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  1. Vossas Excelências,

    Eu realmente não consigo compreender por que precisamos seguir com esses atos escabrosos. É muito triste.
    Temos tecnologia, nos comunicamos através de uma língua extremamente complexa e evoluída, assim como é muito desenvolvida a organização social de nossa sociedade. Dominamos vários planetas da galáxia. Correto. Mas o que tirar disso? É motivo para fazer o que fazemos com eles? É o que eu espero discutir hoje com vocês, ponto a ponto.


    1 – Um dos “argumentos” que eu mais costumo ouvir é que simplesmente é essa a utilidade deles. “Eles vão servir pra quê então?” É o que inocentemente me perguntam, quando protesto a respeito. Oras, como se eles tivessem que “servir” pra algo desse gênero, em benefício exclusivo de outra espécie! E você, cidadão? O que pensaria se alguém entendesse que seu hobby ou trabalho artístico não servisse pra nada e decidisse distribuir seus órgãos para transplantes em hospitais em que haja essa necessidade?
    2 – Ah, esta outra então é ótima. “É a cadeia alimentar.” Como se isso fosse resposta para alguma coisa! É como se eu perguntasse: “Por que existe desigualdade em nossa sociedade?” E alguém me respondesse, também como se fosse a resposta mais óbvia do mundo: “É a sociedade, é a política.” Oras, mas isso é tão esclarecedor quanto dizer “porque sim”! Estou perguntando o motivo de essa situação existir, uma ordem de coisas que não precisa necessariamente ser assim! Ela só é assim porque assim assim desejamos, considerando antes que assim podemos.
    3 - Uma outra maravilhosa e cômoda resposta, bem similar a essa, é algo assim: “Não podemos fugir de nossa evolução”. Ainda mais considerando que nós somos os Evoluídos, não é mesmo? Mas bela evolução construímos, se nem ao menos possuímos mais livre-arbítrio para pensar e decidir o que é melhor e mais justo fazer então! Se nossos ancestrais pensassem dessa maneira, ainda estaríamos usando trecos tão arcaicos como aqueles que os humanos pré-históricos chamavam de tablets, e-books e internet! Sem jamais pensarmos em outras possibilidades!
    4 – Há ainda os que reclamam que não os respeito quando realizo este protesto. Ah, isso é muito frequente. Afinal, eu estaria falando contra o direito e a liberdade deles de se alimentarem, se vestirem, se divertirem, ou de disporem da sua propriedade humana como bem entenderem. Dizem que eu não respeito a opinião deles nem sua cultura.
    Ora, mas liberdade de opinião não é o mesmo que liberdade de ação – ainda mais se esta causar mal a outros interessados. E não podemos basear nossas ações apenas em “preferências” e “costumes”. Sabemos que, durante a História do Império, nossa sociedade já teve muitas falhas. Por exemplo, quando escravizamos os Evoluídos que tinham rabo e pele azul, só por causa dessas características étnicas. Antigamente, isso era permitido pela lei. Não é porque hoje isso é proibido e errado, que antes era correto “porque era a cultura da época”. Se há discordância em um tema, não significa que não possa haver uma conclusão ética melhor justificada ou embasada do que outra. É isso o que deve prevalecer.

