corpo de Lígia que, depois de... bem, ela perdeu as contas... depois de algumas bebidas já nem sabia quem era e, enfim, Lígia desequilibrou-se!
    Caiu, ralou o cotovelo ao tentar se escorar no balcão. Fábio a levou para casa. Lígia dormiu sozinha. Fábio foi embora. Nunca mais se viram. Lígia, apesar do desequilíbrio, era uma pessoa equilibrada e a vergonha pelo alto grau de álcool no sangue a fizeram não querer mais se encontrar com o moço que, dali, saiu para outra balada, onde ficou com Carla, depois Ana, mais a Tereza e até a tia Josefa, de Lígia, antiga dona do sofá vermelho, que há semanas havia se separado do marido e, numa tentativa de se salvar do naufrágio de relacionamentos sentimentais humanos, correu para um bar se abraçar com algum outro afogado, mas, como disse, Josefa não tem nada a ver com essa história. Se bem que Fábio perdeu uma boa meia hora ali, antes de ir pra casa.
    Lígia, já no domingo, domingava, como de costume.
    Seu desequilíbrio, porém, a pôs num novo equilíbrio, quando, num estalo, viu-se abrindo a porta da estante da pequena biblioteca que mantinha em um dos três quartos do apartamento para pegar um velho livro. Lígia percebeu que para se enfrentar a vida se fazia necessário muito equilíbrio, mas além disso, foi alfinetada e acordou para descobrir que o melhor da vida se faz em algumas imensas doses de desequilíbrio.
    Foi neste domingo que Lígia deixou de domingar e pegou o livro que prometera sempre ler, mas que nunca o fazia. Em sua dose imensa de desequilíbrio, desligou a tevê, abandonou o sofá, saiu para ler no parque, sentada num banquinho de madeira. Lá, encontrou Eduardo, qua fazia caminhada com seu cão, Jumbo. Lígia desequilibrou-se e, neste encontro, conheceu o motivo para não mais domingar e, mais ainda, para não se afogar com o resto do mundo numa triste jornada noturna pelos bares e bocas alheias.
    Lígia desequilibrou-se lendo as páginas de um bom livro, reescrevendo sua história com os novos personagens Jumbo e Eduardo e, assim, passeou de mãos dadas num caminho florido. No seu novo pedacinho de céu.

  2. 5 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Giovanni,
      que texto lindo...
      Adorei a busca pela identidade de Lígia (domingava e desequilibou-se-muito bom).
      Que boas novas os livros nos trazem...agora gostaria de conhecer a história de Ligia, Eduardo e Jumbo.
      Parabéns!!!
      bjs

    2. Cris Costa disse...

      Ah!!! Me esqueci de parabenizá-lo pela ilustração, tão fofa quanto o texto...amei o Jumbo.

      (PS: ele está fazendo "pipi" no pé do Eduardo!!!!??? hehehehehehehe).
      Parabéns!!!

    3. gostei deste de novo. Interessante como a imagem do recanto bucólico apareceu em vários textos. O parque, à árvore, o ar livre.

    4. Vivi Bastos disse...

      O texto tem um tom de humor irônico, quase irreverente que me agrada muito além, da ótica diferente que você dispensou ao tema. Parabéns, moço! Quando a mono se for levada pelas àguas de março, ninguém te segura moço.

      PS: Bem lembrado, Rodrigo. Acho que só a Rê que saiu desse redemoinho do cenário bucólico. Quis fazer algo meio desconstruído, com cara de arte mas, desisti antes mesmo de começar...rsr

    5. disse...

      Oi Giovanni,

      Gostei da forma como abordou o tema da rodada. O toque de humor utilizado deu ao texto a leveza necessária para não tornar a leitura cansativa.
      Bom texto.
      Parabéns novamente.
      Abs, Rê