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  1. por Medéia
    Abrir os olhos. Assim. Isso mesmo. O olhar ainda está turvo, mas consigo ver o vidro. Tão grosso que o percebo pela imagem turva que se forma. Não consigo distinguir nada além do vidro. Nada.
    Que lugar é este?
    Ao meu redor coisas que se veriam em um quarto: uma cama grande, um criado mudo (mais mudo que eu), um tapete macio, algumas almofadas, um aparelho de som e uma televisão. Mas que lugar é este onde o chão e as paredes são feitos de vidro?
    Olho para o alto, em direção à luz que ilumina o lugar onde estou, e o vidro sobe como em um funil. Parece infinito pois não vejo o fim, mas deve haver um fim, afinal as paredes seguem na mesma direção.
    Que lugar é este?
    Passo as mãos na parede, extremamente lisas. Mesmo assim, bem de perto, a imagem através do vidro é tão turva. Resolvo descobrir então pistas.
    A televisão e o som não estão ligados em tomada alguma (que tomada estaria em um vidro?), mas ligam mesmo assim. Será algum sistema à bateria? Ouço o som que saí do rádio e o reconheço: Cidade Negra. E na televisão? Programas estranhos de culinária em todos os canais.
    Deito na cama olhando o teto que não termina e percebo o óbvio que ainda não tinha me ocorrido: estou em uma garrafa. Garrafa? Gigante! Ou será que fui eu que encolhi?
    Isto é fantástico! Será que sou um gênio? Não!!!!! Sou apenas um assistente administrativo. Como vim parar aqui? Ofendi algum ser fantástico que me engarrafou? Não consigo lembrar.
    Sirenes!!! Meus ouvidos doem. Mas não há porta nem posso ver nada além do vidro. De onde vem este som de sirenes?
    O vidro turvo. A televisão está turva também. O som do Cidade Negra está aumentando assim como as sirenes. Tudo está rodando ao meu redor. Meu Deus! O que está acontecendo?
    Fecho os olhos pois tudo roda ao meu redor. Quando os abro novamente o vidro continua ali, mas o quarto não! Meu carro!
    Olho pelo retrovisor e vejo carros buzinando para mim. O carro da frente já andou 100 metros e eu estou aqui ainda, sonhando com uma garrafa e ouvindo Cidade Negra.

  2. 4 comentários:

    1. Cris Costa disse...

      Medéia,
      Engarrafamento é mesmo um assunto que gera milhões de idéias. Realmente dá para viajar em pensamentos enquanto se espera, inclusive, cochilar.
      Adorei!!
      Parabéns!!

      Bjs

    2. Viviane Bastos disse...

      Adoro seu eu-lírico, Medéia.
      Sabe que eu me senti tentada a usa metáfora da lâmpada maravilhosa de Aladim? Por indolência, abandonei a idéia. Depois que entrei na IL, estou pensando seriamente em montar um abrigo para idéias abandonadas. Gostei muito do seu texto e da sacada do componente alucinógeno que o estresse gera. O homem tentar atravessar a parede de vidro que impede sua livre circulação é uma ótima metáfora.

      Beijos

    3. disse...

      Amei o seu texto. A abordagem do tema, tudo exala criatividade, Medéia. O seu texto nos permite fazer diversas leituras. Já li três vezes e enxergo pontos diferentes.
      Engarrafamento, clausura, pensamentos mil, divagações, solidão em meio a sons, sirenes, buzinas, rostos.
      Parabéns, girl.

    4. Gostei da metáfora e do visual surreal, além da exploração da palavra do tema. bem legal.