    5 - E como pude me esquecer? Uma das respostas mais comuns é: “E as plantas?” Como se meus detratores também não consumissem plantas...
    Soa até infantil quando alguém, sentindo-se esperto, caçoa de mim: “Pobrezinha da plantinha. Você que é um covarde por abusar dela, ela não pode nem se defender.” Oras, sabemos que plantas não possuem sequer sistema nervoso ou cérebro para ter desejos e interesses, ou sentir emoções, alegria, tristeza, dor; o que de fato ocorre com os animais em geral, incluindo os humanos, evoluidoides como nós.
    Nossa espécie, que adora falar de evolução, devia entender bem isso: em termos evolutivos, não faria sentido algum que uma planta tivesse a capacidade de sentir dor, medo e desespero. Afinal de contas, essa seria uma habilidade inútil: o vegetal não teria mesmo como fugir. Dificilmente podemos observar na natureza aptidões inutilmente desenvolvidas a esse ponto, ainda mais mantidas por milhões de anos a fio. Essa característica não ajudaria de forma alguma na sobrevivência desses seres, e até permitiria um sofrimento gratuito.
    “Aprisionar” (como se plantas pudessem desfrutar de liberdade e passear por aí) e tirar a vida de uma planta para produzir um casaco ou um alimento é uma coisa. Outra bem diferente é fazer isso com um animal humano, tritão, alado ou de outras espécies. Isso é até duplamente errado, sabendo que podemos muito bem ter bons casacos e alimentos não só a partir da adorada pele e carne humana, mas também através de outros meios, como plantas e cogumelos.
    Outro dia um respeitável Evoluído cibernético até me disse a respeito disso: “Mas as plantas sentem sim, não sabia? Tem até quem conversa com elas.” De fato, acho que eu ganharia mesmo mais tempo conversando com as plantas do que com o referido ilustre senhor... Obviamente, elas possuem sensores naturais de luz e dano, mas “desejam” sua água tão ardentemente como nosso veículo de carbono “deseja” seu combustível.
    E, ainda mais engraçado: é como se estes respeitáveis senhores Evoluídos realmente se importassem com as plantas! Se nem mesmo com os humanos, que possuem uma anatomia evoluidoide como a nossa, eles se importam! Ou ainda com os outros animais, de tantas espécies espalhadas pelo cosmos!

    6 - Ah, o orgulho dos Evoluídos por ser a única espécie megarracional da galáxia! Ok, somos megarracionais, e de onde se conclui daí que temos o direito de fazer qualquer coisa que tivermos vontade com quem não seja? Aliás, por acaso, fazemos isso com os de nossa espécie que sofreram derrame cerebral ou têm deficiência mental?
    7 - Outra pérola é a seguinte: “Eles se matam um aos outros.” Ah! Pelo amor de Deus, cidadãos! Vocês parecem o tempo todo desprezar os usos e costumes desses seres, mas de repente resolvem sugerir que devamos tomar um de seus hábitos como modelo? Sendo assim, o que me dizem de, assim como eles, fumar cigarro e usar terno no calor? Vocês sabem que eles são criaturas ignorantes, a quem falta o intelecto. Eles não sabem o que fazem. Nós sim, e por isso temos responsabilidade sobre eles.

    8 - Aliás, isso faz parte da resposta que dou a uma frequente citação do início do livro sagrado da mais popular dentre as nossas tecnorreligiões. É verdade que a obra diz, considerando a voz de Deus: “façamos o Evoluído à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, e “que o Evoluído domine sobre os tritões da Atlântida, e sobre os seres alados dos céus, e sobre os bárbaros do espaço, e sobre todo o gado humano que se move sobre os planetas”.
    É fato que, seja por que motivo for, atualmente nós dominamos a galáxia. Nós somos o ser mais poderoso. Mas “dominar” significa apenas “ter autoridade ou poder sobre”, “ter influência sobre”, “prevalecer”. Isso não significa que possamos ou devamos escravizar e matar.
    Ou os prezados colegas achariam correto que as Autoridades Evoluídas, que obviamente tem autoridade (e domínio) sobre o nosso povo; ou a Capital do Império, que da mesma forma tem autoridade (e domínio) sobre os Sub-Impérios... O que achariam se elas explorassem os seus dominados como se fossem “recursos renováveis”, como são normalmente considerados os humanos?
    Que tal se alguma das nobres autoridades decidissem, a bem da melhor eficácia das pesquisas médicas e toxicológicas, levar à força Evoluídos em situação de rua para nossos laboratórios? Choca essa ideia? Então por que não choca a manutenção de milhões de humanos e outros animais confinados nos horrores desses mesmos laboratórios? Não somos tão orgulhosos de nossa ciência? Então, que ela arranje outras maneiras de descobrir coisas! Qual é o nosso mérito como civilização se a avançarmos com base na crueldade?


