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  1. A noite tinha sido ótima. Elaine tinha se divertido à beça na festa da amiga Liliane. Ainda por cima, ela adorava aquela balada eletrônica. Nem tudo era perfeito, claro. Tinha meninos insistentes sem noção e meninas fuxiqueiras. Mas isso era normal até. Pelo menos ela tinha conhecido o Jeff. E também... o Davi. Uau. Quem sabe?
    Outra coisa problemática: Provavelmente sua mãe ia dar outra bronca fenomenal por ela chegar tarde em casa. “É perigoso! Cuidado!” A mamãe ficava sempre com essas preocupações. Argh! Odeio isso! Como às vezes não queria voltar mais pra casa, pra não ter que ouvir mais essa mãe chata, pensava Elaine.
    É verdade que as ruas estavam vazias a essa hora. E é claro que preferia que amigas a acompanhassem. Mas ninguém ia praqueles cafundós da cidade como ela. Ou quem sabe até um menino. Mas ainda não estava na hora de dar tanta bola pra um deles assim, senão o moço ia se sentir demais. Azar. Logo, logo, tá amanhecendo, e o ônibus chega. E vou pra casa. Essa minha casa detestável.

    Elaine começa a reparar no som de passos, que interrompem seus devaneios. Passos lentos e irregulares, como alguém mancando. Tonto. Um passo mais pesado, outro mais leve, inseguro.
    Hum? Será que um dos idiotas bêbados da festa me seguiu até aqui? Não pode ser. Que atitude idiota!
    “Ãrrrhrrr...”
    Putz. Esse aí tá mal mesmo.
    “Bláguiuuuu...”
    Credo. Com que dor de barriga deve tá esse aí... Deve ter bebido demais. Mas azar o dele. Quem mandou exagerar? Quem sabe se eu tentar ignorar, ele passa reto. Não tô a fim de me envolver com esses tipos.
    Mas o som dos passos, tontos, mancos, irregulares, estava cada vez mais forte. O indivíduo, seja lá quem fosse, estava definitivamente se aproximando.
    Segurando firmemente sua pequena bolsa preta, Elaine não resistiu a dar uma espiada por trás dos ombros. Atrás de um carro velho estacionado junto a um poste de eletricidade, a uma distância de umas seis casas, identificou o vulto de alguém que caminhava cambaleando. E não parecia bem vestido, como alguém que estivesse numa festa como ela. Parecia mais estar vestindo trapos rasgados.
    Olhando na direção de onde deveria vir o ônibus que esperava, Elaine deixa soltar um tanto de ar, numa expiração irritada. Não é possível. Será que é um mendigo bêbado? Ou drogado?
    Ele segue avançando, mais rápido agora. E da mesma forma, resmungando mais rapidamente agora também: “Arh, garurhg, arghu...!”
    Elaine espia de novo e observa, agora com alguma clareza, apesar de o lugar ser mal iluminado, que o indivíduo estava bem arrebentado. Credo! Todo deformado, parecia que tinha sido atropelado por um caminhão e depois caído em um caldeirão de ácido! Nem era pra conseguir andar desse jeito! Uma boa intenção de ajudar o homem passa pela sua cabeça. Será que ele está vindo para pedir ajuda?
    Mas o homem continua a se aproximar e resmungar, com cada vez mais vontade. E seu olhar, sua inteira expressão de ódio fica clara agora para Elaine. Além de várias partes de seu corpo abertas, faltando.
    E ela corre. Desesperada. E percebe que ele continua atrás dela.
    Pior: lembra-se que está de salto alto, quando um deles quebra e tropeça. Resolve tirar os dois sapatos e seguir descalça. Olha pra trás, percebe que o morto-vivo continua atrás dela. Ele gemendo e mancando.

