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  1. Por: Cristiane Costa

    Florinda passa pelo corredor e sente um odor terrível vindo do quarto 401. Chama o senhorio. A ruiva deslumbrante está deitada de bruços, nua. No travesseiro ao lado, repousa uma rosa já murcha. Ninguém viu quando ela chegou e ninguém viu quem saiu do quarto.

    O policial Simon chega ao local e a polícia técnica lhe repassa as primeiras impressões do local do crime. Em um saco plástico está a já murcha rosa. Ela era o principal elo entre a ruiva deslumbrante e as nove demais vítimas do Florista, como a imprensa estava chamando o assassino.

    Nenhuma impressão digital, saliva, sêmen ou qualquer outro resquício de que houve outra pessoa além da vítima no local. A imprensa sensacionalista já o denominava de o Florista Fantasma. A secretaria de segurança cobrava resultados da policia, o governador queria a cabeça do/da Florista. Simon sabia que se não desse a cabeça do Florista em breve para o governo, esse iria exigir a sua .

    Na boate Fol’s, Rosa e Hortência dançavam alegremente depois de várias doses de Martini. Uma loira se aproxima e começa a dançar e beber com elas. As três saem e tomam um táxi. Horas depois, no motel Flor de Lis, os corpos são encontrados degolados. Para Rosa uma margarida, para Hortência um cravo e para Líria um jasmim. Novamente as flores ligavam os casos de assassinatos.

    Simon e os demais policiais vasculham todos os quartos e arredores do motel, novamente não encontram nenhum sinal do Florista. Na primeira página dos jornais, as manchetes - ”Seria Florista um ilusionista”; “Florista 10 x Polícia 0”; “Cassino de Las Vegas procura por Florista”; “Mulheres se o seu marido lhe oferecer flores, chame 190”.

    Simon chega à delegacia e é chamado pelo Chefe. “Simom, que droga é essa. Somos os palhaços da nova corte. Até agora não ouvi o nome de nenhum maldito suspeito. O que anda fazendo?” – diz o chefe virando um frasco de aspirinas na boca como se fosse doce.

    ­- Haron, como posso ter um maldito nome, se não tenho um sinal sequer da existência física deste Florista. Para cada corpo, ele ou ela deixa uma flor, mas nada além da flor leva a crer que houve um outro alguém no local dos crimes... e senhor é impossível rastrear uma flor.
    - Então temos a louca hipótese de um suicídio em massa? – diz o Chefe, entornando a xícara de café e enviando um olhar cismado para Simon.

    - Não! É óbvio que temos um serial killer. É homicídio e não suicídio. Só não temos pistas alguma.

    - Sabe o que mais me irrita Simon?

    - Não senhor!

    - É saber que se você cair, eu caio junto e isso está me irritando profundamente.

    - Mas Haron estou fazendo todo o possível.

    - Então o seu possível não é o bastante, pois não temos um culpado depois de semanas. Simon, gosto de você como se fosse meu filho. De verdade... Admiro seu trabalho. Por isso é melhor fazer seu trabalho direitinho, e me dar um nome rápido. Não terei dúvidas em chutar esse seu traseiro durinho e oferecer sua cabeça numa bandeja para o governo. Antes você do que eu. Pense nisso! Virei a ampulheta, seu tempo está correndo – disse o Chefe abrindo a porta, encerrando a conversa.

    Simon leu e releu os relatórios da policia técnica. Não havia um mísero detalhe que possibilitasse acusar alguém. Acessou o banco de dados da policia: ladrões; traficantes; cafetões; mafiosos. Nenhum deles tinha o perfil do Florista, ou melhor, o Florista não tinha um perfil definido que levasse a alguém.

    Buscou na internet todas as floriculturas da cidade e visitou uma a uma. No fim do dia tinha uma lista com mais vinte e cinco nomes de funcionários masculinos e mais de trinta femininos. Rasgou a lista em pedacinhos e jogou na lixeira. O fato de o Florista deixar uma flor junto ao corpo não podia ser associado diretamente a funcionários ou proprietários de floriculturas.

    Simon foi para casa e adormeceu no sofá. Sonhou com lindas garotas sendo mutiladas grotescamente por uma pessoa fantasiada de palhaço, que ao tirar a máscara era ele próprio. Ouviu uma gargalhada e sentiu um carinho em seu rosto. Acordou de sobressalto, com a garganta seca. Segurava um lírio branco com um bilhete: “Fria como uma noite de inverno. Longe como o sol. Assim anda sua investigação. Bons sonhos, policial Simon!”

    Como nos locais dos crimes, não havia arrombamento nas portas e janelas. Tomou um banho instantâneo e foi para a delegacia. Levou consigo a flor e o bilhete. Foi direito para a sala do chefe.

    - Haron, o Florista esteve em minha casa. Deixou isso. – disse entregando o bilhete ao chefe – Ele é presunçoso. Não acredita que iremos pegá-lo. Logo vai cometer uma falha. Eles sempre cometem erros, não existe crime perfeito.

