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  1. Esquecida

    04/12/2009

    Só tinha mais um olho, feito de um botão velho com uma pequena parte quebrada. O vestido de chita azul com pequenas flores coloridas estava desbotado há muito tempo. Os cabelos de lã colorida, desfiados e cheios de nó, estavam amarrados com uma fita mimosa vermelha que não tinha mais o seu antigo brilho. Os braços e as pernas de pano estavam manchados pelo tempo: ligeiramente mofados da umidade acumulada, pequenas manchas de tinta que escondiam sua origem e leves partes puídas, que deixavam a mostra o recheio de trapos velhos.

    Há muito tempo ninguém mais brincava com ela. Há muito tempo ela estava ali naquele baú, escondida entre outras tralhas que não tinham mais utilidade. E aquele era um dia especial: era a manhã de Natal. Mas já haviam se passado muitas décadas desde que ela tinha sido feita à mão pela mãe amorosa que não tinha condições de dar outro presente à filha. Mas o Natal sempre traz momentos mágicos e especiais e, ali no quartinho da bagunça, tudo podia acontecer.

    A casa estava silenciosa. Era ainda muito cedo e todos dormiam depois da comemoração de Natal. Os fogos, o espumante e as taças, os votos de felicidades, a ceia tradicional, os presentes e aquela leve nostalgia enquanto chegava a madrugada. Tudo havia contribuído para todos dormirem muito profundamente. Apenas a mais jovem integrante da família, Camila, estava desperta e olhava a sua nova boneca. Era realmente linda, parecia uma pessoa de verdade. Rosto perfeito feito de silicone tão macio quanto a pele de um bebê. A boca rosada e cheia, o nariz arrebitado, os olhos perfeitamente desenhados de um profundo azul piscina com cílios grandes e macios. Ela falava palavras programadas, ria e repetia algumas palavras como se fosse um pequeno gravador. Camila ainda não sabia brincar com sua moderna e linda boneca.

    O dia estava amanhecendo e Camila resolveu explorar a casa em busca de algo para fazer. Não conseguia mesmo brincar com a nova boneca e não tinha mais sono. Em busca de brincadeiras secretas como só uma menina de sua idade, ela chegou ao quartinho da bagunça onde estavam as tralhas sem utilidades da casa. Revirando entre objetos quebrados e caixas, Camila encontrou a velha boneca de pano. Não era impressionante de linda como sua boneca, mas tinha um velho charme que atraía a criança para brincar. E a menina não resistiu.

    Brincou por muito tempo antes de alguém acordar e dar por sua falta. A avó acordou a mãe porque não encontrou a netinha. Onde estava Camila? Procuraram por todas as partes da casa e inclusive no quintal, apesar das portas estarem trancadas. Foi então que a mãe lembrou do quartinho de tralhas. As duas, mãe e avó, foram até lá e descobriram Camila em um momento mágico e lúdico. Brincava distraidamente com a velha boneca de pano enquanto a linda boneca de Natal jazia em um canto no outro quarto. O sorriso da menina enquanto conversava com a boneca caolha como se fosse sua melhor amiga, desarmou mãe e avó.

    A avó então reconheceu a boneca que ganhara em um Natal há muitos anos (tantos que nem mesmo lembrava quanto) e entre lágrimas lembrou da mãe amorosa que havia costurado a boneca noites sem fim, a luz de velas, enquanto todos dormiam. O olhar de Camila era o mesmo que ela mesma tinha quando ganhara a boneca. Assim, naquele Natal mágico, Camila ganhou uma amiga nova, sua mãe percebeu que o que realmente importa são os sentimentos e a avó da menina ganhou de volta lembranças de muito amor e carinho. E a boneca de pano ganhou um olho novo e foi lavada para ser novamente um brinquedo querido.

    por Medéia

  2. 3 comentários:

    1. Vivi disse...

      Oi, Medéia
      História bonita em família! Muito boa ainda que perceba que o final poderia ter sido mais bem explorado. Prefiro quando o caráter pedagógico se oculta de modo a ressaltar o momento mágico da trama: o reencontro mágico com as boas lembranças da infância.

      Beijocas

    2. Cris Costa disse...

      Medéia,
      Bela Hostória!
      Me fez recordar quando passei as minhas bonecas e itens da "casinha" para minha afilhada...Lembro do brilho dos olhos dela...Inesquecível!!!
      Parabéns!!

      Bjs

    3. disse...

      Medéia

      O seu texto tem um quê de autobiográfico...rs. Não seria?
      Deixa para lá. Importa a verdade e a emoção contida em cada palava.O fato é que o tema boneca evoca a criança que existe em cada mulher.
      Parabéns.