    Elaine resolve virar uma esquina, para quem sabe assim ter uma chance de despistar o monstro esquisito atrás dela.
    Ela ganha uma surpresa, no entanto: Dá de cara com sua amiga Liliane! Mas... o que deveria ser um alívio acaba sendo uma tortura. Pois é uma Liliane totalmente deformada e ensanguentada, com pedaços do corpo e de sua carne faltando ou caindo, gemendo e mancando. E avançando, com fúria nos olhos, na direção de Elaine!
    Com grito de desespero, ela vai para outra direção, correndo. Só que... antes de avançar muito, sente um puxão na sua bolsa! Liliane a tinha agarrado. O jeito foi largá-la, e continuar a correr! Maldita! O que é isso no que ela se transformou?
    E mais passos se juntavam aos do primeiro monstro e de sua ex-amiga. Quantos havia agora? Quatro? Cinco? Seis? Olhando pra trás, até mesmo o Jeff deu pra identificar, que tava tão lindo, com sua jaqueta preta estilosa. Mas tão horrível e ensanguentado agora!
    Deus do Céu! Por que não ouvi minha mãe? Me desculpa, mãe. Eu sou uma idiota. Eu amo a minha casa.

    Elaine estava extremamente cansada e ofegante, mas não podia parar de correr. Desesperada, seu cabelo estava um horror.
    Mas peraí. Tem alguma coisa lá no céu, amanhecendo, avermelhando. É um avião? Não, mas não pode ser... É um... um... um homem voador? Sei lá, o Super-Homem? Tem até alguma coisa parecida com uma capa... Que loucura!
    O homem voador, ou seja lá o que fosse, vinha em sua direção, do lado oposto dos mortos-vivos. Mas passou reto, e foi em direção a eles. Elaine ouviu um golpe. E outro golpe. O Super-Homem estava esmurrando os monstros, pensou ela, um pouco aliviada agora.
    Mas ela não aguentava mais. No momento em que ia virar pra espiar de novo o que estava acontecendo lá atrás, ela sente dois braços a tomarem, nas costas e pernas. Petrificada, levanta voo com eles, no colo do desconhecido voador. Salva, enfim? Seja como for, fecha os olhos e mal ousa abri-los, esperando só abri-los de novo quando acordasse desse pesadelo.
    Um cheiro horrível lhe embrulha o estômago. Um líquido gosmento escorre pelas suas pernas. Ouve o gemido enjoativo de sempre: “Glãrrhrrrhhhg...” Sente um verme rastejando acima de seu quadril. Toca as mãos dele. Osso. Pedaços de pele e carne escapando.
    A uns cinco andares de altura, já perto do topo de um edifício, com o rosto contorcido de agonia, ela abre os olhos. E identifica o rosto de Davi. Ou o que era Davi. Ensandecido de ódio, com um sorriso idiota. Olhando pra ela. Babando. Língua se agitando. Pedaços de pele e carne escapando de seu rosto. Com fome.

  2. 11 comentários:

    1. Medéia disse...

      Maurício,
      Eu quero ler mais antes de comentar (mais), mas não resisti a vir aqui dizer que ri muito com o "Bláguiuuuu" e com o zumbi voador.

      Fiquei me imaginando no meio da rua ouvindo "Bláguiuuuu"... ia pensar que era um maluco... ;-)

    2. rsrsrs, que ótimo, medéia! (ou "medeia"? afinal, o seu nome não obedece à reforma ortográfica não?)

      pra mim, qto mais decibéis de risos eu conseguir arrancar do leitor, mais sucesso eu obtive com minha historinha! e assim, mais feliz eu fico! ;)

    3. Vivi disse...

      Contando assim, parece fácil escrever sobre zumbis. Mas sei que não é nada fácil. Dá para ver o cuidado que teve não só com a história e o conteúdo, mas sobretudo com a linguagem. Aliás, é ela, a linguagem, o forte do texto. É claro o público a quem ela se dirige. E, por isso, é muito bacana a inserção do coloquialismo, das gírias, do brasileirismo presente em todo o texto. Isso não é tão fácil quanto parece. Requer sensibilidade.


      Gostei demais da intromissão da Elaine na narrativa. Engraçadíssima, ela é, em grande parte, responsável pelos melhores momentos do conto.

      Esse jeito de escrever falando muito me agrada também.

      Você me enganou com o super-homem. Assim com a Elaine jurava que fosse o paladino das boas causas...rs

      Eu me diverti.

    4. Medéia disse...

      Como eu já disse antes, eu ri muito do texto, principalmente dos sons produzidos pelos zumbis e do zumbi voador do final.