    9- Há ainda os profundamente céticos, que me dizem... Ah, já está acabando meu tempo? Me desculpe, vou tentar ser mais rápido, mas já estou terminando. Então, os céticos me dizem algo assim: “Não temos como saber sobre os estados subjetivos, sentimentos ou sofrimento dos humanos, se é que existem”. Essas capacidades exigiriam “uma elaboração que a linguagem primitiva humana não seria capaz de suportar”, justificam. Tudo indica que “humanos não possuem mente nem alma”, acrescentam.
    Esse é um absurdo sem tamanho, mas vou precisar também refutar. Basta dizer que, se não fôssemos capazes de perceber as emoções e interagir com os nossos queridos humanos de estimação, entre as raças que domesticamos para isso... Como eles nos entreteriam? E como os trataríamos até como queridos membros de nossa família, em vários casos?

    10 - Há ainda quem diga que é normal darmos preferência a quem nos é mais próximo. Concordo. Mas na vida não estamos o tempo todo em situações-limite, como se estivéssemos em uma cápsula espacial em chamas plasmáticas e só pudéssemos decidir entre salvar a vida de um Evoluído ou de um humano... Ou ainda decidir entre a vida de um parente e um amigo. Dar preferência não significa abusar gratuitamente do outro. Por exemplo, suponho que os Evoluídos geneticamente modificados entre nós não se achem no direito de matar ou fazer o que bem entenderem com os colegas Evoluídos cibernéticos, só porque são de outra linhagem, certo?
    A propósito, se existe essa crença fundamental no valor das relações de proximidade ou parentesco, convido os colegas a explicar por que não devemos separar pais e filhos Evoluídos, mas podemos naturalmente roubar um filhote humano de seus pais só para que tenhamos o nosso adorado leite de humana. Humanas que são engravidadas continuamente para esse fim, até não darem mais lucro aos fazendeiros e serem abatidas, na flor da idade.
    É claro que temos também outras “justas e nobres finalidades” para o leite de humana: Por exemplo, produzimos os tradicionais queijos do Norte e os chiques chocolates do Sul, um mais delicioso que o outro. Mas o que é isso, diante do que causamos aos humanos?

    11 – Outros debatedores mais ilustrados me dizem que “ética é um assunto apenas para nós, os Evoluídos”. Afinal, eles, ridículos humanos, nem sequer entendem o que é ética. Por exemplo, quando em seu habitat natural, diversos dos comuns membros da espécie humana jogam lixo no chão. Seus líderes são corruptos e roubam. E estes ainda por cima nunca se entenderam a ponto de cuidar com eficiência da preservação de seu próprio planeta natal.
    Assim, se nem mesmo podemos impor a eles deveres, pois lhes falta a capacidade mental para compreender isso, como conceder-lhes direitos? Ok, eu entendo a aparente lógica deste raciocínio. Mas devemos nos lembrar de que nossas crianças, idosos senis ou Evoluídos com deficiência também não compreendem ética e não possuem deveres. Mesmo assim, nunca pensamos em desrespeitá-los.
    12 – Bem, outros vão dizer, nem só ética esses bichos não compreendem, mas eles nos devem a sua existência inteira! Afinal, foram criados em nossas fazendas, desde o início com o objetivo de abastecer nossas lojas, restaurantes, luxos e estômagos. Certo. Infelizmente vou precisar lembrar de nossas queridas crianças Evoluídas novamente. Pois, por acaso os pais podem fazer com os filhos o que bem entenderem, considerando que os jovens devem aos seus pais sua existência inteira também?
    13 – Os colegas de espírito pragmático preferem dizer coisas como: “Não há como o Império seguir sem causar mal algum a nenhum dos planetas e povos que ocupamos.” Compreendo. Mas não é por isso que não devemos nos preocupar em causar o minimo de problemas ao nosso alcance àqueles com quem compartilhamos a galáxia.
    14 – Os amigos pragmáticos novamente estufam o peito e rebatem, aparentando um tremendo bom coração: “Mas há muitos problemas mais urgentes em nossa própria sociedade Evoluída que precisam ser resolvidos primeiro!” Sei. Como se um cidadão consciente que hipoteticamente virasse voluntário em alguma ONG que atua com Evoluídos de rua, ou com sucata espacial... É como se ele não pudesse, enquanto obrigatoriamente vai ao supermercado, shopping center e restaurante, simplesmente parar de contribuir com seus créditos para as empresas que compram, criam e abatem seres humanos e outros animais.
    15 – Por último... é claro... já ouvi respostas lindas e altruístas de mais de um Evoluído, dizendo que, se o dito-cujo fosse da espécie mais fraca, naturalmente saberia que o seu papel seria servir de alimento e para qualquer outro uso em que o dominador pensasse. Desculpem, mas disso eu duvido. Qualquer ser consciente luta com todas as suas forças contra o que lhe ameaça.
    Se nós fôssemos as vítimas, obviamente desejaríamos clemência e respeito de nossos dominadores. Reciprocamente, é nosso dever hoje aplicar essas atitudes para com nossos dominados.

