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  1. Peço licença para a poética,
    Mas não sei rimar.
    Quero apenas o seu cérebro,
    No almoço e no jantar.
    Não me interessam suas ideias,
    Nem suas opiniões.
    Já não vivo, não me esforço,
    Não penso, só me desloco.
    Grunhindo e gemendo,
    Em busca de matar
    A fome que me corrói.

    Algumas partes de mim
    Já não estão mais comigo,
    Mesmo assim eu continuo
    Sem medo do perigo.
    Procurando massa cinzenta
    E correndo todos os riscos,
    De levar um tiro na testa,
    Por só buscar nutrição.

    Não sou belo,
    Nem romântico,
    Mas como não penso e não ligo,
    Ninguém se importa comigo.
    O que importa ser zumbi?
    Nem mesmo importa a mim.
    Continuo só querendo,
    Um cérebro fresco e quente,
    Rasgado com os meus dentes.

    Sem rima prá terminar...
    Que tal ser o meu jantar?
    por Medéia

  2. 5 comentários:

    1. Que lindo! Nunca tinha visto antes um zumbi poeta!

      Fica claríssimo, de um modo direto, que o eu lírico é zumbi a partir do terceiro e quarto versos: "Quero apenas o seu cérebro,/ No almoço e no jantar."

      Mas de uma maneira tão fofa, mamãe (com referências a almoço e jantar), que é inapagável! Do mesmo jeitinho fofo do final: "Sem rima prá terminar... / Que tal ser o meu jantar?"

      Ou seja, o eu lírico apenas "convida" o leitor a ser seu jantar. Como convidaria alguém para ser seu par numa dança. Não é agressivo. (O único verso em todo o poema que poderia ser identificado como agressivo, aliás, seria "Rasgado com os meus dentes.", o antepenúltimo.)

      "Não me interessam suas ideias,/ Nem suas opiniões." São versos lindos porque resumem que não estamos tratando com um ser humano mais em busca de diálogo... Em oposição a ele dizer que deseja um "cérebro".

      Os versos "Em busca de matar / A fome que me corrói." criam uma bela surpresa quanto ao uso do verbo "matar". Mostra que o zumbi não é "culpado" pelo que faz.

      Os outros versos não me chamaram tanta atenção como os citados. Mas adorei a palavra "nutrição". E sugiro que o verbo "ligo", em "Mas como não penso e não ligo," poderia ser melhor aproveitado também no sentido de "ligamentos" de seus pedaços, num possível duplo sentido.

      No mais, achei muito criativa e fofa, parabéns!

    2. Vivi disse...

      Eu apostava em um conto a la Medéia. Por isso, estou mesmo surpresa. No bom sentido, fique claro. Pois, a sua poesia encontrou um tom muito bacana. Brincando com vários elementos relacionados ao mito, você criou um texto muito bom.

      A fofolice da linguagem também favorece o zumbi tornando-o simpático aos nossos olhos. E, como Maurício, faço a alusão à dança tanto pelo ritmo presente na poesia quanto pelo efeito hipnótico que a fala poética produz.

      Outro ponto interessante é a solução criativa que saiu da obviedade do terror. O zumbi conquista o leitor com a sua desumanidade expressa de forma sincera, cortês e docemente irônica.

      Mesmo gostando muito dos seus contos, curti bastante a solução pensada para o tema.

      Beijocas!

    3. disse...

      Amei o poema. Nunca vi um zumbi tão, tão, tão... fofo. rsrs...

      Realmente, nunca esperei uma poesia sobre esse tema. Supreendeu e agradou muito!

    4. Medéia disse...

      Vivi, só para saber, eu tinha começado um conto a la Medéia.
      Mas me embananei porque comecei a descrever demais as coisas e não gostei de como estava ficando.
      E você sabe que meu forte não são poesias, mas que a IL sempre me estimula a escrever coisas que me fazem sair da minha zona de conforto. Então...
      Tá aí meu zumbi poeta!
      Meio torto como só um zumbi pode ser, sem se importar com isto... eh eh eh

    5. Lyani disse...

      Assim como a Vivi, eu esperei um conto à lá Medéia, mas me encantei completamente com essa poesia zumbi ;) Adorei as rimas, porque mesmo não querendo rimar, rimou rs Adorei a construção do pensamento com as palavras, o jogo entre divertido, assustador e poético. Enfim, realmente adorei!
      Foi uma ótima sacada e muito bem escrito, parabéns Medéia!!
      Bjos,
      Ly