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  1. Mundo Animal

    14/12/2012


    Há horas que ele estava preso ali sendo tratado como um humano. Já pedira seu direito a uma ligação e a um advogado, mas aqueles porcos da polícia estavam ignorando-o de propósito. Contudo ele não tinha medo. Era inocente apesar das aparências.

    Quando acordou de manhã com a cantoria do seu vizinho, o Sr. Galo, não podia imaginar tudo que ia lhe acontecer em um único dia. Já que estava acordado mesmo, exercitou-se, tomou seu café e preparou-se para o trabalho. No elevador não pode parar de admirar a gata do 701, que estava em um mini vestido rosa de dar água na boca.

    O mêtro lotado misturava odores felinos, caninos e até equinos. O calor deixava fragrâncias de diversos animais no ar. Aqui e ali viam-se alguns bichos passeando com seus humanos nas coleiras, aproveitando o frescor da manhã.

    A rotina do escritório estava mais maçante do que nunca. Os mugidos de sua chefe não lhe deixavam em paz um só momento. Um dia como qualquer outro, até a hora que acabou o expediente. Ele até tinha recebido um convite das raposas para ir a um bar para um happy hour, mas estava suado, mentalmente cansado e só queria enrolar-se no seu lençol e dormir profundamente.

    Pegou o metrô da volta, ainda mais fedorento que o da ida, e acabou cochilando. Isto lhe fez descer umas duas paradas depois da sua. Não estava com vontade de ver gente e resolveu caminhar até em casa. O sol já tinha se posto e o frescor da noite era melhor do que o bafo de um metrô lotado.

    Algumas quadras depois e já estava arrependido. O bairro era perigoso, mal iluminado e ele sabia que algumas gangues de hienas rondavam por ali. E não estava tão fresco assim. Mesmo sem sol o calor seguia atormentando seu pelo.

    Resolveu cantarolar para espantar os medos e ouviu um disparo e um balido agudo. Alguém gritava por socorro. O instinto é algo extraordinário, e ele esqueceu seus medos e correu para auxiliar quem pedia ajuda.

    Debaixo de uma árvore enorme, que escondia a luz do poste, só viu vultos quadrúpedes afastando-se do local e percebeu que alguém jazia ali, caído no chão. Aproximou-se correndo para tentar ajudar e tropeçou em algo pesado que lhe fez doer a pata. Pegou o objeto e percebeu que era uma arma calibre 38. A ovelha jazia logo ali, deitada no chão, dando seus últimos suspiros em meio ao sangue que golfava pela sua boca. Seu instinto canino mais uma vez ultrapassou seus pensamentos e abraçou-se a ovelha para tentar ajudá-la a respirar. Seus olhos inocentes fecharam-se agradecendo-lhe enquanto as sirenes chegavam.

    Os porcos imaginaram logo o pior. Ele era um cão, com uma arma na mão e com uma ovelha morta deitada no colo.

    Foi assim que fora parar naquela cela imunda e escura. Lhe deram uma comida melequenta que mais parecia ração humana e estavam se negando a chamar um advogado e a lhe dar o seu direito a um telefonema. Quando a cela se abriu, respirou aliviado pensando que teria seus direitos atendidos, mas ao se deparar com uma sala com correntes e objetos de tortura percebeu que seria mais uma vítima do sistema.

    Onde estavam os direitos animais quando precisavam deles?

  2. 3 comentários:

    1. Oi, Medéia!

      Será que o livro que te inspirou teria sido "Revolução dos Bichos" (ou "Animal Farm")? Lá também ocorrem vários animais de espécies diferentes. Mas uma delas acaba por prevalecer...

      Lembra também a proposta de "Planeta dos Macacos", em que os humanos são inferiorizados e os macacos adotam postura superior; se bem que em uma época contemporânea (não sei se tem algum dos filmes nesta ambientação também, apesar de um dos finais e o que leva a crer o final do filme mais recente).

      Mas as espécies animais aqui participantes antropomorfizadas foram tão variadas, que lembrava também bastante o mundo Disney, em que isso ocorre normalmente.

      Sem esquecer do livro em quadrinhos "Maus", de Art Spigelman. Aqui, cada nacionalidade na época da Segunda Guerra Mundial correspondia a uma etnia ou nacionalidade. Cachorros norte-americanos, gatos alemães, ratos judeus. Também havia porcos poloneses, creio eu.

      Curioso que, tanto na sua história como na clássica de George Orwell, os "vilões" são os porcos. Por que será? rs

      De todo modo, as inusitadas narrativa e situações imaginadas foram muito bem construídas! Parabéns pela criatividade!

    2. Vivi disse...

      Eu não tenho a menor intimidade com narrativas que fazem uso da prosopopeia. Não porque não goste. Talvez por falta de hábito. Mesmo não tendo referências literárias para ancorar a minha avaliação, gostei muito da abordagem, Medéia. Emprestar atributos humanos aos animais reforça a faculdade da empatia. De outro modo, alcancei o entendimento de que direitos animais é extensão dos direitos humanos. Não sei se foi a sua intenção evidenciar essa ideia, porém vi o texto por esse ângulo. Muito bom mesmo!;)

      Beijocas!

    3. Medéia disse...

      Oi Maurício

      O livro que me inspirou foi o Maus.
      Esbarrei com ele na biblioteca da escola e não cheguei a ler, mas só dei uma espiada e deu a casualidade do nosso tema ser este.

      Quanto aos porcos serem vilões... sei lá, né??? eh eh eh
      Aqui no RS os policiais da brigada militar já foram apelidados de porcos, hoje em dia não é tanto.

      E sim Vivi, o que quis passar foi justamente que direitos animais é extensão dos direitos humanos. Afinal também somos animais em nossa essência. Como será que os animais nos tratariam se fosse uma situação contrária?