      É um texto leve, despretensioso, muito fiel aos zumbis e com uma protagonista bem normal e divertida. Digo normal, porque se fosse eu, pensaria muitas vezes o mesmo que ela.

      Assim como a Vivi, gosto bastante deste jeito de escrever onde a fala e os pensamentos do personagem principal são expostos e vão guiando a história. Até porque, eu mesma costumo fazer isto... ;-)

      Fiquei pensando o tempo inteiro que era uma brincadeira dos amigos da Elaine e me surpreendi bastante com o final (positivamente). Gosto de finais surpreendentes e gosto ainda mais quando acontecem coisas impensáveis (como o zumbi voador).

      Ah... e nomes não seguem a regra ortográfica nova. Mesmo quando são apelidos... eh eh eh
      Por isto continuo assinando Medéia e não Medeia.
      Pelo menos, vi na gramática nova lá na escola, que nomes com trema, como Müller, continuam a ser escritos da mesma forma. E acredito que o mesmo sirva para o meu caso. ;-)

      Abraços e fico muito feliz por esta pitada jovial e divertida que você deu à IL.

    5. oi, turminha!

      eu tinha o objetivo desde o início do mês de misturar zumbi com super-herói. e que o super-herói não seria o esperado, rs.

      mas só ficou claro quem seria a protagonista (e quantos/as seriam as vítimas), quantos zumbis estariam envolvidos, etc., na última hora. aliás, nas 4 ou 5 horas aproximadamente que levei pra produzir a brincadeira.

      qto à linguagem e intromissões na narração... aí acho que é o estilo em que gosto de escrever mesmo, e experiências que estou fazendo! :) que legal que curtiram!

      obrigado pelo esclarecimento sobre a reforma, professora! ;) que bom que alguma coisa se salvou da reforma!

    6. disse...

      Juro que pensei que a personagem iria acordar em sua cama e soltar um "Ufa! Foi só um pesadelo!" rsrsrs...
      O Zumbi voador foi demais pra mim. Como ele voa? E como os amigos dela ficaram todos zumbis e podres tão depressa? Acho que estou fazendo perguntas demais ao invés de simplesmente aproveitar o texto, que está jovial e muito engraçado.
      Parabéns :)

    7. Concordo que também pensei nisso: como os zumbis ficaram podres tão rápido?

      Quanto ao voo... E o Super-Homem, você pode me dizer como ele voa?

      Vai ver que tanto o poder de voo como a apodrização acelerada nesta história são frutos da migração entre Krypton-Zombie e a Terra...

    8. Medéia disse...

      hahaha
      Parece que arrumamos um filósofo de quadrinhos para a IL... tenho que te apresentar um colega meu que escreveu um livro sobre filosofia e quadrinhos.
      Continuo rindo... ;-D

    9. disse...

      Ok. Vou aceitar que nem tudo precisa ser explicado e minha imaginação vai inserir um vazamento radioativo no meio da festa, ao qual ela era imune. Hehehe...

      E, Medéia, eu fiz um TCC inteiro sobre quadrinhos. rsrs... Nerds estão em todos os lugares. :P

    10. Lyani disse...

      Maurício, seu texto é ótimo! Assim como a Rê, eu também fiquei esperando que ela iria acordar do pesadelo, mas ficou ótimo da maneira como finalizou!
      Gostei demais dos sons dos seus zumbis que todo mundo tb já comentou! E como boa Nerd (eu tb sou Rê, e fiquei curiosíssima pelo seu TCC, me passa??? O.o), adoreiiii o zumbi voador a là Superman! rs
      Criatividade nota mil pra você e uma narrativa que envolve. Adorei conhecer um pouco como você escreve! Estou ansiosa pelos próximos desafios ;)
      Bjosss

    11. Arthur Cesar disse...

      Perfeito texto!

      Horror visual equilibrado com psicológico. Foi muito divertido de ler.
      Você foi muito detalhista, e eu sempre aprecio muito isso nos textos.
      E justamente por esse fato, você consegue criar um clima muito legal.

      "Será um mendigo bêbado? Ou drogado?"

      Ah Elaine, bem pior, acredite.

      Genial, parabéns!