    - Simon, e quanto tempo você acha que vai demorar até que ele cometa um engano. – disse o chefe com desdém.

    - Chefe... Não sei. Só posso lhe garantir que o Florista vai cair em breve – Simon disse alterando gravemente a voz, decepcionado com a descrença de Haron.

    - Preciso de uma data Simon. Um mês... Um ano... Um século. Quanto tempo você acha que ele irá demorar até cometer um erro? – falou Haron irônico, bebendo o resto frio de café – Estou te afastando do caso. A partir de amanha, Foster estará assumindo as investigações.

    - Haron... Como? Você não pode fazer isso comigo! Me dê somente mais um tempo e lhe prometo a cabeça do Florista. – disse Simon descontrolado.

    - Simon, você devia me agradecer por somente lhe tirar do caso. Eu poderia te jogar no administrativo e lá ficaria até sua aposentadoria. Lembre-se que gosto de você como se fosse um filho – falou Haron abrindo a porta – Você tem muita sorte garoto.

    Quatro dias depois, Oliveira Mathias era apresentado para uma imprensa eufórica como O Florista. Os flashes das máquinas pipocavam pelo saguão da delegacia, lembrando uma boate. As manchetes anunciavam: “Florista era coveiro nas horas vagas”; “Simon fora da investigação– Florista dentro da prisão”; “Simon se perdeu no jardim do éden”; “Exclusivo: Florista afirma – A Polícia não entende de flores”.

    O policial Foster disse à imprensa que através de exames mais precisos, encontraram sêmen do Florista em uma das vitimas e assim chegaram a Oliveira. Justificou a demora nas investigações pela falta de equipamentos precisos na policia técnica. Alegou que mantiveram estas informações em sigilo para proteger a investigação, para que o Florista acreditasse que a policia estava realmente perdida. Agradeceu à atenção da imprensa e posou para fotos.
    Simon acompanhou tudo pela televisão comendo macarrão instantâneo em sua casa. Não sentiu inveja de Foster, nem raiva de Haron, pois sabia que o que era deles estava guardado. Abriu a pasta onde guardou as fotos e relatórios do caso Florista e colou um bilhete adesivo: “Florista se você é humano, te pego em breve! Você é a chave da minha promoção.” E fechou novamente a pasta.

    “AS RUAS ESTÃO LIVRES DO MEDO. AS FLORES VOLTARAM A ENCANTAR.”

    Dizia o Jornal Especial em sua edição de domingo. Ele dobrou precisamente o jornal e o colocou sobre a mesa. Tocou delicadamente a flor que decorava a mesa e terminou seu café. Colocou o boné enquanto se dirigia à porta. Olhou para Gardênia que comprava jornais e revistas na banca em frente ao café e sorriu. O mundo era um jardim e estava na hora de semear novamente.


  2. 9 comentários:

    1. Elisandra disse...

      Nossa esse texto ficou mara....olha meus Parabéns.....incrivel...ameiii....
      beijokas Elis!!!!!!!!

    2. Vivi disse...

      A vertente policial é a sua praia, Cris. Você foi na contracorrente temática que pairou na IL, né? Tudo poético e você sapecou uma narrativa policial. Ficou muito bom! Gostei da escolhas de pistas, indícios e deduções que muito contribuíra para a imagem do detetive tido, invariavelmente, como máquina de pensar acima de tudo. E num clima noir, temos a revelação final que não nos impele a uma interpretação acima de qualquer suspeita. Jóia!

    3. gostei bastante, levou meu voto. Spo pra apontar, teve uma coisinhas q me incomodaram. Os nomes americanos ficaram meio fora de contexto, visto q todos os outros sao lusófonos. Mas no geral ficou bem bacana mesmo. Parabéns.

    4. Débora Lauton disse...

      Adorei Cris... tem meu voto...
      Mas, concordo com o Rodrigo sobre os nomes estrangeiros...

      Parabéns!!

    5. Medéia disse...

      Oi Cris
      Você sabe que adoro mistérios... eh eh eh
      E quanto aos nomes, nos seus textos é comum os nomes estrangeiros, né?
      Eu sempre gosto das suas histórias longas, recheadas de suspense e com um final surpreendente.
      Parabéns mesmo!

    6. Maria disse...

      Menina
      Que suspense bom. Este texto poderia ser um roteiro de filme.
      No melhor estilo Hitchcok.
      Parabéns

    7. lyani disse...

      Cris menina que dom você tem pra crias histórias incríveis... fiquei impressionada com este... maravilhoso :)
      bjosss

    8. Desert disse...

      muito interessante o conto...adorei

    9. disse...

      Cris,

      Gostei muito da sua história. Você abordou o tema com um enfoque diferente dos demais textos.
      A história ficou muito bacana, ao ler o seu texto, imaginei um filme em preto e branco daqueles bem antigos, super bacanas.Os nomes dados aos personagens ficou bem legal. Apenas não gostei do nome do suposto serial: Oliveira Mathias?
      Ao meu ver não combinou com a trama da história.
      PARABÉNS PELA CRIATIVIDADE.

      Bjs....Rê