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  1. Um sorriso apenas

    25/01/2010

    Os olhos. Estariam abertos ou fechados? Não era possível identificar. Parecia dormir acordado. A rua era o seu quarto.
    Dali, do seu canto, enxergava o mundo: um aquário no qual observava as feras que se digladiavam por conta de comida.
    Debaixo de um viaduto qualquer guardava objetos que lhe eram caros.
    O seu preferido? A última bolacha do pacote (aquelas com as carinhas sorridentes). A única que havia sobrado. Gostava dela, era sua amiga predileta. Tinha uma cara alegre, sorria para ele todos os dias. A coitada já estava até meio mofada. Mas, não se importava com isso.
    Ao olhá-la recebia a injeção de ânimo para enfrentar mais um dia de sol escaldante e uma lua minguante. Assim, como minguada era sua vontade de viver.
    O seu sorriso de bolachinha o alimentava. Ainda que a fome estivesse ali, presente, circulando no seu estômago como uma bola que quica cada vez mais, sem parar.
    Cheirava cola e via esferas e luzes e brilhos. Um arco-íris.
    Quem sabe um dia o atravessasse e encontrasse do outro lado um pote com moedas de ouro reluzentes. E um duende pegasse em sua mão e se pusessem os dois a valsar.
    O mundo, certamente, seria melhor ali.
    E quando chegasse esse dia não iria mais voltar.

    Por Rê Lima

  2. 5 comentários:

    1. Medéia disse...

      Vejo aqui muito da nossa dinâmica.
      Foi realmente produtivo!
      Muito bom, Rê!
      Parabéns (pelo texto e pela dinâmica)

    2. Vivi disse...

      Achei o texto pura imagem. O retrato do círculo vicioso da miséria. Você se divertiu muito fazendo isso aí. È essa a impressão passada. Bom trabalho!!!!

      Beijocas

    3. a história em si, talvez não seja tão importante aqui (visto que quase não há uma história propriamente dita). mas a imagem foi de uma poética interessante. o sorriso da bolacha deixou um sorriso aqui.

    4. Cris Costa disse...

      Rê,
      Novamente parabéns pela dinâmica, esta rendeu excelentes frutos. Estou apaixonada pelo desenvolvimento dos textos.
      Seu texto, como o da Medéia parece um curta metragem. Excelente!! Hoje ao vir para o trabalho vi um Senhor com seu cachorrinho embaixo da ponte e imediatamente me lembrei do rostinho da bolacha sorridente...
      Parabéns!! Excelente!

      Bjs

    5. Maria disse...

      Os antônimos se encontram.
      O sorriso sem motivo da bolachinha com o retrato da miséria humana.
      Muito poético.
      Parabéns!