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  1. Bulas e manuais

    24/04/2009

    Autor: Giovanni Nobile

    Não sei... Nunca tive o gosto pela leitura. Nem um livro, nem uma revista. Muito menos um jornal. Não era daqueles que lêem até bulas de remédio e quaisquer manuais. Não gosto de manuais. A não ser dos trabalhos manuais. Mas não daqueles manuais que ditam as regras, modos de uso ou coisa assim. Destes, nunca gostei. O legal é mexer, remexer, fuçar.
    Das bulas, nunca gostei, também. Não que fosse uma literatura ruim, pelo contrário. Lá existem boas palavras, coisas poéticas, até. A posologia é a parte mais interessante, em sua dose padrão. Mas em superdosagem, não há quem agüente. Enfim. Das bulas, não gosto, mesmo, das contra-indicações.
    Mas o nome – bula – é legal! Talvez porque é uma palavra de bom cheiro. É... Bula me lembra café, por causa do bule. Coisa boba, mas fazer o que? Cada pessoa tem suas manias, seus jeitos e a maneira de sentir o cheiro das palavras. Pelo menos comigo, é assim. Sinestesia, compreende? Bosque, por exemplo: pode até ser dos mais floridos, mas a palavra bosque sempre será uma palavra com um certo teor fétido. Pum, não. Todo pum é cheiroso, por mais porcalhão que seja. Pum lembra cheiro de talco de recém nascido. O que é diferente de peido... argh! Esse papo não tá cheirando bem...
    Só sei que de tudo isto de bulas e manuais, me veio à cabeça aquela música que me acompanhou nos finais de semana da minha infância: “...o tempo passa e o tempo voa...”. Tá, eu sei... Domingão na tevê não tem relação nenhuma com nada disso aqui. Mas percebi, de certo modo, que o tempo escoava pelo ralo.
    Comecei a ler!
    Aos poucos, compreendi o gosto estranho, que algumas pessoas têm, por ler bulas e afins. Certa vez, peguei-me lendo plastiquinho de bala, pote de xampu (mas ainda não decorei como se escreve isto. Se é com xis ou não...), revistas velhas ou novas. Jornais, mesmo sem boas novas. Papelzinho daqueles que são distribuídos em sinaleiros e propagandas de loja de vestidos de noiva.
    De ler uma coisa aqui e outra ali, resolvi escrever uma carta. Sei lá...Cartas têm um certo mistério, um charme, um toque diferente – além dos garranchos de uma mão que não escreve uma letra bonita, caligraficamente dizendo.
    Mas faço meus escritos, quase que egípcios hieróglifos. Mesmo assim, não mudei muito de mim. Continuo no mesmo endereço, no mesmo eu-andarilho de sempre. Hoje, leio mais... Mas isto não significa dizer que goste de tudo o que leio.
    Queria menos fofocas em revistas de bancas de jornais. Menos violência nos periódicos dominicais. Até as roubalheiras, praticadas por seres engravatados, poderiam diminuir, porque não agüento mais. Não que os textos não deveriam tratar disto, mas sim que não tivessem motivos para tais textos serem escritos.
    Leio, mas não gosto de tudo. Leio no jornal que meu dinheiro compra menos hoje do que comprava ontem. Leio na nota de um Real que nosso Deus seja louvado. Ao menos é um sinal de esperança.
    Leio, mas não gosto de tudo o que leio, entendem?
    Das bulas, só fico com a estranha sensação do cheiro, mesmo. Cheiro de café, por causa do bule. Mas do próprio café, veja você, não gosto muito do gosto, apesar de aos poucos estar me familiarizando com tal sabor junto ao leite. Porém, das bulas, só o cheiro. Nada das contra-indicações. Costumo pular este capítulo. Das bulas, só o cheiro.
    Ainda hoje não leio manuais. Não gosto das contra-indicações das boas bulas cheirosas, mas as indicações dos manuais me incomodam mais.
    Bom mesmo é viver! Viver livre, como o cheiro do café pelos corredores...
    Por isso escrevo... É uma parte de um viver intenso... É memória. É sensação que envio por carta para que se perca no tempo ou se guarde nas mãos de quem pegar primeiro.
    Não gostava de ler manuais. Mas o trabalho manual de escrever de um jeito, ainda, manual, é bom. Sem a muleta dos serviços de busca pela internet. Ah! Saudade de um jornalismo bem escrito que chegava quentinho em casa pela manhã.
    Quase como o pão e o cheiro do café.

  2. 5 comentários:

    1. Elisandra disse...

      É diferente, mas interessante....ótima criatividade....bjus elis!!!!!!

    2. teve boas passagens, mas eu acredito q tangenciou um pouquinho o tema. Se a idéia era usar o café só como uma metáfora, talvez pudesse abusar um pouquinho mais disso, inserir um pouquinho mais no corpo do texto. Curti o começo especialmente, independentemente disso.

    3. Maria disse...

      Engraçadinha, divertida. Me fez rir. Mas o rapaz aí de cima disse tudo, fugiu um pouco do tema e senti falta do aroma de café e do sabor forte.
      Mesmo assim bom texto, parabéns.

    4. disse...

      Giovanni,

      Gosto muito da forma como você escreve. É bem gostoso de ler, como um bom café.
      Seu texto me lembrou muito os textos do escritor Rubem Alves. Já disse isso antes,não?Rs...
      Mas vamos ao SEU texto.
      O texto é divertido. Parece uma tempestade de idéias escrita em forma de texto.
      Despretensioso, eu diria. No início você abordar o tema café. Penso que aí você poderia ter desenvolvido melhor o texto nesse sentido.
      O tema da rodada é retomado apenas no final.
      Eu gostei do texto. Mas, ficou a dever em cumprimento a proposta da rodada.
      Mas, mesmo assim meus parabéns.
      Abs, Rê

    5. Vivi disse...

      Olá, Giovanni

      Então, seu texto é muito instigante e só vem a reforça a boa impressão que tenho da sua prosa. Apreciei esse jogo mental de associação de idéias que assemelha-se muito ao processo cognitivo de nosso cérebro. Alguém citou tempestade de idéias e me parece isso mesmo: Um brainstorm literário muito bem pensado. No entanto, o tema do texto perdeu a sua relevância e ficou fora de contexto. Se aliasse sua forte capacidade criativa ao desdobramento do tema, o texto se tornaria excelente.

      Beijos