    Obrigado pela atenção de vocês.

    Discurso do senador Khríton Swrinqx, traduzido do idioma oficial da Assembleia das Nações Evoluídas para o português arcaico. Ano 2.943, segundo o calendário cristão humano.

    [Texto livremente inspirado e baseado no livro “Ética & Animais – Um Guia de Argumentação Filosófica”, do filósofo Carlos Naconecy, que foi pesquisador em doutorado na PUC do Rio Grande do Sul e na Universidade de Cambridge. Também parcialmente inspirado em discurso do ativista George Guimarães na Assembleia Legislativa de SP, em 22/11/2012. // Imagem: Núcleo da Via Láctea, galáxia onde se encontra o Sistema Solar e a Terra. Fotografia obtida via infravermelho pelo Telescópio Espacial da Nasa Spitzer]

    Maurício Kanno - 28/12/2012

  2. 4 comentários:

    1. Vivi disse...

      Texto rico em argumentos cuja mensagem, ou a maior parte dela, talvez eu tenha deixado escapar em razão do pouco tempo de qualidade de que disponho nos últimos dias. A oratória com força de desabafo e persuasão adequou-se bem ao texto e ao tema da rodada. Triste imaginar que o futuro possa se encaminhar sem o progresso da consciência. Como o texto revela nas entrelinhas, o pseudo-progresso das tecnologias eletrônicas e outras tantas bandeiras da evolução são, na verdade, invólucros para encobrir o retrocesso para qual nos encaminhamos. Enfim, discussões à parte, gostei bastante da solução pensada para o tema bem como da estrutura do texto e das argumentações esclarecedoras. ;)

    2. Bonito seu comentário, Vivi! Que vocabulário! ..."pseudo-progresso das tecnologias eletrônicas e outras tantas bandeiras da evolução são, na verdade, invólucros para encobrir o retrocesso para qual nos encaminhamos"... rs. Mas é isso mesmo!

      Bem, eu acredito que a tendência, apesar disso, é que haja sempre cada vez mais progresso também ético e social, como já houve ao longo dos séculos da história de nossa sociedade...

      Cada vez mais barreiras vejo serem demolidas ou enfraquecidas: entre "raças", gêneros, país ou profissão de nascimento, preferência sexual...

      A mensagem real dos argumentos (desculpe se pequei pelo excesso e tamanho do txt, mas me empolguei; obrigado pela paciência), em síntese, é mesmo a última frase, antes do "Obrigado pela atenção, rs. Falando sério, não em um futuro distante, mas para hoje mesmo! ;)

    3. Medéia disse...

      Quando começou achei que era um discurso vegano.
      E que surpresa boa!
      Minhas palavras não são tão chiques quanto as da Vivi, mas também me agradou muito a solução para o tema.
      Mesmo longo prá caramba, gostei de ler.
      E destaco alguns trechos que me fizeram rir (como sempre).
      "o que me dizem de, assim como eles, fumar cigarro e usar terno no calor?"
      O terno matou a pau!

      "Afinal, foram criados em nossas fazendas, desde o início com o objetivo de abastecer nossas lojas, restaurantes, luxos e estômagos. "

      Caramba... viajei nesta frase e fiquei pensando (muito Matrix na minha mente) se não estamos em uma fazenda de criação mesmo... eh eh eh

      Nerd prá caramba seu texto e eu sou bem nerd para apreciar!!!!!!!
      Parabéns

    4. Medéia disse...

      Esqueci de comentar que quando me dei conta de que ele falava de humanos eu recomecei a ler tudo de novo... eh eh eh