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  1. Desesperadamente, a moça de longos cachos dourados corria vestida em uma camisola transparente que revelava sua pele alva como a neve. Tal visão despertava em seu algoz o desejo incontrolável de tê-la em seus braços.

    Quanto mais sua vítima gritava, seu instinto animal aflorava sem controle. No ar era possível sentir a proximidade da força maléfica personificada na figura daquele homem que um dia fora seu amor. Por mais que ela tentasse resistir, sabia que era chegada a hora.

    Nesse instante, seu olhar parou e petrificada, sem saída, fechou os olhos para esconder o desespero que a assolava, certamente porque sabia que já não havia como escapar do destino que se tramava à sua frente.

    Não...não...NÃO! Por favor, deixe-me em paz – gritava a jovem donzela.

    Serás minha essa noite...para sempre! - disse ele.

    Acuada, se jogou em seus braços implorando clemência. Presas enormes e afiadas surgiram em sua boca. A mesma boca que um dia prometera fazê-la feliz.

    Resignada, sem forças para lutar, esperou o momento em que ele impiedosamente cravou os dentes em seu pescoço. Ele observou o sangue carmesim escorrer pela pele macia de sua amada.

    E sorriu um sorriso satisfeito.

    E então...

    Rasgo o papel!

    “Não gostei do tom do meu vampiro”.

    “A história me soa piegas e cansativa: a jovem donzela que se apaixona pelo vampiro sedutor. Óbvio demais. O típico roteiro de filme classe B”.

    Preciso de um vampiro em minha história. Quem ou o quê poderia personificar a minha visão do Drácula moderno? Odofredo!

    Como não havia pensado antes?

    Sim, o Odofredo é o vampiro ideal. Odofredo é o meu vizinho. Sabe aquele sujeito que ninguém gostaria de ter por perto? O motivo? O cara é um sugador. Suga a última gota de sangue de qualquer pessoa que se aproxime dele. Se bobear, suga até a alma.

    Ele não trabalha, passa a maior parte do tempo enclausurado naquele apartamento, como um zumbi. Sem falar que os dentes dele se parecem mesmo com as afiadas presas de um vampiro.

    Eu não duvidaria se de noite ele saísse perambulando por aí com sua capa preta à cata de vítimas.

    Não gosto de muita conversa com ele não. Só sou de dar boa noite, porque bom dia é difícil, ou melhor, impossível desejar-lhe, já que ele quase não aparece à luz do dia. O que uma pessoa faz trancafiada o dia inteiro dentro de um apartamento? Fica deitada dentro de um caixão?

    Na verdade, o cara é um louco. De pedra.

    Só à noite nos dá o ar de sua graça. E que graça. Quando todos estão pensando em dormir o sono dos justos, nosso amigo Odofredo começa o seu baticum. E haja paciência. A minha, por sinal, já se esgotou faz tempo.

    Certa noite, no alto do meu descontrole, bati à sua porta. Fui recebido, obviamente, por um Odofredo emburrado, com cara de poucos amigos.

    — O que você quer? – Odofredo perguntou.

    — Na verdade não sou só eu quem quer como toda a vizinhança quer. Dá para fazer menos barulho, porque a gente precisa dormir?

    Lembro-me apenas de uma cravada certeira de dentes em meu pescoço. De nada mais.

    Hoje, passo as noites insone. Escrevendo madrugada a fora para matar meu tédio.

    Odofredo, bom, virou meu amigão. Agora somos parceiros de noitadas vampirescas. Atacamos juntos. Já formamos até uma dupla de rock, por incrível que pareça. Ele na batera e eu na guitarra.

    Um som gótico meio casual, eu definiria

    Brindamos em taças de sangue à nossa morte todos os dias.


    Por Rê Lima

  2. 5 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Achei o máximo:"Rasgo o papel!
      “Não gostei do tom do meu vampiro”.
      “A história me soa piegas e cansativa: a jovem donzela que se apaixona pelo vampiro sedutor. Óbvio demais. O típico roteiro de filme classe B”.
      Muito criativa a reviravolta e o incrível e divertido final.
      Parabéns!!

      Bjs

    2. Medéia disse...

      Também gostei do tom divertido no final e da surpreendente reviravolta.
      Acredito que encontramos um tema com várias facetas.
      Parabéns, Rê!
      Show de bola

    3. Maria disse...

      Realmente foi uma reviravolta.
      Muito bem bolada a história.
      Aliás, adorei o tema.

    4. Vivi disse...

      Adorei o tom bem humorado de sua versão do vampiro moderno. O legal é notal o quanto você vem explorando a criatividade buscando caminhos menos óbvios. O que posso dizer? Adorei!

      Beijocas

    5. Lyani disse...

      Também adorei o tom humorado!
      Muito criativo e é realmente uma reviravolta a hora do "Rasgo o papel"! Muito bom Rê!
      bjosss