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  1. Ainam

    16/11/2008

    Por: Cris Costa


    Sentada, sozinha, no salão quatro do velório municipal, Ainam observava o pobre corpo estendido em um caixão barato. As poucas pessoas que ali estavam falavam mais de si mesmas do que da pessoa que repousava no caixão. Não havia homenagens, nem mesmo uma simples coroa de flores. Ninguém comentava, mas ela se lembrava muito bem.

    Aos 7 anos...
    Ainam, queria passar fita adesiva na boca de Paulinho. Diariamente, este se colocava a chorar quando era deixado no colégio. Mais ridículo era quando ele se agarrava à mãe para que não fosse deixado no colégio e era sempre arrastado pela professora. Ainam o achava patético e por isso não o suportava. Paulinho era fraco demais.

    Aos 15 anos...
    Contorcendo as mãos, Ainam observava os últimos acontecimentos do colégio. Detestava tudo a sua volta, o bege das paredes, a grande quantidade de janelas, o mármore da escada e os bancos de madeira. Ao seu ver as escolas eram todas iguais, a única diferença era o nome e endereço.
    A escola estava em fervorosa, o diretor arrancava os poucos cabelos que lhe sobravam. Sara, a melhor jogadora de handebol da escola, acabara de quebrar o nariz de uma garota do time adversário. Ainam odiava Sara pois esta tinha a mania obsessiva de vencer.

    Aos 22 anos...
    Júpiter estava no refeitório da universidade, contando de mesa em mesa, que Rico tinha saído com Rebeca no final de semana e, que finalmente ela tinha perdido a virgindade. Júpiter era a fofoqueira de plantão, não acontecia nada que ela não soubesse. Ainam não a suportava, era ridículo demais passar tanto tempo espalhando notícias da vida de outras pessoas.

    Aos 28 anos...
    Observava Rebeca entrar na igreja. Seu vestido de noiva era bufante, com muito brilho e um véu que parecia não ter fim. Ainam pensava o quanto Rico amava a sonsa da Rebeca, pois caso contrário sairia correndo pela porta lateral e desapareceria da face da Terra. Ainam detestava casamentos, muito mais ainda ser madrinha na companhia de um desconhecido (primo do primo do melhor amigo do irmão da noiva), um par arranjado de forma que não pudesse negar o convite. Todo aquele cerimonial era um total desperdício de tempo e dinheiro.

    Aos 36...
    Dirigia para casa e chorava ao som de Avril Lavigne no máximo do volume. Não acredita ainda que o idiota de seu chefe tinha promovido o tosco Ermínio a gerente. Ela dedicara sete longos anos na empresa e quando acreditava ter chegado sua hora, nada!! Ela não suportava aquele emprego, odiava seu chefe, odiava ainda mais Ermínio por ter aceito a promoção.

    Aos 44 anos...
    Pagou sua parte na “vaquinha” dos colegas de trabalho para a aquisição de um presente para o bebê de uma outra funcionária. Detestava participar destas homenagens. Era patético um monte de gente se juntar para comprar um único presente. Desprezava estas comemorações, ao seu ver totalmente sem sentido.

    Aos 65...
    Olhava atentamente outras mulheres do grupo. Abominava a idéia de envelhecer e ficar como as outras. De manhã caminhar como um bando de formigas, como se fosse possível recuperar a forma e ficar “gostosa” novamente. Á tarde tricotar, bordar ou pintar para arrecadar fundos para as crianças abandonadas. Em outras tarde ir àqueles bailinhos. Odiava seguir tendências, aquela mentalidade de unidade. “Vamos aproveitar a Vida”. Ainam era realista, tinha repulsa ao espírito de juventude, sabia que era momento de estudar mais sobre a osteoporose, visto que odiava leite e aproveitou a juventude para beber todo café possível.

    70 anos...
    Assistia aos programas das tardes. Diziam ser programas de entretenimento, mas na verdade eram cheios de fofocas e nada mais. Desprezava os programas de televisão. Era muito merchandising e pouca notícia relevante. Total perda de tempo...

    Voltando no tempo, percebeu que passara sua Vida criticando tudo a sua volta. Rebeca sempre lhe dissera que essa sua mania era insuportável. Notou que o tempo passara depressa e que não conseguiu deixar nenhum legado. Mas também iria deixar para quem, as pessoas sempre se afastavam dela. Desprezava a maioria das pessoas que lá estavam, na maioria grandes perdedores.

    Neste momento Ainam levantou-se e saiu rumo ao desconhecido. Odiava velórios, e, odiou muito mais aquele por ser o seu.

  2. 4 comentários:

    1. Medéia disse...

      Adorei, sirC!!!!!!!!
      Surpreendente...
      Parabéns

    2. lyani disse...

      Nossa, muito bom!!!!
      Gente, os textos estão ótimo, que difícil vai ser escolher!
      Parabéns Cris, abordou o tema perfeitamente!
      Bjos

    3. Vivi Bastos disse...

      Cris, sensacional esse texto!

      Engraçado como em todos os texto o tempo foi coadjuvante acompanhando a evolução dos surtos maníacos...rsrs

      Esse texto caiu muito bem ao tema proposto. Ainam, mania ao contrário, já foi chancela suficiente para Ainam ser o que era. E o que dizer do desfecho? Muito criativo levar a mania até a cova. Mais inveterada que isso uma mania não pode ser...rsrs

      Parabéns!

    4. disse...

      Cris,
      Parabéns pelo texto, a sua abordagem foi criativa, orginal.
      Tiraria o penúltimo parágrafo, pois ele já está subtendido em toda sua narrativa. O final da história foi interessante. Fico feliz com sua evolução.
      Parabéns, girl!!!Rê