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  1. Ilusões

    04/09/2008

    Por Fernanda Soares
    Eu sou como qualquer mulher. Por vezes me acho linda e outras vezes tenho medo de sair na rua. Coloco minhas esperanças no próximo presidente e sempre acho que a água não vai acabar nunca. Vivia a vida que todo mundo vive e tudo pra mim era algo superável. Tenho a idade que a maioria de vocês tem e uma vida inteira pela frente...pro meu azar!
    Desde os oito anos eu planejo tudo na minha vida. Escolhi a carreira e amigos, só não contava com metabolismo, genética e um corpo que não acompanhava tudo que eu sonhei pra mim. Por isso as incontáveis dietas, malhações, fome e uma perseguição contínua da infeliz gordura localizada na barriga. A necessidade de me livrar dela tornou-se pra mim, a razão do meu viver. E meu viver dizia que só seria feliz se fizesse uma cirurgia.
    Cheguei ao local através de uma colega de academia que havia feito uma correção plástica no rosto, uma extração de um sinal na ponta do nariz. Ela me dissera que foi o máximo e que lá era o que havia de melhor. Era um sobrado numa rua bem conhecida. Parecia um local bastante distinto e fiquei muito feliz por ser um local tão lindo. A sala de espera era limpa com sofás novos e tv sofisticada. Estava certa que pela aparência o médico era de renome. A recepcionista era nova e muito educada. Serviu-me cafezinho, revista e depois de uns vinte minutos fui encaminhada para a saleta do cirurgião. O médico parecia de capa de revista, lindo de morrer e me recebeu sorrindo. Parecia um pouco jovem pro cargo, não me importei muito com isso. Só me bastava que me operasse e deixasse todos caídinhos por mim.
    Depois de acertar preço, os pequenos cuidados e a melhor forma de pagar, fui feliz e contente pra casa pra que me operasse em dois dias. Nesses dias mal dormi, tamanha ansiedade. Era a realização de um sonho. O sonho de ser uma diva!
    Quando cheguei à clínica era tanta a animação que nem prestei atenção nos papéis e tudo mais que assinei. Não prestei atenção no pagamento no ato e muito menos a falta de enfermeiras e outros clientes. E começou minha operação...Começou também minha nova realidade.
    Depois de três dias da operação fui enviada pra casa. Meu corpo parecia ter sido socado por mil homens e eu estava toda roxa. Não sei o que houve mais algo tinha saído errado.
    Só fui tomar consciência do erro uma semana depois. Tive infecção e me levaram pra um hospital onde sofri uma nova cirurgia. Lá fui informada que a tão sonhada cirurgia plástica, tinha me custado o baço e um pedaço dos rins e minha barriga até tinha sumido como eu sonhava, só que agora ela tinha um buraco do tamanho de uma bola. Decidi voltar à clínica pra exigir que o cirurgião me devolvesse o dinheiro.
    Quando enfim tive forças e voltei ao sobrado, nem a placa constava na frente. A sala de espera estava vazia e nem os sofás, tv e recepcionista se exibiam. Parecia que um furacão havia passado levando tudo. Gelada, busquei ajuda...precisava de respostas. Será que se mudaram? O que eu poderia fazer?
    Foi difícil compreender que passei por um golpe e dali por diante teria que conviver com aquilo. Seria eternamente vítima da ilusão da beleza a qualquer custo e teria que conviver com a certeza de que me deixei enganar por um bonito picareta que me sorriu e me deixou transparecer que seria o primeiro de muitos dos homens que cairiam aos meus pés.

  2. 8 comentários:

    1. Lyani disse...

      Que horror!!!
      Não o texto, é claro, que por sinal foi mutio bem escrito e prendeu demais a minha atenção.
      O horro é da situação... nossa que triste, me imaginei passando por isso e foi muito ruim...
      Parabéns por conseguir colocar tanto sentimentos nas palavras.
      Bjos
      Ly

    2. Cris Costa disse...

      Fê,
      Adorei a abordagem do texto, a busca da beleza (perfeição) a qualquer custo, e às vezes custa a própria vida.
      Seu texto ficou excelente!!
      Parabéns!!!

      Bjs

    3. Robson Ribeiro disse...

      Fernanda, belo texto. Parabéns!
      Nos faz refletir sobre os valores amargos que povoam as nossas mentes.
      Deu uma agonia, como se tivesse acontecendo comigo ou alguém querido.

      Um abraço!

    4. Vivi Bastos disse...

      Gostei da abordagem principalmente por se tratar de uma realidade que, infelizmente, tem se repetido em nome da necessidade de se sobrevalorizar a aparência. Não que não seja um atributo humano importante. Se comparado ao valor da essência, a aparência tem um peso menor.

      Você passou muito rápido pela sala de espera, Fê. Poderia ter se detido um pouco na ambientação do personagem na sala de espera.

      No mais, o texto é de agradável leitura e enseja reflexões importantes.

      Beijins

    5. Medéia disse...

      Concordo com a Lyani, que horror esta situação!
      O texto está ótimo!
      :o)
      Mas também queria um cadinho mais de sala de espera.
      Bjos

    6. disse...

      Fê,

      Gosto da sua escrita e tenho percebido amudurecimento em seus textos a cada desafio.
      Só acho que o enfoque da sala de espera ficou um pouco a desejar.
      Mas, no geral, gostei da história.
      Obs: a fonte de cor azul no fundo branco dificultou a minha leitura. Percepção pessoal, claro! Mas, prefiro ler com a fonte no automático.
      Abs, Rê

    7. Fernanda disse...

      hhehee
      valeu os posts e observações. Pô mais a letrinha azul eu vou manter pq todos os meus textos estão sempre azul e virou mania. Sabe aquelas esquisitices de manter a letra ou o acento no lado tal...hehehe...essa é a minha
      beijooooo

    8. disse...

      :) Valeu, Fê! Como havia dito, essa é uma percepção pessoal. Fui a única a fazer o comentário.
      E claro, as observações são importantes, mas nem tudo precisa ser acatado. Nada contra a cor, amo azul, mas a minha opinião quanto ao seu uso no blog permanece.
      Beijocas, Rê