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  1. Quando ela entrou, pude perceber o ar de satisfação em seu rosto. Como todos os dias, sempre no mesmo horário, logo pela manhã, ela visitava a cafeteria para tomar o seu expresso e escolhia a mesa no canto direito, perto da janela.
    Hoje, porém, percebi em seu modo de olhar algo diferente, vivo e brilhante. A pele corada, o sorriso no canto da boca que revelava mais do queria revelar.
    Da minha mesa, observava os seus gestos intencionais: a mão rápida que ajeitava as longas madeixas, a boca semi-aberta como se quisesse perguntar algo, o tamborilar dos dedos na mesa. Insistentemente seguia seu olhar. Na tentativa de disfarçar minha curiosidade, fingi ler o jornal do dia, disposto sobre a minha mesa.
    Seus olhos vagaram pelo pequeno salão por alguns instantes para, de súbito, se fixarem na figura do jovem barista que se encontrava atrás do balcão.
    Concentrado, ele preparava com esmero e cuidado a saborosa iguaria.
    Li, certa vez, que o expresso é um excelente método de preparo, porque produz um gosto extraordinariamente cremoso. E, certamente, um excelente modo de unir pessoas desconhecidas.
    Pude observar quando ele ergueu a cabeça e olhou para a jovem. Sorriu, timidamente. Já sabia o que ela queria.
    Ela sorriu em retribuição para logo em seguida desviar o olhar, disfarçando observar algo além da janela.
    Enquanto isso, o cheiro agradável se alastrava pelo ambiente, como uma sinfonia bem tocada em que se é possível reconhecer cada nota executada.
    Ali, naquele lugar, o jovem barista era o Grande Maestro que habilidosamente transformava pequenos grãos em prazer e com sutileza e precisão regia as notas de aromas e sabores.
    E envoltos naquela aura de sabores, cheiros, gostos e sensações estimulantes ficávamos todos embriagados
    Minha atenção se voltou novamente para a moça que aguardava, com indisfarçável ansiedade, a bebida. Ao ser servida pelo garçom, ela agradeceu. Ajeitou-se na cadeira e tomou um gole. Respirou profundamente e fechou os olhos.
    Abriu um sorriso e com satisfação, tomou a bebida. Revigorada a alma, já se sentia preparada para dar início ao dia.
    O jovem barista discretamente a observava. Talvez tenha pensado com ele mesmo: “Não errei. Ela havia aprovado”.
    De fato, ele não havia errado, a julgar pela expressão de encantamento da moça. A bebida fora feita na medida certa. Para a cliente especial. Tinha certeza que havia utilizado todos os ingredientes na busca da xícara perfeita: técnica, habilidade e paixão.
    Ao terminar, ela pediu a conta ao garçom. Abriu a bolsa, pegou a caneta e escreveu algo no papel. Retirou o dinheiro da carteira e colocou sobre a mesa, junto com o bilhete.
    Levantou-se e seguiu para a porta, não sem antes voltar seu olhar em direção ao balcão. O jovem barista inclinou a cabeça e a cumprimentou com um sorriso. Ela saiu, renovada.
    Um encontro rápido e único, porém marcante. Assim como um expresso.
    Abri meu jornal. Li as notícias do dia, acompanhado por um bom café.


    Por Rê Lima

  2. 7 comentários:

    1. Maria disse...

      Linda história.
      Sutil, cheia de sabor e aroma e muito agradável de ler.
      Parabéns

    2. história com cara de café mesmo =)
      só um detalhe: espresso (de café espresso) é com 'S' mesmo. é de sob pressão (italiano). Expresso com 'X' é de rápido, de velocidade. Nesse caso, me parece mais um encontro expresso, ao sabor de um café espresso.

    3. Vivi disse...

      Rê, uma história do jeitinho que eu gosto. Além do que parece que fui transportada para a esfera aconchegante de uma boa cafeteria. Uma delícia de texto!

      Beijos

    4. Cris Costa disse...

      Rê,
      Hummmmmmm!!!Que texto delicioso!
      A narrativa está tão detalhada que me me senti personagem do texto, observando o que acontecia de uma mesa no canto com minha enorme xícara de café e curiosa para saber o que estava escrito no bilhete. Até senti o delicioso cheiro do café fresco.
      Parabéns!
      bjs

    5. Cris Costa disse...

      Rê,
      Hummmmmmm!!!Que texto delicioso!
      A narrativa está tão detalhada que me me senti personagem do texto, observando o que acontecia de uma mesa no canto com minha enorme xícara de café e curiosa para saber o que estava escrito no bilhete. Até senti o delicioso cheiro do café fresco.
      Parabéns!
      bjs

    6. Elisandra disse...

      Adoro um bom romance mesmo que contado em poucas linhas...parabéns.....ficou muito bom e tocante.....ate eu queria esse café....bjus elis!!!!

    7. Débora Lauton disse...

      Nossa... deu pra sentir até o cheirinho de café e fiquei com água na boca... me senti transportada para dentro do texto... tive a mesma sensação da Cris... me senti uma personagem...
      Incrível o que você criou...
      Amei, parabéns...

      bjs
      Dé...